06/10/2019 às 23h38min - Atualizada em 06/10/2019 às 23h38min

How To Get Away With Murder: o legado da série para a construção de identidades

Estreia da última temporada foi no dia 26 Setembro

Marco Ferreira
Elenco da série. (Foto: Reprodução/ internet)

Após cinco anos surpreendendo e deixando o público cada vez mais interessado e envolto com a narrativa, a série How To Get Away With Murder se despede dos fãs com a sua sexta e última temporada. Produzida pela empresa Shondaland, da escritora de sucessos como Grey's Anatomy e Scandal, Shonda Rhimes, a próxima temporada que marca o fim de uma longa trajetória chegou às telinhas no dia 26 de setembro de 2019. Lógico, não poderíamos deixar de relembrar os melhores momentos da série e de refletir sobre a importância da trama para a inclusão social e da construção das identidades e da cidadania, uma vez que ela busca dar vozes às causas LGBTQ+ e levantar a bandeira contra o racismo na sociedade.

A trama acompanha a vida da professora de direito e advogada criminal Annalise Keating, interpretada pela aclamada Viola Davis, que vê sua vida pessoal e profissional entrar em colapso após os cinco de seus alunos estarem relacionados ao assassinato de uma jovem. Durante toda a série que se passa em passado, presente e futuro, a fim de deixar o público ainda mais curioso e continuar assistindo até o último segundo dos episódios, aumenta o mistério e o suspense: Quem matou?

A trama foi alvo de críticas muito positivas, pois deu espaço para questões LGBTQ+ e contra o racismo, sendo indicada na primeira temporada para prêmios como American Film Institue Awards, na categoria de programa de televisão do ano; Primetime Emmy Awards, categoria de melhor atriz em série dramática; People Choice’s Awards, atriz favorita, entre outros. Além disso, contou com audiência considerável para o primeiro ano, variando entre 14 a 10 milhões de espectadores, somente nos Estados Unidos.

Em 2015, a atriz Viola Davis recebeu o prêmio de Melhor Atriz pelo Emmy, sendo a primeira mulher negra a ganhar o prêmio, além de ser indicada novamente no mesmo ano e na mesma categoria.

A SÉRIE

Há quem se lembre dos primeiros episódios da série. A primeira temporada, que marcou o início de uma história a qual levaria anos para ser concluída, foi lançada entre 2014 e 2015 e é o ponto inicial para discussões do suspense da narrativa. Keating seleciona cinco alunos da Universidade de Middleton, onde é professora de direito criminal, para trabalharem com ela em seu escritório. Os escolhidos? Wes Gibbins, Connor Walsh, Michaela Pratt, Laurel Castillo e Asher Millstone, interpretados por Alfred Enoch, Jack Falahee, Aja Naomi King, Karla Souza e Matt MacGory, respectivamente, além dos funcionários leais: Frank Delfino, interpretado por Charlie Weber, e Bonnie Winterbotton, Liza Weil. Após a escolha, a vida de todos entra em colapso depois do assassinato de uma jovem.

As temporadas seguintes ficam por conta de retratar os conflitos e os traumas dos alunos, bem como trazer outros casos de homicídio ainda mais complexos para a trama.
 
Foto disponível no site https://htgawmbrasil.com/

Annalise Keating, interpretada por Viola Davis. (Foto: Reprodução/ internet)

PROTAGONISMO, INCLUSÃO SOCIAL E CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES

Durante muitos anos a TV participou e ainda participa do ciclo da exclusão de personagens negros ou LGBTQ+ de suas narrativas. Desde a criação e circulação das telenovelas e outros conteúdos televisivos, o espaço dado a essa população era quase inexistente e, quando existia, era retratado de forma pejorativa e em torno de uma construção muito estereotipada. Contudo, mesmo com todo o avanço social, cultural e tecnológico, ainda hoje percebe-se que os elencos das teledramaturgias são hegemonicamente brancos. É nesse contexto que é importante dar ênfase na personagem, Annalise Keating, como mulher negra e protagonista da série.

