10/06/2021 às 11h18min - Atualizada em 10/06/2021 às 11h16min

Como a construção social de referências de corpo impactam a vida de mulheres

A distorção de corpos começou muito antes do surgimento do Instagram, e isso vem piorando com o tempo

Brenda Fonseca - Editado por Ana Terra
Pautas feministas que buscam, em seus tópicos, o fim da sexualização e objetificação da mulher não são da atualidade. Dentro dessa perspectiva, a visibilidade feminina dentro do universo geek é de extrema importância para entendermos como isso funciona e como pode afetar a comunidade feminina como um todo.
 
Os filmes com mulheres como protagonistas vêm aumentando a cada ano, e atrizes, como Gal Gadot, são vistas como referências de feminilidade.
Mulher Maravilha 1984 / Reprodução: Warner Bros

Mulher Maravilha 1984 / Reprodução: Warner Bros

Visibilidade, objetificação e sexualização
 
As HQs são desenhadas de modo a ressaltar curvas femininas, e alguns trajes - como a da própria Mulher-Maravilha - são feitos muito curtos e mostrando o corpo da personagem em demasia.
 
E alguém pode pensar que trajes masculinos também acentuam bastante os músculos e exibem um corpo quase irreal. Mas a questão é que se constrói um universo em torno de meninas e mulheres de que elas precisam aparentar como essas referências - as geeks presentes na vida de milhões de pessoas desde a infância.
 
O modo como as mulheres são vistas e construídas pela mídia faz surgir uma cultura em torno da sociedade que restringe a existência de diferentes corpos. Além disso, o universo geek acentua bastante a ditadura da beleza existente. 
 
Isso não quer dizer ser contra mulheres que são como as personagens dessas HQs e filmes: não é ser contra ser sexy, elegante, bem arrumada ou possuir um corpo malhado. Mas sim se posicionar ao oposto da restrição. 
Arlequina: Universo DC - Edição 22 / Reprodução: DC Comics

Arlequina: Universo DC - Edição 22 / Reprodução: DC Comics

As personagens muitas vezes são lembradas, em primeiro lugar, pela sua beleza avassaladora, por seus músculos aparentes bem definidos, mas não por serem, de fato, heroínas de um universo imaginativo, suas habilidades de luta, ou qualidades que as distinguem - como a benevolência do Super-Homem ou a dignidade do Capitão América.
 
E quando colocamos essas personagens como belos corpos de trajes curtos e/ou apertados estamos, sim, reforçando a objetificação e sexualização de corpos femininos.
 
Como isso impacta a comunidade feminina
 
Crescer com suas referências favoritas do mundo geek sendo mulheres, que possuem corpos muito difíceis de serem alcançados, ou até mesmo irreais, faz reforçar o estereótipo de beleza há tempos criado.
 
A falta de naturalidade faz surgir uma distorção da realidade em que nos acostumamos com o aspecto irreal, exacerbado pela midiatização. Quem não gostaria de ser como a Viúva Negra? Ou como a Supergirl
 
Viúva Negra / Reprodução: Marvel Studios

Viúva Negra / Reprodução: Marvel Studios

Esse desejo de se parecer com quem está nas telas ou nos quadrinhos, de sentir identificação, de ver alguém como você, não faz com que façamos mudar o estilo desses corpos, mas com que corramos atrás de sermos desse jeito
 
Nós queremos nos parecer com quem acompanhamos, porque essas personas funcionam como um espelho para a sociedade, são pessoas bem vistas e queridas por muitos. Quem não quer ser assim também?
 
A realidade distorcida
 
Seria ignorância não tratar de todas as outras formas que reforçam esse estereótipo, como os filtros e blogueiras do Instagram. Ser fã de personagens com corpos esculturais e tentar trazer para essa realidade, buscando tomar consciência de sua irrealidade seria mais fácil se nas mídias sociais não existisse a distorção de imagens pessoais para que essas personagens das redes também sejam idolatradas por uma sociedade que sempre teve espelhos distorcidos
 
Crescer querendo ser linda e sensual como suas heroínas favoritas e todos os dias ser bombardeado por pessoas que reforçam essa beleza escultural é o que faz as cirúrgias plásticas têm sofrido um aumento considerável, principalmente em jovens. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), dos aproximadamente 1,5 milhão de procedimentos estéticos de 2016, 97 mil (6,6%) foram feitos em pessoas com até 18 anos de idade. 
 
É por isso que movimentos feministas, que buscam a aceitação do corpo e o amor próprio são muito importantes. Personagens geeks e usuários de Instagram muitas vezes não correspondem genuinamente com a realidade, e tentar parecer com algo artificial é tão doentio quanto esperar que sejamos como bonecos na televisão.

REFERÊNCIAS
Czyzyniewski, Sah. A sexualização feminina no Universo Geek. Gabi Cecon, 2019. Disponível em: <http://gabicecon.com.br/a-sexualizacao-feminina-no-universo-geek/>. Acesso em: 07/06/2021.
LOURENÇO, Tainá. Cresce em mais de 140% o número de procedimentos estéticos em jovens. Jornal da USP, 2021. Disponível em: <https://jornal.usp.br/ciencias/cresceu-mais-de-140-o-numero-de-procedimentos-esteticos-em-jovens-nos-ultimos-dez-anos/>. Acesso em 10/06/2021.
VICENTINI, Daniely; PUERTAS, Dianna; FERREIRA, Gabriela; SCOTT, Herson; OLIVERIA, Maykon. A visibilidade feminina no mundo geek. Conecta, 2019. Disponível em: <https://conecta.usjt.br/visibilidadefemininauniversogeek/>. Acesso em: 07/06/2021.
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