06/05/2021 às 12h51min - Atualizada em 26/04/2021 às 12h36min

Bartenders: mulheres que trabalham no ramo alcoólico e a luta cultural contra o machismo

“O cliente quer saber mais do que eu, se fosse um cara eu jamais ia ter que me reafirmar a toda hora”.

Anna Francischini - Revisado por Isabela dos Santos e Mário Cypriano
Butique da Cachaça - Foto: Anna Francischini

Historicamente, em algumas culturas - como a egípcia -, o consumo de álcool era muito comum, até por crianças. Já na antiga Grécia, Hipócrates, o pai da medicina, chegava a receitar vinho para quase todas as doenças conhecidas na época. Por outro lado, a civilização romana, inicialmente, enxergava o álcool com certo receio, e as mulheres eram impedidas de consumir, podendo ser executadas pelos seus maridos se bebessem.

A bebida alcoólica também é atribuída à figura masculina nos comerciais de cerveja onde as mulheres servem a bebida aos homens, ou quando o whiskey está associado a sujeitos poderosos, tanto na realidade como na ficção. Não que o contrário não aconteça, porém, o assunto “mulheres” e “bebidas alcoólicas” ainda é bastante estereotipado. 

E se entre as consumidoras de álcool o tabu e o preconceito ainda são recorrentes, como ficam as mulheres que atuam nesses mercados e como são as oportunidades para que elas cheguem até eles?
 


Ornella Boulhosa, 24, estudante de engenharia química e proprietária da Butique da Cachaça, localizada na Zona Norte de São Paulo, conta que percebeu a disparidade entre homens e mulheres no ramo quando foi fazer um curso de bartender: primeiramente, na sala de aula haviam quatro mulheres, contando com ela, e mais 12 homens. Assim que terminou o curso, procurou mudar para a área dos drinks no restaurante onde já trabalhava como garçonete, e mesmo sendo mais especializada que o próprio chefe do bar, nunca teve a oportunidade de atuar no local.
 

Disparidade de gênero

 

Segundo o estudo “Estatísticas de gênero — Indicadores sociais das mulheres no Brasil”, divulgado pelo IBGE, as mulheres possuem maior nível de escolaridade. Entre pessoas com mais de 25 anos e ensino superior completo, elas representam 16,9% contra 13,5% dos homens. A pesquisa ainda aponta que as mulheres no mercado de trabalho atuam cerca de 73% ou 3 horas semanais a mais do que os homens, incluindo atividades remuneradas, cuidados com outras pessoas e afazeres domésticos. Mesmo assim, diante desse cenário, as mulheres recebem apenas 76,5% dos salários que os profissionais do gênero masculino.

A questão da desigualdade salarial é apenas um ponto. Uma pesquisa realizada pela Catho em 2020, mostra que mais de 43% das mulheres sofrem assédio moral no ambiente de trabalho. Segundo Tábitha Laurino, gerente sênior da Catho, quando mulheres em cargos de gerência, por exemplo, se posicionam de forma mais enfática ao exercer suas funções, essas atitudes são estereotipadas e relacionadas à TPM ou ao estresse. 

Trazendo esses dados para o dia a dia de mulheres no ramo alcóolico, Jaqueline Gomes, 24, chefe de bar de um estabelecimento na Zona Norte de São Paulo, relata os preconceitos e estereótipos que vive por ser bartender. Ela conta que quando começou a trabalhar como bartender, a equipe era formada por ela e por mais três homens. Foi quando os colegas de trabalho contaram para Jaqueline sobre o preconceito e as expectativas de um deles em relação a trabalhar com uma mulher.
 


 

“Nossa, a gente já tava pensando que por ser mulher ia ser péssimo né, porque você não ia querer pegar as coisas pesadas e não ia querer fazer isso, fazer aquilo.”


Vai dar conta?


Uma situação semelhante é relatada por Ornella em eventos, por exemplo, quando ela é várias vezes questionada se vai dar conta do trabalho, ou quando os clientes homens querem saber mais a respeito do seu trabalho do que ela mesma, com frases como: “Antes de você começar a trabalhar com isso eu já bebia há muito tempo”.

A questão da necessidade de imposição e reafirmação também é algo em comum relatado pelas duas profissionais. No caso da Jaqueline, há uma dificuldade em fazer com que a sua equipe e os garçons do seu trabalho atual a escutem da mesma forma como escutavam o antigo chefe de bar. 

 

“Quando falo algo em um tom minimamente sério que seja, eles já encaram como se eu estivesse de TPM, sendo grossa… o que é ridículo porque eu só estou falando uma coisa séria de trabalho, não é a todo momento que a gente vai rir e ser fofa”.

Ornella conta que agora trabalha sozinha, mas que em grande parte da sua carreira trabalhou com algum homem e relata um caso que aconteceu com ela. “Tem até uma situação engraçada, tinha um freelancer que não sabia nada de bar, eu que estava ensinando ele, e ele era mais respeitado que eu, acredita? Ele falava umas asneiras e as pessoas engoliam, eu tinha sempre que estar falando de forma rebuscada para as pessoas entenderem, aceitarem. O homem jamais passa por isso”. 
 

Esforço dobrado


Sobre o ingresso de mulheres no mercado de trabalho no ramo do álcool, Ornella dá dicas e diz que cursos de especialização e contatos são os melhores caminhos, mas ressalta que a bartender mulher tem que se destacar visualmente. “As bartender são contratadas porque às vezes são muito diferentes, muitas tatuagens, uma pegada mais ‘grunge’. Se você pegar uma mulher normal que você veria tomando um café, ela não se sobressai. Isso não acontece com os homens, eles precisam apenas estar lá”. 

A questão do estereótipo feminino da mulher delicada também é mencionada por Jaqueline. “Às vezes a pessoa olha e pensa que porque a gente é bonitinha, mulher, delicada, não conseguimos pegar uma caixa de laranja. Aí julgam que a gente não tem força o suficiente para aguentar o trabalho, sendo que muitas vezes podemos ser até melhores do que os homens. Ela complementa que por conta desse preconceito, as mulheres têm que "provar seu valor" e os homens não. 

 

"Eles já têm bastante valor no mercado, todo mundo valoriza eles, que acabam fazendo corpo mole. É o que acontecia naquela equipe que eu trabalhava com os três caras, eles faziam corpo mole e eu acabava fazendo praticamente tudo. Então, a gente tem que se esforçar mais para se destacar, porque se não a gente acaba sendo jogada fora”.

Apesar das situações com os diferentes grupos de clientes, as duas bartenders relatam que se sentem mais à vontade atendendo outras mulheres. No caso da Jaqueline, que tem menos contato com o público, ela consegue se abrir mais quando são clientes do sexo feminino. Já Ornella conta com grupos de clientes mulheres que preferem frequentar o local por se sentirem mais confortáveis, seguras e se identificarem com ela.


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