07/08/2021 às 14h34min - Atualizada em 07/08/2021 às 15h47min

Mulher-Gato: o verdadeiro significado por detrás dos arranhões felinos

Com uma trajetória tão longa quanto a de Batman, Selina Kyle possui uma narrativa que vai além da sensualidade que lhe é atribuída

Letícia Nunes - Editado por Fernanda Simplicio
Fonte : DC Comics e Black Label / Reprodução : Dark Knight News

A anti-heroína, Mulher-Gato (Catwoman) — também conhecida como Selina Kyle —, foi criada pelos quadrinistas Bob Kane e Bill Finger, e estreou ao lado de Batman em 1940, através da primeira edição das tirinhas que levam o alter-ego de Bruce Wayne no título. Desde então, a personagem cativa a público devido às facetas de heroína e vilã que consegue assumir com elegância e inteligência. 

 

No decorrer dos anos, para justificar o seu caráter vilanesco, Selina Kyle obteve diversas modificações no contexto que define a sua origem. Em uma delas é apresentada como aeromoça que se tornou ladra de joias após adquirir amnésia em decorrência de um acidente de avião (Batman, edição 62, publicado em 1950). Já em outra, é colocada como órfã, que desenvolveu habilidades de contorcionismo e mágica para conseguir sobreviver sem os pais para, a partir daí, tornar-se Mulher-Gato (Catwoman, coleção de 1989).


No entanto, quando comparamos as diferentes versões que traçam a estória de Selina, percebemos que a personagem possui uma trajetória de superação, visto que ela sempre nasce em um contexto difícil, que a obriga a reinventar-se para tomar conta de si. Ponto este da narrativa que evidencia as características de mulher forte e independente da personagem.

 

Mesmo assim, quando paramos para falar sobre Mulher-Gato, o que nos vem à mente em primeiro lugar é a essência ambígua, astuta, misteriosa e, principalmente, sensual. Pensamento esse que, infelizmente, na maioria das vezes, se sobrepõe ao potencial de empoderamento de Selina Kyle.

 

A SOMBRA DA GATA PELAS RUAS NOTURNAS

A personagem Catwoman, desde o seu planejamento, já estava destinada a se tornar uma personagem marcante considerando a sua personalidade, que se diferenciava grandemente das demais super-heroínas das tirinhas que competiam o espaço nas prateleiras das bancas, e também, a atenção do público, com os quadrinhos de Batman, em 1940.

 

Além disso, a influência felina contribuiu para que Mulher-Gato conquista-se novos públicos, ampliando o número de leitores do título. Sobre isso, uma das mentes criativas que deu origem a persona, Bob Kane, explica como se deu a associação de Selina Kyle aos gatos:
 

"Eu sempre senti que mulheres são criaturas felinas e homens são mais como cachorros. Enquanto cachorros são fiéis e amigáveis, gatos são legais, desapegados, e não confiáveis. Eu sempre me senti melhor com cachorros em minha volta — gatos são tão difíceis de entender quanto mulheres", disse ele em sua autobiografia Batman and Me (1989).

Analisando o comentário de Kane sobre o conceito de Mulher-Gato, é possível identificar a intenção inicial de usá-la como alívio cômico nas narrativas de Batman, e também, o machismo da época. Prova disso é o fato da personagem ter sido suspensa pelo Código de Ética dos Quadrinhos em 1954, por ser considerada uma má influência para o público feminino daquele tempo, comprovando que a personalidade forte de Catwoman era um fator inovador na personalidade das personagens dos quadrinhos desta década.

 

PFEIFFER, UMA DAS FACES DA MULHER-GATO

O retorno de Selina Kyle aos quadrinhos após o episódio da suspensão dado pelo Código de Ética deu-se através das representações televisivas. Tais aparições oportunizaram também, a inclusão da personagem nas produções animadas e cinematográficas que ocorreram depois disso. 
 


Nesta fase, Michelle Pfeiffer é destaque quando se trata de Catwoman. Desde 1992, quando incorporou Selina no filme Batman: O Retorno, dirigido por Tim Burton, tornou-se quase inevitável não associar a imagem da atriz à Mulher-Gato.

