07/06/2019 às 17h38min - Atualizada em 07/06/2019 às 17h38min

Grupo no WhatsApp une comunidade LGBT geek

Carolina Rodrigues - Editado por Bárbara Miranda
MONTAGEM: Carolina Rodrigues
Diógenes Severino, também conhecido como Dio ou Di pelos amigos, passou algum tempo tentando encontrar amizades com mesmo gosto que o seu: cultura geek. “Eu sempre fui contra aquele estereótipo ‘você é LGBT, então gosta das divas pop...’. Eu tenho essa pegada muito mais geek, voltada para tecnologia e jogos de tabuleiro”, ele conta parte da caminhada, até chegar ao marco definitivo de sua vida.

O Queer Geek foi pensado para ser um grupo geek de pessoas LGBTQIA+ no WhatsApp. As primeiras divulgações da iniciativa não derem certo, mas Dio não desistiu. Lançou um perfil da ideia no Tinder. “Imaginei que tinha muita gente solteira querendo novos amigos para sair”, afirma.

Pensa só: você tranquilo no Tinder, procurando alguém legal para conversar, deslizando a tela para lá e para cá, quando de repente encontra um perfil icônico sobre cultura geek. Dar like ou não?
 
Like ou Super like? | CRÉDITOS: Carolina Rodrigues

Pedro Camargo (26), um dos veteranos do grupo, revela que estranhou a iniciativa. “Meu medo era entrar em um grupo desses que só teria paquera, nudes e o pessoal falando de sexo”. Mesmo assim, decidiu arriscar e aceitou o convite.

“Quando entrei, no início eu ainda temia que isso acontecesse. Mas eu vi pessoas que estavam ali pelo mesmo motivo que eu, para encontrar amigos que fossem gays e geeks, por isso resolvi insistir no grupo”. Não deu outra: ele participa da empreitada até hoje e é um dos responsáveis pelo crescimento do projeto.

O Queer Geek nasceu em maio de 2018 a partir de uma pequena necessidade pessoal e acabou se tornando uma iniciativa grande e contestadora.  
 
CRÉDITOS: Carolina Rodrigues

PRIMEIROS PASSOS

Conforme a comunidade foi crescendo, Dio chamou alguns amigos para administrar o grupo. Hoje, cinco pessoas se dividem para organizar o grupo no WhatsApp, o Instagram, o site e eventos.

Primeiro surgiu o Instagram. No estilo Humans of New York, cada integrante do grupo contava um pouco sobre si, além de responder à pergunta “como você se identificou com o público LGBT e geek?”. Para Dio, o objetivo desse tipo de postagem era fazer com que mais pessoas se identificassem com quem já estava no grupo e, assim, atrair mais gente interessada em compartilhar uma boa conversa geek. Não é atoa que hoje a rede social do Queer Geek possui mais de três mil seguidores e o grupo no WhatsApp mais de 130 pessoas.

A medida em que foram se conhecendo e fortificando a amizade, eventos presenciais começaram a ser organizados. Sob direção de Dio, o QG faz o LudoQueer e o Game Night. “A LudoQueer é um evento de jogos de tabuleiro num bar parceiro. Levamos os jogos e todo mundo participa. Já o Game Night é no salão do prédio de um dos membros. A noite é focada em vídeo games e bate-papo e, além deles, também divulgamos outros eventos, como passeios em parques, eventos da cultura geek em bares e festas”, Dio explica. Às vezes também são feitos piqueniques, idas ao teatro – em parceria com um dos atores da peça (participante do grupo), todos conseguiram meia entrada – e a temática desse mês, em ritmo de festa junina, Queermesse.

Todos os eventos acontecem em São Paulo, mas alguns já aconteceram no Rio. Um dos principais objetivos é alavancar o QG para que eventos aconteçam em outros estados.
 
Festa VHS com integrantes do Queer Geek | CRÉDITOS: print screen

O site é o projeto mais recente desenvolvido pelos administradores. Criado há dois meses, ali é o espaço de divulgação do trabalho de membros e eventos, além da postagem de artigos, críticas de cinema, série e jogos elaboradas por Pedro e Diógenes, ambos com o pé na comunicação social.

Segundo Pedro, o site traz um diferencial no sentido em que ouve o público geek e LGBTQIA+, contemplando esse nicho e abrindo oportunidades para que seus leitores possam colaborar com o envio de conteúdos próprios. “Queremos conhecer quem lê nossas matérias e dar a chance de eles também escreverem e serem colaboradores do site. Além disso, o fato de a equipe ser toda LGBT falando do mundo geek para o público LGBT também é um grande ponto a ser ressaltado”, conclui. Dio completa, afirmando que a área é pouco explorada, visto a raridade de sites geeks existentes no Brasil voltados para este nicho.

A CULTURA GEEK É EXCLUDENTE?

“Não é em si a cultura geek, mas sim as pessoas”, Pedro afirma.

Quando procuramos “LGBT dados estatísticos” no Google, por exemplo, as primeiras páginas de resultado nos assombram com inúmeros dados sobre a violência contra o grupo. Em 2016, o Ministério dos Direitos Humanos fez um relatório de violência LGBTfóbicas no Brasil, atribuindo o adjetivo "vulnerável" aos grupos travesti, transexual, gay, lésbica e bissexual. Por mês, os números de vítimas LGBT variavam entre 4,4% (menor taxa em abril de 2016) a 11,1% (maior taxa em junho), sendo os grupos transexual (42%) e gay (50%) os mais afetados.

