24/04/2021 às 23h22min - Atualizada em 24/04/2021 às 23h15min

Tokusatsu: Muito além do saudosismo

Há mais de meio século, os heróis japoneses fascinam diversos países em todo mundo

Rayana do Carmo - Editado por Ana Terra

Quem é mais velho, com certeza deve lembrar de assistir as aventuras de heróis como Jaspion, Kamen Rider, e os famosos Power Ranger na tv aberta. Essas produções são japonesas e são denominadas como Tokusatsu. Sua criação vem desde os teatros tradicionais chamados Kabukis que usavam efeitos especiais (manualmente) para simular lutas e cenas de ação variadas.

O gênero Tokusatsu no Japão é uma das formas mais populares de entretenimento para os japoneses. Mas foi nos anos 50, que o termo se intensificou mais como uma alternativa para dar nome ao gênero de filmes com efeitos especiais hollywoodianos, assim o termo “Tokushu Kouka Satsuei” – ou apenas Tokusatsu- foi criando gosto aos japoneses.

Os programas desse gênero possuem classificações que não ficam muito visíveis para quem não conhece muito, mas para os fãs é algo que possui muito significado. Os subgêneros dentro deste universo são muitos, alguns deles mais famosos são os super sentais, os famosos esquadrões, onde podemos citar os Power Tangers, changeman. Além desses temos os Metal Heroes, onde entram Jiraya e Jaspion. Outro subgênero que conhecemos, mas que nunca associamos como Tokusatsu, é o Kyodai Heroes, ou heróis gigantes, nele temos o famoso Godzilla.

Em entrevista ao Lab Dicas de Jornalismo, Marcus Henrique, professor universitário da Universidade Federal do Cariri (UFCA), coordenador do Sana Tokusatsu e amante desse universo, explica que “as séries de tokusatsu têm muito diálogo com o universo americano, eles tanto influenciam como são influenciados pelas produções americanas. “Uma das influências mais clássicas que podemos associar diretamente é a de Star Wars, e podemos ver isso principalmente no inimigo do herói Jaspion, o Satan Goss. Sua aparência lembra muito um famoso vilão de Star Wars, o Darth Vader".

Satan Goss VS Daileon - Jaspion// Fonte: SATO Company

Satan Goss VS Daileon - Jaspion// Fonte: SATO Company

Com o rápido sucesso dos Tokusatsus no Japão, não demorou muito para que as franquias chamassem atenção nos outros países. Os super sentais foram os que mais se destacaram, principalmente nos Estados Unidos, onde se criou os conhecidos Power Rangers. Na verdade, os direitos foram comprados e importados pelo empresário Haim Saban nos anos 90. Mascus explica que “a fórmula do power ranger era uma fórmula muito simples até, o Saban comprou os direitos autorais de uma série, que foi o Kyoryu Sentai Zyuranger nos anos de 1992. Ele comprou os efeitos da série e com isso ele selecionou um elenco jovem de americanos e bolou o nome do que seria o primeiro power ranger o Mighty Morphin e criou a história que todos conhecemos, da alameda dos anjos, a cidade americana que aparecia os monstros e eles precisavam proteger ela e o resto do mundo”. Depois de muito tempo em poder da Saban, a franquia teve seus direitos vendidos para a Disney, e hoje em dia a Hasbro é a detentora de seus direitos oficialmente. 


TOKUSATSU no Brasil 

Aqui no Brasil não foi diferente, nos anos 60 e 70 as séries japonesas de Tokusatsu estavam desembarcando nas tvs abertas, principalmente em canais que hoje são históricos como o Excelsior e a Tupi. No final dos 80, Toshihiko Egashira (Everest Vídeo)  e o Nelson Sato (SATO Company) compraram os direitos de algumas séries e procuraram algumas emissoras de tv e foi a Rede Manchete, em 1988, que deu o voto de confiança aos heróis japoneses e começou a transmitir Jaspion e Changeman. 

Foi um sucesso imediato, e com a alta audiência desses dois, outros começaram a ser exibidos também, como Jiban, Jiraya, Kamen Rider, entre outros. A febre Tokusatsu se instalava no Brasil e vendo o sucesso da Manchete, outras emissoras, como Band e Globo, começaram a apostar nas séries japonesas também. 

Mas infelizmente, com todo esse sucesso, a saturação de programas foi o que prejudicou a continuação dos seriados na tv aberta. Como havia muitos canais passando Tokusatsu, a audiência acabou ficando saturada, explica Marcus. “Chegou uma hora que era tokusatsu de manhã, à tarde e à noite. E, infelizmente, isso começou a deixar o público saturado com tudo o que estava passando, pois deixava de ser novidade e começou a ser bem enjoativo. O público começou a notar a semelhança entre a série e a fórmula que era aplicada em todas. Os canais foram tirando aos poucos a exibição até sobrar apenas uma ou duas séries de tokusatsu”. 

Além da saturação, outro fator que foi decisivo para a retirada das séries de Tokusatsu da tv aberta foi outra febre que estava vindo forte para o Brasil. A Febre Otaku. Em 1994, Cavaleiros Dos Zodíacos estreou nas tvs brasileiras e junto com isso o golpe de misericórdia foi dado às séries que restavam de Tokusatsu. 

