28/01/2021 às 06h33min - Atualizada em 28/01/2021 às 06h31min

A mulher mais poderosa do mundo em cheque

Nova versão da personagem feminina mais famosa da Cultura Pop divide opiniões

Paulo Pereira - Editado por Fernanda Simplicio
Fonte/Reprodução: Comixology.com

Alvo de críticas generalizadas na internet, a nova Mulher-Maravilha, agora brasileira, estreou no último dia cinco na minissérie de história em quadrinhos Future State da DC Comics.
 
Terminada a saga Dark Nights: Death Metal (2020), e com o decorrente surgimento do chamado Omniverso, que modifica e amplia conceito dos Multiversos – sim, algo similar ao apresentado pela concorrente Marvel –, todos os personagens do ambiente ficcional criado pela DC Comics nas histórias em quadrinhos tiveram as suas extensas (e muitas vezes confusas) cronologias integradas. Personagens, verdadeiros ícones da Cultura Pop/Geek como Batman, Mulher-Maravilha e Super-Homem, tornaram-se conscientes de toda a sua trajetória naquele(s) universo(s).
 
Neste complexo cenário, Diana Prince, a Mulher-Maravilha original, “muda de natureza e missão” (fico por aqui para não dar spoilers). Isso posto, podemos dizer então, que “a vaga ficou aberta”. Surge então uma nova Mulher-Maravilha – e não apenas uma, é preciso deixar registrado. A primeira delas, e possivelmente a mais singular, tem nacionalidade brasileira e chama-se Yara Flor. Ela é herdeira de duas ricas culturas: a indígena do Brasil e a grega.
 
Como a HQ DC Nation Presentes DC Future State, lançada em novembro do ano passado em formato digital e ainda sem data de publicação em formato físico no Brasil elucida, o acontecimento irá pavimentar espaço para muitas possibilidades. Heroínas e heróis que conhecemos, estarão representados por suas versões mais jovens, com personalidades diferentes. Novos seres, viverão aventuras desenhadas e roteirizadas por uma gama de talentosos artistas.
 
A Mulher-Maravilha Yara Flor surge oficialmente em Future State: Wonder Woman #1 (Estado Futuro: Mulher-Maravilha nº 1), HQ publicada em janeiro deste ano pela DC Comics e que abre – ao lado de Future State: The Next Batman #1, Future State: Harley Quinn #1, Future State: The Flash #1, Future State: Swamp Thing #1 e Future State: Superman of Metropolis #1 – o grande evento Futuro State.
 
A arte e o argumento da edição que nos apresenta a Amazona brasileira, estão nas mãos da prestigiada ilustradora e quadrinista norte-americana Joëlle Jones. A artista é responsável por sucessos como Lady Killer, Mockingbird e 12 Reasons Why I Love Her (ainda inédito no Brasil). Sua “leitura” da Mulher-Gato – Catwoman (2018-) Vol. 1: Copycats – foi bastante elogiada. Superman e Monstro do Pântano por exemplo, também já passaram pelas mãos da quadrinista.
 
A trajetória artística de Jones é marcada por questionamentos aos papéis sociais historicamente convencionados às mulheres. Seus roteiros (e desenhos) originais ou construídos sob a bagagem de personagens conhecidas(os), constroem narrativas que estruturam e fortalecem a perspectiva feminina. Embora não carregue exatamente uma bandeira feminista, seu ponto de vista vai ao encontro de princípios que propõem a quebra de paradigmas patriarcais e a ascensão da mulher à condição de ser de representação própria; capaz de materializar funções sociais e profissionais de modo tão eficientes (ou mais) quanto os homens.
 
Apesar deste histórico, a Yara Flor criada por Joëlle Jones foi alvo de críticas na sua estreia. Opiniões publicadas em mídias sociais, criticam a personagem e apontam que ela não carrega verdadeira representatividade da comunidade indígena brasileira. Os críticos, dentre os quais indígenas (Influenciadores Digitais), apontam para um estereótipo sexualizado e uma exposição de valores e conceitos culturais não fidedigna à visão de mundo indígena.
 
