11/06/2021 às 07h26min - Atualizada em 11/06/2021 às 07h57min

Cruella | Uma Estranha, Prazerosa, embora genérica... surpresa

Melhor que um casaco de peles de dálmatas

Raphael Klopper - Editado por Fernanda Simplicio
Fonte: Disney / Reprodução : Google
Logo quando você achava que estava finalmente vivendo em uma época em que se poderia finalmente por um fim aos remakes da Disney, ainda mais depois do fracasso retumbante de Mulan... a Disney já tinha um filme live-action de Cruella finalizado e pronto para lançar, em mais uma tentativa tardia de revisitar um de seus clássicos consagrados como 101 Dálmatas, e explorar-lo através de uma perspectiva diferente ao focar em uma de suas mais icônicas vilãs de todos os tempos - Cruella de Vil.

Assim como já haviam feito com Malévola e A Bela Adormecida, cuja (inevitável) comparação já é capaz de te deixar se contorcendo só de imaginar outro estrago retumbante que pode advir dessa idéia de tornar uma vilã consagrada icônica, em uma anti-heroína mal compreendida. Mas, quase que milagrosamente, e diferente de outros remakes da Disney que se concentraram em recontar uma história já contada e estabelecida de forma pedante e vazia, Cruella procura contar a sua própria história, enquanto sim aludir ao que vem a seguir nos 101 dálmatas que conhecemos (ou algo próximo a isso), e a partir disso, realmente contar sua história de origem do zero.

Apenas imaginem se Desventuras em Série de Lemony Snicket, icônica história onde acompanhávamos os órfãos Baudelaire vivendo uma vida rodeada de tragédias os seguindo para onde vão, só que focada no conde Olaf no lugar deles, é basicamente o filme que temos aqui. Capturando de forma bem semelhante a sensação de ser uma história sombria e realista, sendo contada através de um espectro de fantasia lúdica bizarra, que consegue tanto te perturbar quanto encantá-lo na mesma medida.Cruella talvez não carregue o mesmo peso dessas qualidades, mas tem seus traços, especialmente nos primeiros e já imediatamente bons minutos, enquanto passamos pela trágica história da infância da personagem. Para mais tarde se tornar parte um “heist-movie”, parte conto de vingança perverso, que nunca deixa de te surpreender pela quantidade de idéias e desenvolturas que consegue ter sob as mangas.

 

Por muito disso, o filme não se parece mesmo como um projeto de encomenda de estúdio (por mais que seja), sendo dado a um diretor e o prendendo por debaixo de diretrizes a seguir sobre o que pode e não colocar no filme segundo o que eles querem. Cruella tem uma identidade muito própria, cheia de criatividade e com objetivos claros. É dinâmico e fluído em um ritmo que nunca parece nem rápido ou lento demais, muito menos picotado com continuidade brusca, há uma visão bem costurada que deixa o filme ser constantemente divertido. A direção de Craig Gillespie é cheia de energia e com boa inventividade visual sem inventar muita moda e faz sua intenção de ser ultra estilizado como se fosse um Scorsese para baixinhos. As sequências de assalto são simples, mas eficazes de te deixar com o olho grudado na tela para ver até onde toda a inventividade vai – as próprias cenas de ação impressionam por serem realmente decentes e com uma clara coreografia presente.

Seu uso de planos sequências que vão percorrendo os ambientes e revelando detalhes de cada espaço criam um senso de imersão interessante e quase lúdico, ocasionado pela costura feita com CGI que dão um toque caricatural de animação aos detalhes e dinâmica de cada cenário por qual a história percorre, o que afloresce o ar mais fantasioso de um filme imerso dentro de uma realidade, e que por ironia, o faz parecer ser um legitimo filme da Disney clássico bem mais que os recentes remakes sequer chegaram perto de conseguir fazer. E por um quarto do filme, você já imagina que o filme vai se safar como sendo apenas um funcional mero entretenimento abundando estilo acima de qualquer traço de substância, mas surpreendentemente não. Enquanto a história e o tom construídos aqui conseguem ser tanto engraçados quanto ter um gostinho de perversidade e imoralidade levemente provocativo nas entrelinhas, graças a Cruella / Estella (Emma Stone) sempre agindo com um comportamento imprevisível. Ela tenta se comportar com sua faceta de boa garota de um lado, mas parece sempre ter algo por trás daqueles olhos.