 

Trajando um conjunto de látex, inspirado na moda fetichista, junto a um chicote longo, atribuíram a Pfeiffer um visual digno de Dominatrix ao representar Selina Kyle. Logo, a Catwoman de 1992 se consolidou como uma das versões mais ousadas que se tinha da personagem até então, conquistando o público de tal maneira que nem mesmo as adaptações atuais conseguem superar.

 

Relembre uma das cenas do filme na íntegra:

 

Contudo, sobre isso, o fator que mais perturba é que, dentre o período de 1940 até 1992, a Mulher-Gato é inserida nas narrativas de Batman a partir de uma perspectiva binaria hétero machista, que prioriza o apelo sexual, levando Selina a ser inserida nos contextos da trama de maneira desnecessariamente vulnerável e sexy. Algo que desconversa completamente com o lado forte da personagem.

 

A GATA SOB A LUZ DA LUA

Com o advento da internet, o público da DC Comics passou a usar as redes sociais como canal para interferir nas narrativas. Graças a isso, Mulher-Gato e outras super-heroínas da editora ganharam visibilidade para as suas subjetividades, impulsionando consequentemente o enfraquecimento da hipersexualização sobre elas.


Em resultado dessa ação, temos a edição 89 de Catwoman, lançada em 2015, e roteirizado por Genevive Valentine, que valoriza a autossuficiência e sexualidade de Selina devidamente, possibilitando a expansão das  interpretações referentes a personagem. 

 

Desse mesmo modo, espera-se da editora nas representações que vão acontecer em breve. Sendo a minissérie de quatro edições, Catwoman: Lonely City, que será publicada nos EUA em outubro deste ano pela Black Label. E também, a adaptação cinematográfica, The Batman (2022), que trará Zoe Kravitz na pele da personagem.

A questão é que a sensualidade de Selina Kyle é bem-vinda quando apresentada de forma empoderada, e encaixada em circunstâncias convenientes, que permitam expressar força e liberdade a partir dela. Para isso, é preciso consciência e responsabilidade para que a sensualidade de Mulher-Gato não seja reduzida ao apelo sexual.

 

Com isso, torna-se coletivo o dever de desconstruir a memória primária que se consolidou sobre Selina, para que o empoderamento presente na sua personalidade seja lembrado do mesmo modo, e também, na mesma frequência, que o seu lado sensual.

 

REFERÊNCIAS:

DOLORES, Bruna. Atrizes que interpretaram a Mulher-Gato nos filmes e séries da DC. Poltrona Nerd, 24 de jan. 2021. Disponível em: < https://poltronanerd.com.br/filmes/atrizes-que-interpretaram-a-mulher-gato-nos-filmes-da-dc-107384 >. Acesso em: 5 de ago. 2021.

 

FONSECA, Thaís Silva. Mulher-Gato: políticas da mulher, modos de presença e narrativa transmídia. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica) - Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, p. 168. 2016.

 

LIMA, Sana. #Especial80Anos | Conheça mais sobre a origem da Mulher-Gato!. Terra Verso, 10 de mai. 2020. Disponível em: < https://terraverso.com.br/hqs/especial80anos-conheca-mais-sobre-a-origem-da-mulher-gato/ >. Acesso em: 5 de ago. 2021.

 

LIRA, Evandro. 10 coisas que você precisa saber sobre a Mulher-Gato!. Legião dos Heróis, 18 de out. 2019. Disponível em: < https://www.legiaodosherois.com.br/lista/10-coisas-que-voce-precisa-saber-sobre-a-mulher-gato.html#list-item-1 >. Acesso em: 5 de ago. 2021.

 

YOUNG, Paul. Real Life Inspirations Behind Some of the Best Comic Book Villains. Screen Rant, 30 de mar. 2014. Disponível em: < https://screenrant.com/best-comic-book-villains-real-life-inspiration/ >. Acesso em: 5 de ago. 2021.


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