Anos 2000 e uma nova tentativa de vinda a TV Aberta

A febre Otaku durou até os anos 2000 e monopolizou os canais de tv’s. Mas mesmo assim, um tiro no escuro foi dado pela Rede Tv em 2009 com a estreia de Madan Senki Ryukendo. “Foi um tiro no escuro infelizmente. Foi uma investida feita em 2009, e Ryukendo não teve uma audiência como era esperada. A geração é outra, a divulgação foi bem pouca, fazendo o público ser pego de surpresa, muita gente só soube que já estava no ar quando a série já estava na metade, a dublagem recebeu críticas também, ficou com o som abafado e baixo, ficou bem estranho”. Esclarece Marcus.

Fonte: Oji Hiroi / Takara Company

Fonte: Oji Hiroi / Takara Company

Vendo essa tentativa, fica claro que a situação do cenário Tokusatsu hoje está bem difícil. Marcus explica que o que estamos passando hoje é uma crise de saudosismo. “Os canais não querem mais passar,  principalmente por conta de ser caro, todo uma contratação de dublagem e direitos autorais  Os investidores brasileiros também só querem  comparar direitos de séries clássicas que já passaram na manchete por exemplo, e isso causa uma grande estagnação no mercado, onde fica um mercado batendo sempre naquele mesmo coisa, tem até umas séries em serviços de Streaming, mas nada novo, não há uma produção original por exemplo”.

Ele continua. “Fazer com o que as séries de tokusatsu voltem não basta apenas fazer com o que passe na tv aberta, tem que ter outras estratégias, incluindo uma renovação nas séries trazidas. Quando você fica apenas com essas séries clássicas, você fica trabalhando com um público muito limitado, com pessoas de 30, 40 anos e não consegue fazer uma nova geração de fãs. É preciso novas séries que façam apelo para essas novas gerações, com novos efeitos, e não ficar apelando para os clássicos alcançarem essa nova geração. Essa onda de saudosismo prejudica bastante o mercado”.

SANA Tokusatsu 

Exposição Sana - Sala Tokusatsu / Foto: Rayana do Carmo

Exposição Sana - Sala Tokusatsu / Foto: Rayana do Carmo

Amante de Tokusatsu desde de criança quando assistia na extinta Tv Manchete, Marcus juntou seu amor pelo tokusatsu e transformou em uma sala voltada exclusivamente para isso dentro do evento SANA (Super Amostra Nacional de Animes) em Fortaleza - Ceará.

Criada em 2004, no quarto ano do evento a Sala Tokusatsu, foi uma maneira que ele encontrou de suprir sua saudades das séries. Ele lembra que nos primeiros 5 anos de sala, ele ficava responsável de ensinar tudo o que ele sabia aos novos fãs. 

“Aqui em Fortaleza, por exemplo, quase ninguém conhecia a palavra tokusatsu. Como eu sou professor esse era o meu primeiro objetivo ensinar esse mundo diferente que o tokusatsu é. Eu me empenhava, eu fazia muitos slides com curiosidades, com várias informações para mostrar que é um mercado, um mundo muito grande. Trazia cantores japoneses que cantavam as aberturas , especialmente para aproximar esse público das séries e divulgar mais ainda esse mundo”.

No ano de 2019 ( último ano de evento presencial), a sala completou 16 anos de existência e de acordo com Marcus, em uma fala orgulhosa, ele afirma que a sala cumpriu o seu papel educativo. “a Sala tokusatsu conseguiu ter esse papel educativo de trazer essa cultura do tokusatsu para o ceará, ensinar o público que ele não é live action, mostrar que não é apenas uma série vazia com efeitos especiais, mas sim um mundo completo de saberes e de cultura, onde podemos aprender e transmitir conhecimento”. 

 

REFERÊNCIAS:
ALCÂNTARA, Felipe. TOKUSATSU: QUE TAL OLHAR OUTRA VEZ? Direto do Japão. Dezembro, 2020. Disponível em: <https://www.diretodojapao.info/post/tokusatsu-que-tal-olhar-outra-vez>. Acesso em: 05 de abril de 2021.
FÁBIO, Garcia. ALÉM DE JASPION:COMO É A EXIBIÇÃO DE SÉRIES TOKUSATSU NO JAPÃO ATUALMENTE? OMELETE. Maior, 2021. Disponível em: <https://www.omelete.com.br/anime-manga/como-e-o-tokusatsu-no-japao-hoje>. Acesso em: 05 de abril de 2021.
PERNILHAS, Bruna. A HISTÓRIA DO TOKUSATSU NO BRASIL. IGN. Setembro, 2020. Disponível em: <https://br.ign.com/ign-drops/84229/feature/a-historia-dos-tokusatsu-no-brasil>. Acesso em: 05 de abril de 2021.
SOUZA, Ivan. TOKUSATSU: SAIBA TUDO SOBRE O UNIVERSO DOS HERÓIS JAPONESES. TOKUBLOG. Janeiro, 2021. Disponível em: <https://tokusatsu.blog.br/tokusatsu/>. Acesso em: 05 de abril de 2021.
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