Em um comparativo com TV brasileira, o cinema e as emissoras americanas parecem estar dando mais espaço para minorias sociais, com séries e filmes mais temáticos para a comunidade LGBTQ+, negros, pessoas com necessidades especiais, entre outros. No Brasil, por exemplo, as telenovelas trazem personagens em suas tramas que na maioria das vezes estão ligadas à uma concepção tradicional e subalterna do negro. O autor, Joel Zito Araújo, identifica, na obra “A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira”, um conjunto de elementos em que os meios de comunicação, no caso a TV, representam os negros, destacando características como negatividade, invisibilidade, inferioridade e colocando-os em papéis como empregadas domésticas, traficantes, moradores de favelas, mães-escravas.

No caso de How to Get Away With Murder e muitas outras séries e filmes que vêm ganhando espaço na mídia, observa-se uma modificação dessa perspectiva, contribuindo para o bem-estar de muitos adolescentes na aceitação consigo mesmo e na construção das próprias identidades. Como defende Stuart Hall, nossas identidades são construídas discursivamente e os meios de comunicação atuam por uma base cultural que fornece características, as quais nos possibilitam identificar e até mesmo projetar, como diz Edgar Morin, auxiliando-nos na construção das nossas identidades. É dessa forma que HTGAWM faz quebra paradigmas e representa!

A série não coloca só uma mulher negra como protagonista; ela dá conta de construir uma personagem que luta pela igualdade racial, enfrentando o racismo da sociedade na própria pele e defendendo aqueles que estão nas ruas ou presos injustamente só por serem negros. Dessa forma, o público passa a se identificar tanto com a personagem quanto com a atriz, que é exemplo de força e superação.

Leia: Recppitulando "How to Get Away With Murder" do site FolhaPe.
 
A ÚLTIMA TEMPORADA

Aqui nos deparamos com uma questão: O que esperar da nova e última temporada?

A sexta temporada contará com 15 episódios e acompanhará o último semestre de aulas da professora Keating. A julgar pelo trailer oficial, disponibilizado pelo canal ABC, nos parece que os alunos não conseguirão escapar dos crimes, seguindo um final mais dramático e trágico. No final do trailer há indícios de uma nova morte na trama, quando aparece um caixão em um cemitério.

Em entrevista concedida ao site Digital Spy, a atriz Amirah Vann, que interpreta a advogada Tegan Price, revelou: Pessoas que vocês amam vão morrer. Sim, morrer. Morrer. Não personagens extras, não participações especiais, mas pessoas com as quais vocês têm vivido essa jornada".

A decisão de finalizar a história partiu de uma iniciativa da própria produção, que considera “criativa”. Para o criador da série, Petter Nowalk, “decidir acabar com essa série foi uma decisão brutal, mas no fim a história te diz o que fazer, como foi esse caso. Para mim, a jornada de Annalise Keating sempre teve um final bem claro”.

Sobre o final, Petter, em entrevista para e revista People, afirma que seremos surpreendidos ao longo da temporada e dá dicas de como será traçado o enredo. De acordo com ele, “haverá algumas surpresas no meio, que as pessoas não esperarão. Não vamos desperdiçar nenhuma história. Eu espero que o enredo avance mais rápido ainda”.

Ao que se espera, o enredo dará conta de desvendar os verdadeiros assassinos dos crimes anteriores, ligando todos à professora e aos alunos. Os fãs esperam que a última temporada dê conta de explicar pontos importantes, os quais ficaram para trás ao longo da história, e também mostre a ação da justiça em alguns casos impunes. “Cada um deles terá que se decidir no que está disposto a fazer e descobrir se está disposto a vender outras pessoas”, afirmou Petter.

