16/05/2022 às 23h17min - Atualizada em 16/05/2022 às 23h14min

“A Arte da Guerra”

Paulo Firmo - Editado por João Martinez
Fonte e Reprodução: studio seri/graph

Em entrevista ao site Mina de HQ, as artistas ucranianas Anna Ivanenko e Jenya Polosina falam como utilizam as histórias em quadrinhos, e outras manifestações artísticas, para chamar à atenção do mundo para a Guerra na Ucrânia.

 

“Independência ou Morte”

 

24 de fevereiro de 2022 é uma data que marca profundamente os ucranianos (naturais da Ucrânia, país localizado ao norte do continente com a maior extensão territorial de toda a Europa). Foi quando o líder russo Vladimir Putin (que governa a Rússia desde 1999) iniciou o que denomina de “operação militar especial”, ordenando que os seus militares invadissem o espaço territorial ucraniano. 

 

A guerra (designação predominante), condenada pela grande maioria dos países democráticos que não apoiam Putin é, hoje, um dos maiores conflitos militares na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Sustenta o que é considerado a maior crise de segurança europeia desde a Guerra Fria (1947-1991) - conflito entre a União Soviética e os Estados Unidos da América (EUA) e seus respectivos aliados que, após a Segunda Guerra Mundial, constituíram os Bloco Oriental e o Bloco Ocidental e “dividiram o mundo” em dois polos ideológicos. 

 

E foi justamente ao final da “Cold War” (Guerra fria em inglês) tão examinada pelos filmes de Hollywood (distrito da região central de Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos cujo nome tornou-se uma referência para a indústria cinematográfica daquele país), quando a União Soviética se dissolveu, que os conflitos entre Rússia e Ucrânia foram se estruturando. Com a independência ucraniana (assim como a de outros países que também faziam parte do bloco soviético), o país abriu-se ao Ocidente, elaborou o seu próprio conjunto de leis (Constituição), criou moeda própria e passou a lutar pelos seus interesses. Dentre eles, desde 2002, o desejo de entrar para a Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN (aliança militar encabeçada pelos EUA e aliados) e União Européia e a disputa de territórios. A grosso modo, o conjunto dessas ações ao longo da história alcança agora o seu ponto máximo, com o conflito armamentista estabelecido a partir da invasão russa. 

 

E é a respeito da OTAN que se baseia a segunda maior motivação apresentada pelo presidente russo para a guerra. Segundo Putin, EUA e aliados romperam a promessa de que a Ucrânia nunca faria parte da aliança militar capitaneada pelo país da Disneylândia. Todavia, a razão principal na visão dos russos, é que o país invadido (a Ucrânia) é um reduto de neonazistas e portanto uma ameaça para aquele povo e para o restante do mundo.  

 

“Faça arte, não faça guerra”

 

Desde o começo do conflito, em plena Era Digital (ou Era da Informação) na qual nos encontramos, narrativas e imagens inundam os meios de comunicação e as mídias (ou redes, em termos mais populares) digitais. Neste universo, as manifestações artísticas, devido ao seu caráter analítico e contestador, também se prestam à luta pela democracia e ao bem estar coletivo. 

 

Nessa trilha, as ilustradoras ucranianas Anna Ivanenko e Jenya Polosina, ao deixarem Kiev (cidade capital da Ucrânia) devido ao conflito militar, passaram a direcionar a maior parte do seu tempo e energia à elaboração de ilustrações, histórias em quadrinhos, fotos e textos à frente do estúdio Seri/graph. Aliado às criações artísticas, engajaram-se voluntariamente em projetos a fim de arrecadar fundos para a Ucrânia. A essência das suas ações? Informar o mundo sobre a realidade que a Ucrânia está vivendo após a invasão russa. 

 

Em uma entrevista concedida à Gabriela Borges, jornalista, antropóloga, criadora e editora-chefe do site Minas de HQ (especializado em histórias em quadrinhos abertos à diversidade, abarcando portanto trabalhos de artistas LGBTQIAPN+), Anna e Jenya informam que as mídias sociais, entrevistas como esta e conteúdos distribuídos através de correio eletrônico têm sido importantes canais para chamar a atenção do mundo a respeito da invasão da Ucrânia. 

 

Questionadas a respeito do tempo em que atuam como quadrinistas, as ucranianas dizem que as narrativas gráficas sequenciais (os quadrinhos) sempre fizeram parte do seu repertório de expressão. Representam a maneira pela qual querem mostrar às pessoas questões sociais, políticas e culturais relevantes. Nesta linha, o jornalismo em quadrinhos - modalidade de jornalismo construída a partir da linguagem própria dos quadrinhos, unindo os fatos à arte de modo singular e poderoso - também é um dos encaminhamentos realizados pelas quadrinistas e ilustradoras.  

