24/06/2021 às 23h56min - Atualizada em 24/06/2021 às 18h13min

Colorista Marina Amaral traz cor para fotos históricas de importância mundial

Brasileira e colorista, Marina se torna um fenômeno por devolver cores às fotografias de eventos históricos

Ana Luiza Portella - Revisado por Isabela dos Santos
Marina Amaral foi incluída na lista Artes Plásticas e Literatura Forbes Under 30 pelo seu trabalho de colorização das fotos. (Foto: Reprodução)
É inegável a tamanha influência que as cores têm sobre nossas vidas. Vai muito além de toda semiótica envolvida, e sim pelo fato de dar vida a coisas em proporções espetaculares do ‘’sentir’’ humano. A primeira fotografia do mundo, por exemplo, aconteceu no ano de 1826, mas a chegada das cores surpreendeu a todos aqueles que, no fim, acabaram por se questionar como seria possível captar o mundo real em um mero pedaço de papel que explodia tonalidades atraentes. Nos dias atuais não há todo o processo complicado de colorização das fotos, visto que toda a tecnologia presente faz esse trabalho por conta própria. Mas o que acontece com as fotografias de antepassados que foram eternizados no preto e branco? 

Marina Amaral é uma das responsáveis pelo grande clã que traz essa mágica em cores para fotos históricas. Nascida em Belo Horizonte, aos 27 anos é especialista em adicionar manualmente cores às fotografias em preto e branco, trabalho que se iniciou como um simples hobby em 2015, ao encontrar uma coleção de imagens colorizadas da Segunda Guerra Mundial. Como sempre foi apaixonada por história
por pura influência da mãe historiadora e dominava o Photoshop, decidiu aprender sozinha a técnica de colorização. 
 

 

Por meio desse amor descobriu ainda durante a vida adulta que tinha autismo de grau 1, diagnóstico no qual não impediu em nenhum momento de continuar seu trabalho, acreditando que jamais teria todo esse interesse por colorir se não fosse autista. Com tanta repercussão do seu talento pela internet, hoje possui seu best-seller mundial The Colour of Time: A New Story of the World, de 2018, traduzido em 13 idiomas. Foi incluída na lista Artes Plásticas e Literatura Forbes Under 30 e teve seu último lançamento The World Aflame no ano de 2020; ambos os livros uma parceria com Dan Jones e sendo este último a obra n°1 de mais vendido de História e Fotografia da Amazon. 

A colorista compareceu em março deste mesmo ano no programa Conversa com Bial,contando sobre sua história e tudo que envolve o processo de colorização que, além de ser um trabalho manual, necessita de muita pesquisa dos contextos históricos de cada registro. 

Atualmente Marina terminou o seu mais novo projeto, o documentário Billie (disponível na plataforma de streaming Telecine), no qual coloriu digitalmente mais de 100 fotos da cantora Billie Holiday, nenhuma vista em cores anteriormente. 

 

Faces of Auschwitz

Seu sucesso foi alavancado pela profunda dedicação em seu projeto Faces of Auschwitz, parceria exclusiva com o Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau e com a ajuda de um time de acadêmicos e jornalistas. A intenção, além de devolver cores às vítimas do holocausto, visa homenagear a memória e a vida dos prisioneiros, compartilhando histórias de cada rosto fotografado.

Futuramente, podemos esperar um documentário do projeto, de acordo com Marina. 
 

‘’O documentário começou como uma ideia, passou por diversas transformações, e está atualmente em um lugar que nenhum de nós esperávamos. Mais do que compreender o que foi Auschwitz, as pessoas terão a possibilidade de entender o que pode acontecer quando pessoas de diferentes partes do mundo se encontram por um acaso da vida, por destino, ou como queira chamar - e se unem por um único propósito.’’  Marina via Correio Braziliense

     

The American Flag

Um dos eventos mais emocionantes que marcou a carreira da colorista, foi quando uma de suas fotos colorizadas chegou até o filho de Thomas H. Garahan, Capitão da Segunda Guerra Mundial ,que estava presente no registro. A foto original ganhou cores por Marina em 2016 e, como significa muito para ela, tornou-se um hábito postá-la todo ano em suas redes sociais. Mas foi em 2020 que ela embarcou mares afora pelo contexto da fotografia quando recebeu a devida mensagem