A estudante de biomedicina, Lara Souza, 19, que acompanha a série desde 2015, é uma das fãs que esperam o esclarecimento de vários complexos. Para ela, o principal é a resolução de pontos que não foram mostrados ainda, como por exemplo o porquê de Annalise ter escolhido cada um de seu time e desvendar o que realmente aconteceu com a Laurel e seu filho. Como será o fechamento dos ciclos que foram criados da serie, qual será a morte da temporada e se todos vão ser pegos e pagarem pelos seus crimes”.

O professor e biólogo, Raelson Filipy Martins Santos, 26, se encontra na mesma posição de expectativas que a estudante: Acredito que nessa sexta temporada serão revelados mais detalhes da vida dos escolhidos do K4. Creio que nem todos serão presos, mas alguns talvez irão para a cadeia. Espero que Annalise fique com o Nate. Pelo trailer divulgado e também pelo que a atriz que interpreta a Tegan já disse, personagens queridos vão morrer. Torço pra ser a Bonnie. Talvez esse que morra esteja pagando pelos crimes cometidos no decorrer da série, mas espero que no final a Annalise tenha um pouco de paz. E quanto ao K4, espero que eles se formem e cada um seja um advogado referência”.
Confira o trailer oficial:


 
O LEGADO

Podemos dizer que os fãs vão sentir muitas saudades da série, tanto no que se diz respeito a história em si quanto aos personagens e suas tramas.

Quanto ao legado, vimos construir seis anos de uma série engajadora social e politicamente, que tratou de temas importantes, principalmente da condenação de negros de forma injusta pelo sistema judiciário estadunidense. Também deu frente à uma protagonista mulher e negra, deixando de lado os estereótipos de submissão do negro na sociedade, colocando-a como uma mulher empoderada, que luta pelo espaço e lugar de fala para minorias que estão cada vez mais hostilizadas e marginalizadas no que diz respeito aos direitos enquanto cidadãos.

Além disso, a série serviu como inspirações em outras narrativas, como por exemplo a série Elite, a qual seguiu uma produção e enredo muito semelhante de homicídio e passagem em vários tempos, embora não dando espaço para área judicial em si e também será responsável por contribuir para a construção de novas narrativas televisivas.

Raelson Filipy e Lara Souza convergem nas opiniões sobre o legado da série a qual, para eles, está ligada à força e ao empoderamento da mulher negra nos programas televisivos. Na opinião do professor, “por ser uma série que traz uma mulher negra como personagem principal e o porquê dela ser respeitada no que ela faz, pode trazer uma geração de séries com mulheres jurídicas em uma visão de poder e escolha, onde elas possam exercer justiça. Com isso o empoderamento e respeito em uma área onde até hoje há preconceito com mulheres e negras”. Na opinião da estudante, “muitos especulam que a Michaela é a nova Annalise e merecia uma série na qual ela seria a principal. Seria uma boa ideia. How to get away with murder deixa um legado de uma boa história que prende o espectador e o deixa mais esperto até mesmo para lidar com situações diárias. Além disso, fica a importância da mulher negra como destaque na série e acredito também que pela luta das minorias. Com a série, também se reforça aquele ditado: 'Nem tudo é o que parece'. Acredito também que muitos sintam-se inspirados a cursar direito após conhecer Annalise Keating“.

Por fim, o legado da série será de muita saudade e engajamento social na luta pela igualdade racial e de gênero, já que o programa deu espaço para questões sobre sexualidade e racismo, tratando-os de forma naturalizada e não como meio pejorativo e carregado de estereótipos. Assim, ela contribuiu muito para a conscientização e inclusão social e para a construção da cidadania e de identidades.
 

Pôster oficial da 6ª Temporada


A série está disponível no catálogo da plataforma Netflix, até a quinta temporada. A sexta temporada estreiou no dia 26 de setembro nos Estados Unidos. No Brasil, a série é exibida pelo Canal Sony, mas ainda não há previsão para o lançamento.

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