15/06/2021 às 08h50min - Atualizada em 15/06/2021 às 09h41min

Cosplay: vestindo a camisa do bem

Em entrevista, responsável pela organização Ação Cosplay conta um pouco sobre como é usar a arte Cosplay para realizar trabalhos voluntários

Anne Santos - Editado por Fernanda Simplicio
Fonte : Aline Zahirah / Reprodução : Facebook

Em época de pandemia e isolamento social, o amor e a solidariedade são o que têm aproximado as pessoas; seja em doação de alimentos, roupas, até mesmo sangue. Isso mesmo! Um dos maiores atos de solidariedade tem sido a conscientização e doação de sangue e medula óssea. Agora, imaginem comigo, você indo até o Hemocentro de sua cidade e dar de cara com o Batman fazendo a sua contribuição? Considerados verdadeiros heróis, homens e mulheres que fazem a diferença na sociedade conscientizam a população sobre a importância de doar, usando a cultura geek e a arte Cosplay como base para esse ato tão fundamental.

 

O dia mundial dos doadores de sangue é comemorado no dia 14 de junho e, pensando sobre isso, busquei o elo entre o geek e a solidariedade, encontrando uma organização especializada no assunto em uma página do Facebook. Entretanto, antes de mostrar para vocês esse bate-papo maravilhoso, vamos saber mais sobre a arte Cosplay?


O QUE É COSPLAY 

Cosplay é um termo em inglês, formado pela junção das palavras costume (fantasia) e roleplay (brincadeira ou interpretação). Pode estar relacionado com personagens de animes e mangás, games, séries, filmes, desenhos, ou qualquer outro tipo de caracterização que pertença a cultura pop. 

 

Os cosplayers não se limitam em apenas se caracterizar, mas também a interpretar a personalidade do personagem escolhido. Atualmente, existem grandes eventos direcionados aos cosplayers, Otakus (termo utilizado para designar fãs de animes e mangás no ocidente) e fãs de ficção científica, que promovem competições para premiar o melhor Cosplay. 

 

ORIGEM DO COSPLAY 

De acordo com os registros históricos, a primeira pessoa a se fantasiar de um personagem de ficção científica foi Forrest J. Ackerman, em 1939, na I World Science Fiction Convention, em Nova Iorque. 

 

A criação do termo cosplay teria surgido em 1984, quando Nobuyuki Takahashi, após visitar o evento de ficção científica em Los Angeles. Ao voltar para o Japão, escreveu um artigo para uma revista descrevendo as pessoas fantasiadas como cosplayers.

 

COMO O COSPLAY PODE INFLUENCIAR NA VIDA DAS PESSOAS 

“O cosplay é uma ferramenta extremamente útil e bem popular, todo mundo gosta. Podemos fazer essas referências heróicas: Capitão América, Mulher Maravilha, Batman, Homem Aranha, Super- Homem, que são os mais famosos e usar para influenciar as pessoas a serem melhores. Pelo simples fato de fazê-los, já é um modo de influenciar.”

 

Muitos enxergam o Cosplay como um hobby, outros como um estilo de vida, porém há aquelas pessoas que se inspiram em seus personagens preferidos para praticar o bem. 

 

“Foi a melhor coisa que eu já fiz na minha vida” disse Eron Melo, de 40 anos, protético dentário. 

 

Ele atua como Cosplay desde 2010, mas em 2013 entrou para a organização intitulada Ação Cosplay, criada por seu amigo Robert, que percebeu o benefício dos Palhaços da Alegria ao passar boa parte de seu tempo no hospital com sua filha, e, com o apoio de amigos, usou a inspiração para praticar atos de solidariedade. Entretanto, Robert precisou se retirar do grupo, deixando Eron como responsável da organização. 

 

A Ação Cosplay não tem sede; usa um grupo no WhatsApp para reuniões e marcação de compromissos e conta com cerca de trinta membros ativos, espalhados por toda cidade do Rio de Janeiro, principalmente da Baixada Fluminense e Zona Norte. É uma entidade filantrópica, sem fins lucrativos, que cultiva campanhas como doação de sangue e alimentos para algumas instituições. 

 

A organização realiza trabalhos voluntários sociais educacionais em hospitais, escolas, asilos e até orfanatos, mas por conta da Covid-19, está com poucos trabalhos. O último trabalho realizado com a equipe foi no ano passado, no HemoRio, durante o Carnaval. O bloco Sangue Bom percorreu o hospital cantando marchinhas, levando alegria a todos que ali estavam. Eron reforça que:

 

“Nosso projeto em si é fazer o que fazemos, que é dar o nosso melhor, fazer a vida das pessoas mais felizes, impactar positivamente, e levar uma consciência social, principalmente para jovens e crianças. Esse é o nosso maior objetivo. Estou louco para voltarmos com carga total.”