"Olá Marina. O oficial que segura a bandeira é meu pai. Estive em Bitche muitas vezes e sua foto colorida está em um novo museu lá. A bandeira foi feita em segredo, escondida dos nazistas durante a ocupação, por uma mulher no hotel ao lado da foto. A bandeira foi entregue ao meu pai naquele dia. Tenho muito a te contar sobre a história e seu envolvimento com ela. Entre em contato comigo para saber como compartilhar. Obrigado por tudo o que você fez. Frank"
 

Frank Garahan é o caçula da família, tendo quatro irmãos e duas irmãs. Todos tinham muito orgulho do pai e sabiam muito de seu serviço durante a guerra, mas, como a maioria de seus contemporâneos, falava pouco sobre sua experiência. A famosa fotografia serviu como uma janela para imaginarem como foi aquele dia para ele. 

Perto do fim da guerra contraiu Hepatite A, ficando internado em um hospital francês por seis semanas. A doença permaneceu latente por mais quarenta anos e, infelizmente, voltou na forma de câncer pancreático. Três semanas após o diagnóstico, Thomas morreu aos 72 anos, em 1988. Como homenagem, a família foi assistir uma reunião de seus soldados da 100° Divisão de Infantaria, algo que ele nunca havia feito, onde a fotografia era vista como símbolo dos soldados. 
‘’Um dia, um irmão meu enviou-me um email com uma cópia da já famosa foto, mas colorida! Eu me perguntei de onde poderia ter vindo e quem era essa pessoa misteriosa do Brasil, Marina Amaral. E por que Marina escolheu esta fotografia para colorir? Isso foi extremamente emocionante para mim, porque passei vários anos pesquisando todos os aspectos de seu tempo na França e na Alemanha. Isso incluiu a leitura de oitocentas páginas de cartas que ele havia escrito para nossa mãe, vários livros, alguns incluindo fotos de nosso pai ferido em uma explosão de bomba e sendo atendido por médicos.’’, diz Frank.
Frank relata que, após a euforia de ver a foto em cores, partiu para uma viagem refazendo cada passo de seu pai durante a Segunda Guerra Mundial, concluindo a jornada em 2017. A fotografia abriu portas para reuniões com autoridades eleitas e dignitários na cidade libertada de Bitche, na França. Posteriormente, em 2019, um museu foi inaugurado na cidade e a exibição principal é a bandeira original e uma grande fotografia colorida emoldurada do momento da libertação. Esse dia foi o mais importante do século XX para aquela cidade, e tudo isso, capturado nessa imagem.   
 
 
Ao perguntar a Frank quais elementos o chamaram mais atenção — além do ato principal do pai levantando a bandeira de seu país  que apenas foram percebidos após a colorização, confessa que foi a humanidade das pessoas na rua. Após seis anos de opressão e ocupação, eles emergiram de seu esconderijo, expondo o comportamento que as pessoas compartilham após a ocorrência de um desastre; reconectando, tranquilizando. Eles ficaram parados em meio aos escombros da guerra tentando colocar suas vidas em ordem e apoiando uns aos outros. A colorização permitiu que a emoção do momento fosse visível e acessível.
 

’Por algum motivo, a foto em preto e branco cria uma distância no tempo e no espaço. Parece histórico e um pouco nebuloso com as pessoas parecendo silhuetas. Lembro-me da primeira vez que vi a versão colorida da foto. Isso me lembrou de um filme que eu amava quando criança, O Mágico de Oz. Entre os muitos triunfos do filme, estava a mudança dramática de preto e branco para colorido no meio da história e era uma técnica poderosa.’’

Após ter entrado em contato com Marina pela primeira vez em 2020, a colorista fez questão de reunir todo o depoimento de Frank e organizá-lo em uma única postagem, When Past and Present Collide, no seu blog oficial.
 

‘’Fiquei muito orgulhoso de seu talento e habilidade como artista e fiquei honrado por ela ter escolhido esta foto para colorir. Acho que ela ficou encantada por ter uma progênie dando vida a sua foto. Foi emocionante para nós dois e ainda é. ‘’

    

O trabalho da colorista pode ser acompanhado peo Instagram (@marinaarts), Twitter (@marinamaral2) e Facebook (Marina Amaral - Photo Colorization).


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