O comportamento sarcástico e altamente carismático se revela não apenas na protagonista em si, mas em todos nessa Londres setentista, espalhafatosa e imersa em extravagância, mas com exageros dosados graças ao ótimo elenco. Paul Walter Hauser como Horace está claramente se divertindo e sai roubando a cena com um carisma cartoonesco puro e absoluto. E Joel Fry como Jasper impressiona por ser estranhamente idêntico fisicamente ao personagem na animação, até a voz à personalidade, adicionada um toque mais doce que o faz ter algo próximo com Cruella que parece aludir a um suposto interesse romântico que nunca vem a ser admitido.

A narrativa de Dana Fox e Tony McNamara em sua maioria consegue ser bem estruturada, que só pode perder um pouco de seu brilho no terceiro ato, mas que realmente se compromete à premissa de desmembrar a um nível psicanalítico sobre quem é a persona de Cruella de Vil. Que começa a história apresentada como a jovem imatura de cabelo dividido em duas cores, com tendência ao mal comportamento fora do comum, mas tratada com amor pela mãe que tenta a levar por um bom caminho. Que após perde-la tragicamente (e hilariamente) se torna a rata das ruas e cresce uma vida de delinqüente virando a ladra misturada com a jovem sonhadora. E tendo, dito e repetido diversas vezes ao longo do filme, uma clara dupla personalidade dentro dela, dividida na bondade criada de Estella, e na verdadeira natureza enraizada dela, Cruella. Seguida de todos os tipos de caracterizações clichês misturadas dentro de uma só ser, e relativamente funciona bem. Para quando ela consegue seguir o caminho dos seus sonhos em uma virada do destino rumo ao mundo da moda e design de vestidos, o filme engata dentro de uma dinâmica e universo muito reminiscente de O Diabo veste Prada.

 

Ao explorar esse mundo da moda de vestidos incrivelmente glamorosos e as pessoas não tão glamorosas habitando nele, com a Baronesa de Emma Thompson no centro de tudo sendo basicamente a Miranda Priestly da vez de (a personagem diabólica de Meryl Streep), a estilista que é o diabo encarnado destratando todo mundo como lixos ambulantes que trabalham para ela, que extrapola para um nível de narcisismo e pura crueldade que até te faz pensar: “não é ela que deveria ser a Cruella?!” – o que vem a se tornar um elemento de reviravolta das mais óbvias de se precaver ao longo do filme, mas que faz total sentido. Enquanto ela se torna um antagonista formidável, e roubadora de cenas, para Estella/Cruella, estabelecendo um relacionamento que é coberto entre clara admiração, mas com crescente rivalidade compartilhada entre as duas. E mais tarde também, a vingança de Estella/Cruella contra o que a Baronesa fez à sua mãe. É também nessa batalha de designers de moda, egos e personalidades que finalmente vem a aflorar a verdadeira personalidade de Cruella para fora.

