03/07/2020 às 18h23min - Atualizada em 03/07/2020 às 18h09min

As "7 artes" e qual a história por trás da classificação

De onde veio a expressão? Quem a criou e classificou? A história desde Aristóteles até a atualidade.

Antônio Henrique Gois - Editado por Letícia Agata
"Monalisa" de Leonardo da Vinci
Aristóteles descreveu a arte como “a capacidade de produzir, utilizando um método verdadeiro de raciocínio”. Kant afirmou que era “a produção realizada de forma livre e racional”, que “pressupõe liberdade e racionalidade”. Já Hegel foi mais complexo, desenvolvendo o conceito de “Belo”, que era “a harmonia entre forma e conteúdo”, trazendo o conceito de “Belo Artístico”, que seria o “originado da produção do homem”. Charles Batteux, pensador contemporâneo dos dois anteriores, autor do livro “Les Beaux Arts Reduits a UN Meme Principe” (As Belas Artes Reduzidas a um Mesmo Princípio), reproduziu o pensamento do grego e afirmou que as artes são “maneiras de fazer bem uma coisa”.

Agora que sabemos qual o conceito de “arte” para os pensadores que aparecerão por aqui, vamos contextualizar a primeira “classificação” das artes:

Na mitologia grega, as musas foram criadas no intuito contar os grandes feitos dos deuses e heróis gregos, sendo filhas de Zeus, rei dos deuses do olimpo, e Mnémoise, titânide que representava a memória. A história conta que Zeus e Mnémoise ficaram juntos por nove noites, quando eram criadas as musas, sendo uma por noite. À elas eram atribuídas também a inspiração e criação artística, além do pensamento científico.

Até mesmo na Grécia antiga, devido às divergências entre as ideias de Homero e Hesíodo, duas figuras majoritárias da arte grega, discutia-se bastante qual musa representava o quê, mas na compreensão mais aceita elas se dividem em: Clio, com história; Euterpe, música; Tália, comédia; Melpômene, tragédia; Terpsícore, dança; Urânia, astronomia; Érato, poesia lírica; Polímnia, retórica e Calíope, representando a poesia épica. E essa foi a primeira classificação das artes.
 

No quadro, podemos perceber a figura central, Apolo, com o arco nas costas, rodeado pelas nove musas. Imagem: Reprodução/ Internet
 
Adiantando o tempo e chegando na Idade Média, quando a divisão entre Arte e Ciência ainda não era tão clara, as “artes liberais” se dividiam em sete, presentes em dois grupos: o trivium, que contava com a gramática, a dialética e a retórica; e o quadrivium, em que continham geometria, aritmética, música e astronomia. Ainda existia outro grupo, chamado de “artes mecânicas”, que eram a escultura, pintura, metais e arquitetura, e se voltariam às necessidades do cotidiano humano. 

Na era Moderna foi que a assunto se acalorou, com três pensadores de grande importância, discutindo o mérito da classificação das artes. Kant as classificou em três: as artes elocutivas (eloquência e poesia); as figurativas (a plástica, essa dividida entre escultura e arquitetura, e a pictórica, contando com pintura e a jardinagem ornamental); e o que ele chamou de Arte do belo jogo das sensações (música e arte das cores). O prussiano tomou como medida a maneira em que elas se apresentam, sendo respectivamente: o discurso, a imagem e, é claro, as sensações, podendo ser percebidas por meio da fala, de uma forma espacial e de sensações agradáveis aos ouvidos e olhos. Assim, Kant definiu a existência de 8 artes.

Além disso, o filósofo ainda desenvolveu um pensamento importantíssimo, que também será mais desenvolvido ao decorrer do texto: ele afirmou que juntando duas artes, seria criada uma outra, como por exemplo o teatro, que seria a combinação da eloquência com a arte pictórica (palavras e cenários) e o canto, a combinação da poesia com a música (letra, melodia e harmonia).

Ao mesmo tempo, lá na Alemanha, Hegel dividia as artes em 3 estilos universais: a Simbólica, Clássica e Romântica, levando em conta a evolução do ser humano em relação a seu espírito. Para o alemão, a simbólica seria aquela em que o ser humano ainda não se compreende e está confuso em relação à si mesmo, assim não tendo uma forma fixa; a clássica já demonstraria uma relação interiorizada do homem, com obras equilibrando ideia e forma, como as esculturas de deuses e heróis gregos; e a romântica contaria com a total liberdade humana, que se preocuparia mais com o espírito do que a estética da forma, sendo exemplo as pinturas medievais, que retratam o ser humano mais “feio”, pois se preocupariam mais com o interior do homem. Assim, Hegel conseguiu dividir as artes “gerais” em seis expressões “particulares”: arquitetura, escultura, pintura, música, dança e poesia.
 