 

Anna e Jenya destacam que a arte, a exemplo dos quadrinhos e outras ilustrações, podem alcançar públicos diferentes - que não estão habituados ou não desejam obter conhecimento através das mídias tradicionais - e apresentar as informações de modo menos espalhafatoso ou chocante. Algo que vai ao encontro de uma importante característica das reportagens em quadrinhos, sobre a qual o jornalista e professor Guilherme Profeta, autor da história em quadrinhos “Projeto Hibakusha” (2020), esclarece ao jornalista Wellington Torres, no livro Jornalismo em Quadrinhos - Entre o lead e a narrativa gráfica (2020). Ele pontua: 

 

“A história é bastante pesada, mas em quadrinhos conseguimos entregá-la de uma forma que pareça mais leve pelo formato, mais acessível para um maior número de pessoas que talvez não se interessem em ler uma reportagem produzida unicamente por texto sobre o tema, mas quando você coloca todo aquele material num mangá, as coisas mudam.”

 

As quadrinistas informam à Gabriela que as histórias em quadrinhos e outras manifestações artísticas que vêm produzindo passam essencialmente pelas suas próprias experiências. Sejam pessoais e familiares, as de amigos e ou pessoas comuns. Compatriotas. E que, em meio ao horror da guerra, outras temáticas são abordadas em paralelo. Dentre elas, misoginia (ódio ou aversão às mulheres) e diversas modalidades de preconceitos. A visão feminina, que está longe de incluir-se de forma significativa nos quadrinhos, é recorrente e desbravadora no trabalho da dupla. 

 

Deste modo, as artistas ucranianas Anna Ivanenko e Jenya Polosina utilizam as artes a fim de dar voz ao povo ucraniano, em meio a que pode ser considerado o tempo de maior agonia, terror e desesperança que assola a Ucrânia com a invasão russa. 

 

Confira aqui, a entrevista na íntegra. 

 

Nota 1: O título dessa matéria faz referência ao mundialmente famoso livro A Arte da Guerra, do estrategista chinês Sun Tzu. 

Nota 2: “Independência ou Morte”, título de uma dos tópicos da presente matéria, é uma fala atribuída ao então Príncipe Regente do Brasil, Pedro de Alcântara, o Dom Pedro I (1798-18343), ao proclamar a independência do Brasil em 1882 às margens do Rio Ipiranga em São Paulo. Guardadas as devidas proporções e contextos específicos, a postura e os objetivos explicitados pelo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, remetem a este espírito de luta pela independência do seu país/povo, ainda que o custo seja bastante elevado. 

Nota 3: “Faça arte, não faça guerra” faz referência ao slogan (frase de efeito) pacifista “Make love, not war” (“Faça amor, não faça guerra” em tradução livre para o português brasileiro). O lema está fortemente associado aos movimentos da contracultura - ações de contestação social - nos anos 1960. 

Nota 4: LGBTQIAPN+ é uma sigla que abrange pessoas Lésbicas, Gays, Bi, Trans, Queer/Questionando, Intersexo, Assexuais/Arromânticas/Agênero, Pan/Poli, Não-binárias e mais.mulheres e transexuais (homens, não bináries etc).

Nota 5: O termo Jornalismo em Quadrinhos foi cunhado pelo repórter e ilustrador maltês (oriundo de Malta, um arquipélago situado na região central do Mediterrâneo, entre a Sicília e a costa do Norte da África) Joe Sacco que, em 1994, publicou o livro "Palestina". A obra é considerada pioneira no gênero.

Nota 6: O “Projeto Hibakusha” (2020) é uma história em quadrinhos no formato de livro, que voltou-se a investigar e questionar sobre o que significou para o mundo as explosões atômicas no Japão (nas cidades de Hiroshima e Nagasaki) durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). 

 

Referências

 

BORGES, Gabriela. Guerra na Ucrânia em quadrinhos. Quadrinistas mulheres cis, pessoas trans e não binárias. Mina de HQ. 2 mai. 2022. Disponível em: https://minadehq.com.br/guerra-na-ucrania-em-quadrinhos/. Acesso em: 3 mai. 2022.

 

GALVANI, Giovanna. Entenda a Guerra da Ucrânia em 10 pontos. Internacional. CNN Brasil. 25 mar. 2022. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-a-guerra-da-ucrania-em-10-pontos/. Acesso em: 14 mai. 2022.

 

MARIANO, Thaís. Há 199 anos, Dom Pedro I proclamava a Independência do Brasil. Viva a História. Datas comemorativas. Recreio UOL. 6 set. 2021. Disponível em: https://recreio.uol.com.br/noticias/viva-a-historia/ha-198-anos-dom-pedro-i-gritou-independencia-ou-morte-as-margens-do-rio-ipiranga.phtml. Acesso em: 14 mai. 2022.

 

TADEU, Vinícius. Conheça os países que apoiam Putin no conflito com a Ucrânia. Internacional. CNN Brasil. 25 fev. 2022. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/quais-sao-os-paises-que-apoiam-putin-no-conflito-com-a-ucrania/. Acesso em: 13 mai. 2022.

 

TORRES, Wellington. Jornalismo em Quadrinhos: Entre o lead e a narrativa gráfica. Sorocaba, SP: 2020. E-book Kindle (não paginado). Disponível em: https://www.amazon.com.br/Jornalismo-Quadrinhos-Entre-narrativa-gr%C3%A1fica-ebook/dp/B08R326BT5/ref=sr_1_2?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=jornalismo+em+quadrinhos&qid=1637699783&sr=8-2. Acessado em 16 mai. 2022.


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