Sendo ela a protagonista aqui, a Disney, claro, estava decidida em buscar torná-la em uma protagonista relacionável e gostável antes de tudo. Apesar de toda a personalidade de genocida canina que todos remetem a ela é, aqui ela apresentada com um verdadeiro senso de humanidade, e até mesmo onde a história conclui deixando a deixa para 101 dálmatas, você consegue ver que eles estão apenas tentando recontar a história tudo de novo, mas com uma nova visão sobre o personagem. Mas diferente da roupagem de "heroína" completamente mal concebida dada a Malévola, sendo tratada como uma "pobre vítima feminina das circunstâncias machistas", Cruella passa por muitos perrengues sim, mas ela mesma comete muitas atitudes questionáveis, ela é imprudente e tem más intenções bem claras. A diferença é que entendemos o porquê e que te faz crescer uma real simpatia por ela, sem sacrificar a verdadeira natureza da personagem. E porventura, conseguir fazer uma exploração interessante dos "porquês" de sua personalidade que não parecem nunca ir contra sua caracterização, ao invés disso, está a explorando e a expandindo!

As personalidades clichês outrora mencionados, tomam um fronte de propósito. Ela é a sonhadora ambiciosa que mais e mais faz com que Estella desapareça e Cruella tome controle, a inocência e boa vontade de uma, não é capaz de lidar com a natureza efervescente da outra, dominada por uma sede de vingança sem escrúpulos que lhe traz um puro prazer quase sádico. Percorrendo um caminho de obsessões e alienações doentias que a tornam na egocêntrica bipolar transpidando de crueldade que conhecemos da personagem original, – mas de forma nada (muito) glamorizada, e sim tendo quase que um policiamento moral deixando claro de que sim, essa é uma personagem má e te faz compreender o quão errado é o que ela está fazendo.  Só que ao mesmo tempo, querem tornar ela em uma figura semi-inspiradora ao explorar que, sua busca incessante de vingança toma forma quase que uma espécie de auto-afirmação do que ela é capaz de fazer, e acima de tudo, “ser”! Sua firme atitude de escolha sobre o que ela quer ser, sem dever nada a ninguém, o que por um lado chega a ser deveras tocante, ao mesmo tempo que deixa um ar desconfortante devido a natureza cruel e criminosa que ela mais e mais se apaixona, o que eleva o ar cômico do ridículo da situação.

 

As comparações feitas por muitos ao Coringa de Joaquim Phoenix não soam tão ridículas, pois se baseia exatamente nesse mesmo percurso, de mostrar que a resposta para a crise existencial que é mostrada o personagem procurar ao longo de toda sua vida sofrida, por fim se torna a sua natureza psicótica onde ele literalmente se encontra. O que torna a história em uma tragédia irônica com um estranho ar de encanto. Cruella chega perto de atingir tal nível, mas é um pouco selada disso, seja tanto por decisões finais da história quanto a própria atuação de Emma Stone. É uma atuação que fica no limiar de estar claramente se divertindo horrores no papel, como estar um tanto forçada para soar legal e maléfica ao mesmo tempo e mais saindo como uma personagem cartoonesca fora de tom. Ainda mais com o resto do elenco onde todos sim seguem um aspecto cartunesco, mas todos dentro das notas certas. O argumento pode ser feito de que essa instabilidade é de fato proposital dada ao caos das personalidades da personagem se debatendo entre si constantemente, e também ao papel de anti-heroína punk que ela acaba se tornando na história.

O que mais uma vez, mostra os caminhos interessantes que o filme se leva ao tomar, ao meio de toda sua diversão, um percurso de estudo de personagem, explorando a fonte de sua maldade interior se dando pela dualidade em confronto ocorrendo dentro dela. E o quanto fica claro o papel que ela interpreta enquanto assume uma personalidade que não é ela, Estella é a personagem heroína sofrida de um filme, a Cruella é a essência caótica que vai vir e quebrar o molde.

Perto do fim, ela para de mentir para si mesma e abraça essa síndrome de dupla personalidade que ela sim tem e escolhe qual quer matar, e se livrar da Estella pareceu que ela estava se libertando de algo que a prendia. Ao mesmo tempo em que ela valoriza o que a mãe tentou lhe passar como lições certas de uma vida boa e justa com Estella. Por mais que agora ela sabe que jamais conseguiria se encaixar dentro dessa realidade justa e boa fabricada para ela acreditar, pois a natureza dela não a permite, ela precisa ser o que nasceu para fazer, por mais “cruel” e fora de ética que seja, é o que ela é!

