27/02/2021 às 22h56min - Atualizada em 27/02/2021 às 22h56min

Joe Sacco e a origem do jornalismo em quadrinhos

A arte sequencial unida ao jornalismo investigativo

Danilo Santos - Editado por Fernanda Simplicio

Poucos conhecem o gênero jornalismo em quadrinhos (JHQ), além do que talvez alguns estudantes de jornalismo mais afeiçoados à leitura de quadrinhos possam ter pesquisado durante a vida acadêmica. Isso se houver alguma menção sobre esse modo de narrar histórias durante os quatro anos de curso. Para quem não sabe, o jornalismo em quadrinhos é algo um tanto recente.


Art Spiegelman e Maus


Em 1986, Art Spiegelman publicará o primeiro volume de uma das biografias mais famosas do mundo, “Maus: a história de um sobrevivente”. Volume que ilustra como seus pais sobreviveram ao holocausto, durante a segunda guerra mundial. No entanto, em 1991 durante o lançamento do segundo volume “Maus: e aqui meus problemas começaram", obra que lhe rendeu o reconhecimento da crítica de forma arrebatadora, para um trabalho feito em formato de quadrinhos. Incluindo exibições da obra no Museu de Arte Moderna de Nova York, e o prêmio Pulitzer de jornalismo em 1992.


Joe Sacco: e o pioneirismo da arte sequencial em jornalismo

Embora Spiegelman tenha feito uma das primeiras biografias em quadrinhos. Foi pelas mãos de Joe Sacco que o gênero e o nome jornalismo em quadrinhos foi criado e tornou-se mais popular. Conquistando milhares de leitores e acadêmicos de jornalismo interessados no modelo de narrativa do autor. Porém, há quem diga que o verdadeiro autor e pioneiro no ramo foi Spiegelman. Assunto que gera debates até hoje.


Mas como ele conseguiu unir essas duas vertentes de áreas distintas e alcançou um status de pioneiro máximo do gênero JHQ?
O maltês que passou parte da infância vivendo na Austrália e depois foi para os Estados Unidos, onde se graduou-se em jornalismo, pela Universidade de Oregon. Logo após a formação, retornou a Malta para viver da sua paixão pela arte do desenho. Entretanto, não era ali que sua carreira seria alavancada com sua arte. Foi então que Joe retornou aos EUA, onde trabalhou para uma revista mensal de quadrinhos.

 

Em 1986 entrou para a Fantagraphic Books, como colaborador. E dois anos mais tarde, inicia sua jornada de viagens pelo mundo para captar as tradições e histórias de diferentes países e seus habitantes. Com o intuito de publicar uma espécie de documentário em quadrinhos, sobre essas visitas.

Palestina e Notas Sobre Gaza 

 


Ao unir a arte sequencial e o jornalismo investigativo em uma novela gráfica, termo do qual conhecemos nos grandes títulos da Marvel e DC.

Sacco se dedicou a fazer viagens ao Oriente Médio entre os anos de 1993 a 1995, com o intuito de checar o que ocorria naquele local. Foi então que surgiu Palestina e Notas sobre Gaza. Duas de suas maiores obras no formato JHQ, que lhe renderam o American Book Awards em 1996. Reconhecimento que lhe rende até hoje uma legião de fãs e destaque no ramo jornalístico e dos quadrinhos. Com histórias que captam de forma espetacular os acontecimentos que ele vivenciava durante a cobertura de diversos eventos naquelas zonas de conflito.

 

Diferente de uma fotografia estática, que pode chocar, se feita corretamente. Joe apresenta ao leitor um capítulo de cada vez, com imagens e expressões de personagens em situações reais de agonia e sofrimento, das quais nem todos os veículos de imprensa são autorizados a mostrar nos seus diários e televisivos. A intenção é clara. Mergulhar o leitor no dentro daquele cenário e apresentar os fatos com a melhor narrativa possível, sem perder nenhum detalhe. Colocando-se sempre como o personagem secundário, que faz as reportagens e narra a história. Enquanto os principais protagonistas são seus entrevistados e as situações cotidianas que ele vivencia em suas obras.

E não há melhor palavra para distinguir o maior diferencial do autor desde suas primeiras obras publicadas, senão, detalhes. Justamente porque Joe consegue desenhar absolutamente todos os cenários em que ele esteve. Desde números em carros, a janelas e portas quebradas em tal prédio, nas zonas de conflito. Claro que rolava uma ou duas fotos, aqui e ali. Mas, esse com certeza foi o detalhe que deu mais ênfase no seu trabalho. Afinal, não são situações fictícias, como nos quadrinhos habituais.
 


Ao apresentar um conteúdo nu e cru para os leitores, nós percebemos as diferentes visões na história. Do oprimido ao opressor, Palestina nos faz refletir sobre aquele pré-conceito de que ali só existem homens-bomba e terrorismo, como alguns veículos vendem desde que o Oriente Médio se tornou um palco midiático para a américa do norte. Há pessoas reais, com sonhos, medos e esperança de dias melhores e a tão desejada paz entre ambos os lados.


O jornalismo em quadrinhos no Brasil



No Brasil, temos nomes como o renomado jornalista e ilustrador, Alexandre de Maio. Conhecido por ser um dos pioneiros do jornalismo em quadrinhos no Brasil, e autor do premiado título "Raul", uma reportagem em quadrinhos que conta a história de um homem aplicando golpes bancários para sobreviver.

E também temos Cecilia Marins, jornalista e ilustradora brasileira. Uma das mais conhecidas no ramo das JHQ's nacionalmente. Os dois ficaram em 1º lugar na categoria reportagens em inglês sobre saúde, do International Center For Journalism (ICFJ), pela reportagem "Favela vs. Covid-19", recentemente.

Joe Sacco, é sem dúvida alguma um dos maiores exemplo quando o assunto é jornalismo em quadrinhos. Há um grande acervo de livros republicados em capa dura das suas histórias, videos de entrevistas no Youtube e artigos científicos, revistas e matérias pela internet para conhecer o autor. As JHQ's são um modo diferente de ver o mundo, em um perspectiva diferente do habitual. Podemos ver os desenhos e as palavras nos balões e lacunas, sentir emoção e ao mesmo tempo aprender, se informar e repassar isso para outras pessoas que não conhecem o gênero. Pois, não somente de super-heróis e histórias com a temática mais adulta, vivem os ilustradores hoje em dia. Você crescer lendo quadrinhos já é um aprendizado enorme. Ser informado por eles, como por um jornal é algo surpreendente, dinâmico e surreal.


REFERÊNCIAS:

FRAIHA, Mylena; LIBERATOR, Norberto. "Seis minas que fazem jornalismo em quadrinhos no Brasil". Revista Badaro, 2020. Disponível em: <
https://revistabadaro.com.br/2020/04/15/seis-minas-que-fazem-jornalismo-em-quadrinhos-no-brasil/> Acesso em 26 de fev. 2021.

GALLAS, Anna Kelma; VIVEIROS, Lucas Lins. "Quadrinhos e Jornalismo: a importância do híbrido de Joe Sacco para a comunicação social". Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 14 a 16 de maio 2009. Disponível em < http://www.intercom.org.br/papers/regionais/nordeste2009/resumos/R15-0598-1.pdfAcesso em 24 de fev. 2021.

"Joe Sacco - O Jornalista Quadrinista". Komix Brasil, 20 de mai. 2020. Disponível em: <http://komixbrasil.blogspot.com/2014/11/joe-sacco-o-jornalista-quadrinista.html> Acesso em 25 de fev. 2021.
 


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