É perceptível a ideia de Hegel, já que o ser humano na pintura de Giotto é mais "feio" em relação ao representado na escultura. Imagem: Reprodução/ Internet
 
A classificação dominante nos séculos XVIII e XIX foi a de Charles Batteux, após os lançamento de seu tratado “Les Beaux Arts Reduits a UN Meme Principe”, já citado lá no começo do texto. Nele, o francês retoma ideias aristotélicas e medievais para construir uma nova definição sobre a arte. Então, lembra das artes “mecânicas” e “liberais”, lá da Idade Média? Batteux as remodelam, dividindo-as em: “mecânicas”, que visam às necessidades das pessoas, igual a Era Medieval; as “belas artes”, que se destinam apenas ao prazer (música, poesia, escultura, dança); e uma categoria mista, que “tem como objeto tanto a utilidade quanto a graça”, como a oratória e a arquitetura.

Na Era Medieval, assim como nas ideias propostas por Batteux, o critério de divisão das expressões artísticas era a presença (ou não) de um objetivo concreto. A diferença é que, para o modernista, as chamadas “artes” liberais não seriam voltadas para a filosofia ou metafísica, e sim para o prazer, passando a chamá-las de “belas”. Ele concordou também com Aristóteles, expandindo sua ideia e concluindo que a arte não é uma imitação fiel da natureza, e sim retira os defeitos que nela contém, o que o francês denominou “bela natureza”.

Assim, estudiosos da época, definiram seis expressões diferentes de arte: pintura, a escultura, a música, a literatura, a dança e a arquitetura. Mas calma que ainda falta uma.

Trazendo o ideal Kantiano de que uma terceira expressão seria gerada a partir de duas artes, o pesquisador italiano, Ricciotto Canudo, publicou, em 1923, uma obra intitulada “O Manifesto das Sete Artes”, na qual foi mencionada pela primeira vez a expressão “sétima arte”. Para Canudo, o cinema, que ainda engatinhava na época, era constituído por elementos de outras expressões tais como o som, da música, o movimento, da dança, a cor, da pintura, o volume, da escultura, e por aí vai. Enfim, uma arte híbrida, mas de natureza única.
 

  Cena do filme 'Viagem À Lua'. A obra é conhecida como a primeira ficção científica do cinema. Imagem: Reprodução/ Internet 
 
Ufa! Finalmente fechamos a lista e nela está: pintura, a escultura, a música, a literatura, a dança, arquitetura e o cinema.

Dessa forma, segue a definição de cada uma delas:

Pintura: é uma obra de arte, especialmente realizada com tintas, que representa uma pessoa, objetos, uma paisagem etc. Geralmente a mais reconhecida dentre as 7 artes clássicas.

Escultura: obra feita por um indivíduo, utilizando a habilidade de criar formas e monumentos em 3 dimensões.

Música: reunião de quaisquer sons provenientes da voz ou de instrumentos, que possuam ritmo, melodia e harmonia, numa combinação harmoniosa de sons para os tornar agradáveis e expressivos.

Literatura: forma de arte que se baseia no uso das palavras, em prosa ou verso. É dela que derivam a poesia e o teatro.

Dança: provoca movimentos no corpo, que acompanham o ritmo de uma música numa série ritmada de gestos e passos.

Arquitetura: arte de construir e decorar edifícios, usando a estética para criar edifícios que sejam harmônicos com o espaço e que perdurem no tempo.

Cinema: arte de compor e realizar filmes audiovisuais para serem projetados.

Vale lembrar que hoje, outras artes como fotografia, quadrinhos, jogos e arte digital foram adicionadas na lista por pensadores contemporâneos, adequando os ideais filosóficos antigos à modernidade em que vivemos, onde o digital e virtual compõem grande parte do consumo artístico da nossa geração.

Referências:
COVALESKI, R. L. Artes e comunicação: a construção de imagens e imaginários híbridos. Galaxia (São Paulo, Online), n. 24, p. 89-101, dez. 2012.
CARVALHO, Zilmara de Jesus Viana de; MELONIO, Danielton Campos. A divisão das belas artes: Kant e Hegel. Griot : Revista de Filosofia, Amargosa – BA, v.18, n.2, p.198-216, dezembro, 2018.
Artigo de Mônica Lucas “Aspectos da recepção alemã do Les beaux arts réduits à un même principe (1746) de Charles Batteux”
https://laart.art.br/blog/as-7-artes/
https://www.dicio.com.br/

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