Ao mesmo tempo se torna uma tragédia pessoal como também um grito por liberdade da personagem - e de uma geração querendo se assumir diferente do que as rédeas normas da sociedade definem para elas. Até mesmo a presença dos dálmatas no filme vai de ser apenas um simples fanservice, para de repente se tornar um elemento dramático comovente?! Com Cruella vindo a usar da sua própria fonte de traumas da infância estabelecidos no início do filme, como um amuleto para zombar de sua oponente. De alguma forma, matar 99 filhotes e fazer um casaco com eles tornou-se menos interessante dada essa complexo tratamento aqui.

Ao mesmo tempo que esse comportamento e percurso psicológico da personagem vem a refletir bastante também a era punk rock dos anos 70 tomando as rédeas de uma nova base de comportamento em busca de identidade própria contra normas conservadoras. Que se reflete tanto na trilha sonora empacotada de nomes e letras conhecidas que vão desde The Doors, Queen, Nina Simone, Blondie, The Clash, entre outras. Como também quando se mergulha dentro desse imaginário pop nas sequências onde Cruella provoca a normalidade monarca e seu poder explorador representado na baronesa, com sua audacidade criativa explodindo em vestes exorbitantemente chamativas e tão irreais que se tornam quase expressionistas. Evocando um comportamento anarquista e anti-establishment, fiel à sua natureza punk rock. Criando essa imagem de roupagens, moda, fashion e revolução fundidas em uma só. Tornando-se em um digno espetáculo, e com o filme se achando estar sendo tão cheio de audácia, dando a ele essa ingenuidade tão cheia de si que realmente funciona, o que é adequado dada a juventude mais rebelde do personagem mostrado aqui!

 

Mas que vai perder sua natureza provocativa quando falha em dar aquele passo extra de ousadia, que constantemente ao longo do filme provoca que irá, mas nunca assume quando chega no decepcionante final. Fazendo com que toda audácia prometida ao longo do filme acabando ser apenas uma promessa vazia, pois é muito empresarialmente covarde para ir em frente e não causar polemica com seu querido e frágil público. Porque no final das contas... essa não é a mesma Cruella que conhecemos, por mais que eles gostariam de nos convencer do contrário.

A fonte maligna de ameaça intrusiva, exigindo que tudo ocorra de acordo com sua própria vontade, não importa o quê. Ela era literalmente a encarnação do mal fascista pós-guerra na animação. Enquanto esta Estella que se torna Cruella é mais apenas uma jovem rebelde virada em anarquista social da era punk. No final pode até ser uma alusão ao fato de que sim, ela eventualmente vai enlouquecer com essa personalidade dela e se tornar a vilã que todos conhecemos na já confirmada continuação... Mas você realmente duvida disso, dado o histórico da Disney recente de sempre ter medo de dar aquele próximo e precioso passo de ir além do produto mastigado e tornar em algo legitimamente memorável.

Cruella na verdade funciona bem mais como um filme quando você ignora a parte da Cruella. Como uma comédia teen heist-movie de ação, é uma diversão enérgica elegante e com alegorias de personagens bem interessantes. Já como uma história de origem de Cruella de Vil... é outro remake inútil da Disney cheio da febre de tentativa de criar franquias. Mas na maior parte de sua concepção, é sim um filme diferente e único!




REFERÊNCIAS: 
mikannn. "CRUELLA: QUAL É A DO FILME? (e entrevista com Emma Stone e Emma Thompson!!!)". mikannn - Youtube. 01 de jun. 2021. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=79kk3ZQwjro >. Acesso em: 01 de Jun. de 2021.
 
Channel Awesome. "Cruella - Doug Reviews". Channel Awesome. 28 de mai. 2021. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=oLYRHVubf04 >. Acesso em: 28 de Mai. de 2021. 

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