DIFICULDADES EM SER UM COSPLAY ATUANTE DE AÇÕES SOCIAIS 

Durante a entrevista, conversamos sobre a necessidade de estimular a doação de sangue e medula óssea; sobre usar o Cosplay para influenciar as pessoas a praticarem a empatia e amor ao próximo, e as dificuldades que essa arte tão especial demanda. 

 

Segundo Eron, o maior desafio de um Cosplay é montar o figurino da forma que planeja, alegando que não é apenas uma fantasia, mas a busca de uma réplica perfeita do personagem que ama.

 

“Eu já fiz inúmeros cosplay do Batman e fui melhorando com o passar do tempo. O meu primeiro Batman… Eu tenho até vergonha da primeira foto (risos). Vamos melhorando, melhorando, até conseguirmos chegar onde queremos. Então, para mim, o maior desafio é conseguir o resultado que você espera.”

 

E não para por aí, de acordo com seu relato, há muitas outras coisas que são essenciais para ser um bom Cosplay atuante em causas sociais. Primeiro de tudo, é a disciplina. Precisa ter disciplina, conhecer  os seus próprios limites, as regras dos hospitais e como se comportar para evitar a contaminação. Além disso, é necessário estar com o psicológico bem preparado para atuar nesse trabalho. Ele narrou detalhes dos acontecimentos durante a visita em um hospital especializado em tratamento de câncer infantil, exemplificando a necessidade de estar se sentindo bem para deixar os outros bem. 

 

“Uma colega viu um garoto numa situação difícil, a mãe do menino fragilizada, e começou a chorar. Isso não pode acontecer, mesmo se você estiver se doendo por dentro.”

 

Eron narrou duas experiências consideradas impactantes, sendo levadas como lições de vida. Entrando em um quarto de hospital, deparou-se com um rapaz, que não parecia passar dos 30 anos, com um tubo conectado à garganta e as duas pernas amputadas. No mesmo instante, pensou consigo mesmo: “meu Deus, o que eu estou fazendo aqui? O que eu falarei para esse cara? Esse homem deve estar revoltado, com ódio de tudo, e não vai pensar duas vezes em jogar alguma coisa em cima do babaca vestido de Batman”. Contudo, a atitude do homem o surpreendeu em níveis extraordinários, pedindo-o que assustasse o seu primo, que o acompanhava e estava dormindo. 

 

“Ele pediu para eu me aproximar e disse: ei, cara, acorda o meu primo. Dá um susto nele. Eu fiquei: meu Deus, o cara está numa situação dessas e o que ele pensou foi em fazer uma piada? Me usou para assustar o primo e depois tirou foto comigo. Aquele homem tem um estado de espírito evoluído gigantesco! O cara não estava com raiva, não estava chorando… Ele estava sentido, claro, ele não se deixou abater, não está reclamando da vida. Aquilo foi uma lição para mim.”

 

USANDO O COSPLAY PARA FAZER O BEM

O trabalho é difícil, precisa ter bom preparo psicológico, mas não deixa de ser algo bom e muito benéfico. Conforme seu relato, informou que o melhor em ser um Cosplay que trabalha em eventos sociais, é ser útil. Levar esperança, alegria, quebrando o clima pesado que é o quarto de um hospital. Saber que contribuiu para melhorar a vida de alguém pode parecer algo pequeno, mas dependendo da situação da pessoa, há um impacto muito grande. Conseguir impressionar não só crianças, mas adultos e idosos se torna algo fantástico de ser vivido. 

 

 “Chegar ao hospital e ouvir as pessoas dizerem: nossa, o Batman! É muito legal. Os outros acham que apenas crianças sentem aquela euforia, mas não. Eu posso dizer que uma das maiores experiências foi no quarto das senhoras; elas ficaram encantadas! Fizeram uma algazarra, uma brincadeira… Eu até me casei lá dentro, com uma das pacientes. Ela tinha mais de 70 anos de idade. Ver adultos virando criança é legal demais, né?” completou ele.


“Seja a mudança que você deseja ver no mundo. Quer um mundo melhor, então comece por você.” 
 


 

O que Eron quer, é o que todo cidadão brasileiro deseja: amor ao próximo e empatia. Algo essencial que falta na sociedade, em vários aspectos. Essa falta reflete na sociedade, ainda mais agora, em época de pandemia. 

 

“O amor ao próximo precisa ser ação, não apenas falado. Nós falamos muito sobre amor, cantamos sobre amor, mas não fazemos nada. Amor não é apenas palavras, é ação. Solidariedade é o amor na prática. É por isso que a gente trabalha. Voluntariado é amor na prática.”  finalizou.

Sendo doador ou não, todos deveriam vestir essa camisa de solidariedade e espalhar sobre a importância de doar. Cada um faz a sua parte, mesmo parecendo mínima, pode ajudar o próximo e acabar virando o herói na vida de alguém.


ADAMI, Anna. Cosplay. INFOESCOLA. Disponível em: < https://www.infoescola.com/cultura/cosplay/> Acesso em: 12 de jun. de 2021.
 

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