08/10/2019 às 21h14min - Atualizada em 08/10/2019 às 21h14min

Se as notícias vão mal, a poesia salva?

Revista Cult publica "Poemas para ler antes das notícias"

Ohana Luize - Editado por Letícia Agata
Divulgação Revista Cult
Há quem diga que a poesia sirva para o encantamento diante do que há de belo na vida. Outros, a concebem em tudo que há e pode ser descrito. Vertentes se dividem entre quem defende um pleno estado de inspiração ou uma produção intencional, na qual se provocam os sentimentos. Essa diversidade está presente na rotina de quem consome poesia, e uma boa amostra de poetas brasileiros na atualidade foi organizada pela Revista Cult, por meio da Antologia Poética “Poemas para ler antes das notícias”, lançada em agosto desse ano.

Com a reunião de 32 poetas e sete artistas visuais de várias partes do Brasil, a antologia se apresenta como um instrumento político que usa a arte de estandarte para propor possibilidades e transformações. No site da Revista Cult, a divulgação confirma que fazer uma publicação voltada para a poesia é um ato de paixão:

“Contra a desigualdade, a opressão e as injustiças diárias cada vez mais escancaradas, é na poesia que as vozes da luta têm encontrado lugar para um grito cada vez mais necessário, belo e preciso. A Antologia Poética, ‘Poemas para ler antes das notícias’, surge para se somar a essas vozes chamando atenção para a enormidade da poesia contemporânea brasileira, sua beleza e força política”.

Assumindo a direção de arte do projeto, Fernando Saraiva conta que o desafio dado pela revista Cult foi para algo memorável envolvendo todo o conteúdo que, segundo ele, “dialoga demais com essa fase escura que não só o Brasil, mas o mundo também está vivendo”. O editorial do curador, professor e poeta, Albeto Pucheu, complementa a ideia.  “Se a grande mídia e a política que hoje nos governam nos querem destituídos de qualquer capacidade de transformação, a poesia nos abre outras possibilidades. Uma poesia que assume seu fazer como uma tentativa de desarmar os poderes constituídos de nosso tempo”.

O casamento entre os poemas e ilustrações foi pensado para diversificar e apresentar ao público os estilos reunidos. Fernando conta que seu papel na direção de arte foi de “honrar aquele conteúdo, tentar traduzir esse material visualmente do melhor jeito possível”.

Uma das ilustradoras, Marília Marz, revela a felicidade de estar na publicação assinando um trabalho feito na ocasião de um trabalho em 2017:

“Fico feliz em fazer parte de iniciativas como essa, sabendo da conjuntura política atual do Brasil. A ilustração que foi publicada na antologia veio de uma história em quadrinhos que fiz chamada Indivisível, sobre a cultura negra e oriental no bairro da Liberdade, em São Paulo. Essa HQ foi resultado de muita pesquisa sobre a época da escravidão e da trajetória do negro em São Paulo”.

Seria a antologia, então, um grande poema escrito a várias mãos? Essa ideia é levantada pelo poeta Tarso de Melo, que elenca razões para atrair público leitor:

“Foi oportunidade de colocar para circular, numa edição bonita e tão grande, nacional, um poema que denuncia a violência do Estado, fazendo ecoar um grito que não é apenas meu e que certamente ganhou força ao se somar a tantas outras vozes da poesia contemporânea. Passando as páginas da revista é fácil perceber como ele [Pucheu] foi capaz de reunir gerações diferentes, vozes diversas, para formar um lindo poema coletivo”.

O tom político da publicação está na concepção de cada participante. Tarso reforça o ambiente de instabilidade, do qual são alvos a arte e a cultura no país em que as produções são espaços de resistência:  

“A poesia brasileira, já há alguns anos, tem sido uma plataforma especialíssima para que as diversas vozes deste país possam falar, gritar, denunciar, reivindicar. E a antologia pega exatamente esse clima, com a vantagem de potencializar tais vozes, tanto pela reunião do que há de mais forte em cada uma delas, quanto pelo alcance que a divulgação da Cult tem, que vai muito além do que os livros de poesia conseguem alcançar”.

São poemas com temas contemporâneos, provocações, dores, alegrias, protestos, celebrações de ser e viver sob diferentes olhares e identidades. Marília Marz reflete que o “lançamento de uma revista como essa é muito relevante agora, devido ao momento político em que estamos vivendo, onde percebe-se uma forte censura e desprezo pelas vozes das minorias”.

Fernando também relembra as dificuldades pelas quais vem passando o mercado editorial no país e os desafios para os impressos:

“Colocar um produto impresso na banca já é tarefa dura hoje em dia. Ainda mais quando o conteúdo é poesia, nesse tempo em que as pessoas se embruteceram tanto em tão pouco tempo, e em que o governo é afeito a censurar tudo que foge da sua concepção de normal. Fazer e divulgar cultura hoje no Brasil é um ato de coragem e resistência”.

A poesia segue presente, insistente e certa como um fato. Essa antologia propõe olhar o Brasil por lentes de ilustrações e versos antes das notícias ou a qualquer hora.

Sobre a publicação

Estão reunidos em "Poemas para ler antes das notícias" os poetas André Luiz Pinto, Tatiana Pequeno,Danielle Magalhães, Bruna Mitrano, Luiz Guilherme Barbosa, Heitor Ferraz,Diego Vinhas, Tarso de Melo, Antônio Moura, Piero Eyben, Jarid Arraes, Heleine Fernandes, Paulo Ferraz, Carlos de Assumpção, Cuti, Lubi Prates, Conceição Evaristo, Nina Rizzi, Eliane Potiguari, Marcia Wayna Kambeba, Josoaldo Lima Rêgo, Reuben, Horácio Costa, Cláudio Oliveira, Natasha Felix, Helena Zelic, Tertuliana Lustosa, Catia Cernov, Bruno Domingues Machado, Pieta Poeta, Letícia Brito, Marcelo Diniz.

Nas ilustrações dentro do projeto gráfico de Fernando Saraiva estão PV Dias, Pedro Lemos, Marcelo D’Salete, Marilia Marz, Thiago TeGui, Bea Corradi, Guilhermina Augusti.

Curadoria: Alberto Pucheu

Publisher Revista Cult: Daysi Bregantini

Antologia Poética “Poemas para ler antes das notícias” pode ser adquirida em bancas, livrarias e pelo site www.cultloja.com.br pelo preço de R$ 25,50 (frete por fora).  
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