Nos EUA, o quadrinho foi muito bem avaliado. Tanto por leitores, quanto pelos críticas. Na Comixology (onde pode ser adquirida digitalmente), League of Comic Geeks, Comicbook, Polygon e Comicbook Round Up.
 
Uma suposta resposta de Jones às desaprovações também circula pela internet. Nesta, a artista diz que fica triste com as ofensas que possa ter causado, que Yara Flor é na verdade uma “Amazona híbrida”, parte indígena e parte grega – mais precisamente Themysciriana, uma vez também oriunda da fictícia ilha das Amazonas, terra natal das Amazonas e da Mulher-Maravilha original – e que mais sobre a sua origem virá em breve.
 
A expectativa é que Future State: Wonder Woman #2 (Estado Futuro: Mulher-Maravilha nº 2), que será publicada em fevereiro próximo, traga mais sobre as origens desta já icônica Mulher-Maravilha.
 
Em dezembro passado, pouco antes do início de Future State, Joëlle Jones concedeu uma entrevista ao grupo Omelete, durante a CCXP2020 – Comic Con Experience 2020. Na ocasião, ela explica um pouco do processo a respeito da criação da Yara, as perspectivas do evento e como ela ficou maravilhada com a criação de uma Mulher-Maravilha brasileira. Como bem coloca o repórter Gabriel Avila, que assina a matéria no Omelete, a proposta do Jones é ficcional. Apesar do seu “mergulho cultural”, não há um compromisso com realidade.
 
A representação de indígenas nas histórias em quadrinhos não é nova. Contudo, nos dias atuais, questões (e diferenciações) a respeito de representação e (efetiva) representatividade, costumam ser levadas em conta – inclusive nas obras artísticas de ficção.  Aspectos etnocêntricos – certa tendência em observar (e representar) o mundo à partir da perspectiva particular de um povo e cultura ao qual se pertence – também podem aderir à discussão reativa à HQ em questão. O palco de discussão foi instalado. A expectativa é que não haja polarizações, mas sim diálogos.
 
Bem vinda, Yara Flor - com o seu visual também inspirado na modelo cearense Suyane Moreira e o anúncio de uma série (ainda sem previsão de estreia) em live action pela CW. Ao lado de Flash, Supergirl, Superman & Lois etc.

 
REFERÊNCIAS:
BONINI, M. Suyane Moreira, musa inspiradora de Mulher-Maravilha brasileira, conta que já sofreu preconceito por biotipo. Quem. 22. out. 2020. Disponível em: https://revistaquem.globo.com/Entrevista/noticia/2020/10/suyane-moreira-musa-inspiradora-de-mulher-maravilha-brasileira-conta-que-ja-sofreu-preconceito-por-biotipo.html. Acesso em: 10. jan. 2021.
 
CUNHA, DOS S, J. Mulheres nos Quadrinhos: Joëlle Jones. deliriumnerd. Quadrinhos. 29. ago. 2019. Disponível em: https://deliriumnerd.com/2019/08/29/joelle-jones-mulheres-nos-quadrinhos/. Acesso em: 24. jan. 2021.
 
DC COMICS. DC Nation Presents DC: Future State (2020-) #1. Comixology. 24. nov. 2020. Disponível em: https://www.comixology.com/DC-Nation-Presents-DC-Future-State-2020-1/digital-comic/905480. Acesso em: 10. jan. 2021.
 
JOELLE, J. Future State: Wonder Woman (2021-2021) #1. Comixology. 5. jan. 2021. Disponível em: https://www.comixology.com/Future-State-Wonder-Woman-2021-2021-1/digital-comic/911832?ref=c2VyaWVzL3ZpZXcvZGVza3RvcC9ncmlkTGlzdC9SZWNlbnRBZGRpdGlvbnM. Acesso em: 10. jan. 2021.
 
ROCHA, Everardo P. Guimarães. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 1984. 96p.
 
SOLER, R. Comentando a polêmica da hq da Mulher Maravilha brasileira, Yara Flor + resenha. 2021. (11m37s). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=UonyimmUZ7c.
Acesso em: 10. jan. 2021.


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