16/04/2019 às 20h53min - Atualizada em 16/04/2019 às 20h53min

Unicamp: curso discute sobre gênero e autoritarismo em Harry Potter

Primeiro curso do Brasil a ministrar aulas sobre Harry Potter com olhar historiográfico em universidade

Isabela Andrade
Historiador Victor Menezes durante uma das palestras que oferece com a temática Harry Potter (foto: acervo pessoal)
A história da série Harry Potter (HP), escrita pela escritora inglesa J.K Rowling conta a vida do menino que  descobre ser um bruxo e é enviado para a escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. A obra é usada como material de estudo pelo professor e historiador da  Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Victor Menezes, para debater assuntos da atualidade como autoritarismo, questões de gênero e totalitarismo no projeto de extensão Universidade que ministra voluntariamente desde 2016. O curso é voltado para o público da terceira idade.
 
Em entrevista, Menezes conta que procura dar uma abordagem historiográfica para a narrativa, com aulas temáticas. Segundo ele o grupo de alunos, com idade acima de 50 anos, se interessa por história, e ter como recurso a literatura de Harry Potter garante melhor aprendizagem fluéda. HP instiga à discutir assuntos que normalmente não iriam ser abordados, como questões de gênero e sexualidade. “Algumas das alunas quando leram a Ordem da Fênix, comentaram como o 5º livro lembrava o que elas viveram na ditadura civil militar, então, a narrativa de Harry Potter por trazer diversas questões do nosso tempo, faz com que as pessoas se identifiquem, com os personagens ou com coisas que os personagens vivenciaram”, explica Menezes.

 Alunos no início do semestre do curso UniversIDADE na Unicamp em Campinas-São Paulo        (foto: acervo pessoal)

Durante os anos em que ministra as aulas voluntariamente, o professor Victor revela que já trabalhou em classe com outras sagas de sucesso como Jogos Vorazes, Crepúsculo e Percy Jackson, mas que a preferida é a saga do menino que sobreviveu. “Harry Potter tem alguma coisa que atrai eles, primeiro que tem toda uma questão geracional, os filhos ou os netos cresceram lendo os livros, então eles já tinham esse conhecimento, por trazer essa questão afetiva e as memórias do passado”.

História compartilhada por gerações

A animada Heloisa Maria Capossoli Barros, 66 anos, professora de inglês aposentada, relembra com saudosismo de quando era jovem e trocava as brincadeiras de boneca e casinha pela leitura de um livro. Aluna do projeto desde 2016, conta que já leu os sete livros da série e assistiu todos os filmes na companhia da neta Beatriz Barros de Freitas de 21 anos. Foi Heloísa quem sugeriu para o professor Victor Menezes que iniciasse um curso exclusivo sobre a saga, o qual já era fã. “Ele, [Victor] já havia nos falado de Harry Potter com tanto entusiasmo que vi ali um caminho para solicitar o curso, para aprender sobre os panos de fundo da série”.

Para Olivia M. Vieira, também aposentada de 69 anos, o curso é enriquecedor, ela sempre se interessou por leitura, mas nunca havia lido os livros de Harry Potter. “É uma oportunidade para aumentar o círculo de amizades e ocupar o tempo de forma agradável”, conta. O curso, atualmente tem 60 alunos, é voltado para a terceira idade, tanto para fãs da série, que já leram e assistiram aos filmes, como também para os que não conhecem, mas estão dispostos a estudar sobre o assunto.

Palestras para todas as idades

Segundo o professor Victor Menezes, o convite para ministrar as aulas no projeto de extensão da Unicamp, surgiu devido a necessidade de divulgar o trabalho de mestrado que estava desenvolvendo em 2015, que tinha como tema a relação existente entre história e cinema. Desde então, além das aulas no projeto UniversIDADE, ele apresenta palestras com a temática Harry Potter levando a visão crítica da obra à tona e fazendo as associações com os temas da atualidade, as palestras são abertas para todos os públicos.

Para Sofia Nardi, jornalista, 21 anos, que participou de uma das palestras, a ideia de unir história com Harry Potter é “muito interessante” e foi importante para realmente entender a crítica presente na narrativa de J.K Rowling, que utiliza o estereótipo dos galeses ruivos e pobres representados na família Weasley e a família de aristocratas Malfoy, denominados “sangue puro”, família totalmente bruxa, que exclui famílias não bruxas, na saga, denominados “trouxas”. “Mal posso esperar para reler os livros com esse novo olhar”.
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