De acordo com dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), de 2016 para 2017 houve um aumento de 30% nos casos de homicídios de pessoas LGBTs, de 343 para 445 respectivamente. Já o site GLOBO fez um levantamento que revela que a cada 19 horas, alguém é vítima da LGBTfobia por assassinato ou suicídio, fazendo do Brasil o líder no ranking de casos contra a comunidade LGBTQIA+.

Felizmente, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias aprovou um projeto de lei que torna crime a LGBTfobia. Qualquer tipo de lesão corporal e ofensas são enquadradas como crime.

Uma pesquisa feita pela Skol em parceria com o Ibope em 2017, revelou que o brasileiro não se reconhece como preconceituoso, ao passo que a homofobia é o preconceito mais declarado (29%) e acontece em todas as regiões do país. A pesquisa indica que 7 em cada 10 brasileiros já fizeram comentários preconceituosos, sendo 44% deles relacionados a comunidade LGBT.

“Cultura é diversidade e diversidade é criatividade. Muitos na cultura geek viram isso [a violência contra LGBTs] e estão ajudando a transformar esse ambiente. Mais do que nunca, a cultura geek está mudando e sendo cada vez mais inclusiva. A cultura é feita pelas pessoas que fazem parte dela”, Pedro ressalta.

Para ele, já houve um tempo em que filmes e séries apresentavam a realidade com um protagonista hétero e branco. “Conforme as pessoas mudam, a cultura acompanha determinadas mudanças. Hoje temos jogos, séries e filmes que trazem muita representatividade. Jogos como The Last of Us, série como One Day at a Time entre vários outros, são exemplos como os tempos mudam e assim as culturas”.

Por isso o Queer Geek surge como iniciativa focada na diversidade e representatividade da comunidade LGBTQIA+, a fim de “enaltecer e dar voz para todos os membros que acharam uma representação ali”, finaliza.

NOVA FASE AVANTE AO FUTURO PRÓSPERO

Guilherme Mendes Ayala (34), gerente de marketing, após dois anos morando fora do Brasil, encontrou no QG um novo espaço para fazer novas amizades e, quem sabe, como ele mesmo diz, encontrar um player dois. Um dos calouros do grupo, Guilherme conta que deu match na hora. “Baixei o Tinder e lá vi um perfil que dizia: ‘você gosta de games, animes e o universo geek e nerd? Então faça parte da Queer Geek”, revela.

- “Me senti acolhido, engraçado dizer isso, pois na era digital, por mais contatos que tenhamos na agenda, muitos com o passar do tempo acabam não se encaixando na nossa perspectiva de vida. E o grupo me proporcionou novos amigos e com papos que vão de games novos até críticas de cinema”.

Conforme conta mais sobre sua relação com o QG, mais perceptível e palpável seu amor pelo grupo parece. Ele já participou de eventos e declara que é impossível se sentir sozinho ou deslocado. “Os encontros ajudam não somente no campo social, mas também no psicológico e emocional. O universo nerd e geek é incrível e muitos players querem pessoas do mesmo mundo para se sentirem livres”, ele reitera.

Pedro Camargo, participante desde agosto de 2018, afirma com veemência que esta é a melhor fase da Queer Geek até agora. Mesmo com tantas turbulências, para ele o QG é como uma montanha-russa de emoções.

- “Eu acho que a Queer Geek mudou de um jeito que deixou de ser um grupo de WhatsApp e passou a ser um projeto. Eu consigo ver ele dando certo e se tornando um ambiente para LGBTQI+ ou qualquer pessoa que procure ambientes menos tóxicos sobre o mundo geek. Não somos automaticamente perfeitos apenas por sermos LGBTQI+, mas conseguimos ver o impacto que os discursos de ódio e a toxicidade atual causam”.
 
Dio, o criador do projeto, reafirma o poder da representatividade ao dizer que é preciso haver exposição. “É preciso heróis e representatividade LGBT na cultura como um todo, para que esse mundo não seja baseado num padrão heteronormativo. Se a gente não vê super-heróis gays, então gays não podem ser heróis? Se a gente não vê personagens LGBT na mídia, eu vou me sentir aceito como as outras pessoas? As outras pessoas também vão me aceitar? É preciso exposição; tratar como parte da sociedade para ser compreendido, e não causar estranhamento, medo ou rejeição”.

Pedro acrescenta a fala dos amigos, ao contar o que espera para o futuro do QG. Ele tem esperança de que o projeto crescerá na vertente social. Além disso, ele espera que possam ser criados fóruns para debate, com o intuito de aumentar a interação com o público e assim, criar um espaço geek muito maior.

Além de dar voz ao nicho geek e LGBT, provando que existem e que o gosto LGBT vai muito além do pop, a comunidade Queer Geek hoje é, na verdade, uma família – em plena evolução, transformando a vida de muita gente e unindo pessoas a fim de criar uma rede saudável, não tóxica e cheia de amor.

Para conhecer melhor o Queer Geek, participar de algum evento ou até conhecer pessoas legais, você pode acessar as redes sociais da galera!
Site oficial | Instagram


REFERÊNCIAS:

Ministério dos Direitos Humanos. Violência LGBTFóbicas no Brasil: dados da violência. Disponível em:<https://www.mdh.gov.br/biblioteca/consultorias/lgbt/violencia-lgbtfobicas-no-brasil-dados-da-violencia>. Acesso em: 7 de junho de 2019.

SOUTO, Luíza. Assassinatos de LGBT crescem 30% entre 2016 e 2017, segundo relatório. Disponível em:<https://oglobo.globo.com/sociedade/assassinatos-de-lgbt-crescem-30-entre-2016-2017-segundo-relatorio-22295785>. Acesso em 7 de junho de 2019.

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