15/02/2021 às 03h15min - Atualizada em 15/02/2021 às 02h46min

Cidade Invisível: a história por trás das lendas

Nova série da Netflix altera histórias indígenas em uma abordagem contemporânea

Beatriz Rabelo - Revisado por Mário Cypriano
Imagem: Divulgação/Netflix


A produção brasileira ‘Cidade Invisível’ foi lançada pela Netflix no começo deste mês (5) e em sua primeira semana no streaming esteve em primeiro lugar no Top 10 da plataforma. A trama policial aposta na atualização do folclore brasileiro e traz de volta o debate sobre uma das culturas mais antigas do país.

Na história, o detetive Eric Alves está atormentado com a investigação do assassinato de sua esposa e acaba se envolvendo em algo muito maior ao decorrer da trama. A série conta com um elenco de grandes nomes como Marco Pigossi e Alessandra Negrini interpretando entidades brasileiras em um roteiro baseado na história dos autores nacionais Carolina Munhóz e Raphael Draccon.

Apresentando o folclore brasileiro no mundo moderno, o seriado se ambienta no Rio de Janeiro abordando a vida de entidades extremamente importantes e conhecidas, tais como o Curupira, o Saci-Pererê, a Iara e a Cuca. Entretanto, algumas mudanças e liberdades em suas histórias causaram estranhamento, especialmente pela parte dos telespectadores indígenas.

‘Cidade Invisível’ conta com um elenco de não-indígenas, além de alterar as histórias para se adaptar ao momento atual, não sendo a melhor fonte para entender mais sobre esses personagens nativos. O escritor indígena Olívio Jekupé, 55 anos, nos ajuda a entender um pouco dessa realidade histórica e como deveríamos abordá-la em uma produção atual. Conheça os personagens:

Sendo uma das entidades mais populares entre os brasileiros, o Saci-Pererê possui origens africanas e é representado como um menino negro de uma perna só que veste um gorro vermelho. Sempre retratado como muito travesso e até maléfico em algumas produções. E assim é abordado na trama da Netflix, interpretado por Wesley Guimarães. Nela, a entidade é adaptada para a sociedade contemporânea como um morador de uma ocupação na Lapa, chamado Isac em um anagrama para Saci. O escritor Olívio Jekupé nos explica um pouco melhor o porquê de ele ser visto dessa maneira.

Segundo Jekupé, na época da escravidão, os escravos negros trouxeram suas crenças que tinham seus próprios personagens. “Os escravos por serem muito castigados, durante a noite eles quebravam coisas da propriedade, amarravam rabos de cavalos...” diz o escritor.  Ele conta que na manhã seguinte quando iam ser punidos pelos senhores de engenho, os escravos diziam que não haviam feito nada, mas sim um menino negro chamado Saci- Pererê, um mal pronunciamento do nome indígena Jaxy Jaterê, uma tradicional entidade guarani conhecida como o protetor da floresta.

A história foi se misturando pelo Brasil com origens indígenas e africanas 
até que se popularizou com as histórias do Monteiro Lobato. Na série vemos uma cena que mostra a origem africana do Saci, mas sem menção alguma a sua origem indígena.

Jekupé possui diversas obras publicadas que trazem essas origens focadas na cultura guarani. Títulos como  "O presente de Jaxy Jaterê” (Panda Books, 2017), "Ajuda de Saci" ( Editora DCL, 2006) e "O Saci Verdadeiro" (Editora Eduel, 2003), que explicam com mais profundidade as histórias indígenas. 

Curupira, o protetor das florestas, matas e animais também é retratado nessa adaptação como um morador de rua em uma ocupação na Lapa. A produção mantém a originalidade da lenda com seus pés virados para trás para enganar e confundir caçadores nas florestas, no entanto, o coloca em uma cadeira de rodas por não poder andar entre os humanos com seus pés à mostra. Assim como a sua representação nas telas da Netflix, a entidade do Curupira também gosta de beber bastante pinga e fumar.

Mesmo que em suas histórias não esteja claro se ele representa o bem ou o mal, sua lenda já foi muito usada como uma forma de ensinar as crianças que não devemos machucar as florestas e os animais que vivem nelas. Na série vemos um pouco de cada lado do Curupira, o seu lado agressivo e destrutivo, e também o seu lado protetor.

Em 'Cidade Invisível', muitos telespectadores ficaram surpresos ao ver um Curupira não-indígena, interpretado pelo ator Fábio Lago. O indígena na aldeia tem o conhecimento e a crença, porque não é só conhecimento. Não adianta o ator na cidade estudar e criar uma interpretação ao contrário” conta Jekupé, preocupado com as adaptações da cultura indígena. De acordo com o escritor, a sociedade tem costume de criar ficção em cima do que se escuta, e assim, nunca se sabe a visão que irão colocar.

Personagem importante na série, a Cuca é uma bruxa assustadora que rapta crianças que desobedecem aos pais, segundo o folclore brasileiro. Diferente das outras entidades, ela vem do folclore galego-português, mas tornou-se um dos personagens mais conhecidos no país por conta da obra “O Sítio do Pica Pau-Amarelo”, onde tem a forma de um jacaré e é a grande vilã do enredo.

A história retrata a bruxa de uma forma bem diferente da que conhecemos pelas histórias de Monteiro Lobato, bem mais assustadora e menos cômica. Retratada como a mais poderosa e temida entre as personagens, sua história se difere da original ao acrescentarem uma narrativa atual onde ela perde seu bebê, tornando-se a Cuca, vivida pela atriz Alessandra Negrini.

Para agregar ao enredo, a trama também utiliza músicas conhecidas, como a canção infantil “Nana Neném”, usada para invadir a mente dos personagens enquanto dormem.

Por fim, a Mãe D’Água, uma sereia que atrai os homens para o mar a partir do seu canto hipnotizante. Para os antigos, Iara era uma mulher indígena que possuía uma grande beleza, causando inveja em seus irmãos que resolvem matá-la. Iara é quem acaba matando os irmãos e é castigada pelo pai, sendo lançada ao rio. Diante dessa injustiça, os peixes do rio decidem salvá-la, transformando-a na sereia que conhecemos hoje em dia.

Sua representação na série segue uma linha muito parecida, mas com pequenas mudanças como uma atriz negra para interpretar o papel. Apesar da atuação impecável de Jessica Córes, uma atriz indígena teria sido mais adequada para interpretar a sereia. “Se você procurar nas aldeias de todo Brasil, você pode encontrar muitas indígenas talentosas para fazer parte dessa personagem.” comenta Jekupé, ao refletir sobre a falta de representatividade indígena nas produções brasileiras.

Confira o trailer abaixo:
 

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