04/02/2022 às 07h59min - Atualizada em 07/08/2021 às 01h04min

Autismo em tela | O impacto das obras audiovisuais que retratam o espectro autista

Os impactos positivos e negativos de produções baseadas na vida de pessoas com TEA

Jonathan Rosa - revisado por Fernanda Simplício
Família Gardner visitando o pinguim Stumpy na série 'Atypical'. (Foto: Reprodução/ Netflix)

O transtorno do espectro autista (TEA) já foi adaptado para o cinema e televisão algumas vezes, levando representações distintas dos mais diversos graus do espectro que abrange mais de 2 milhões de brasileiros. Entre estas produções, estão peças que retratam pessoas no espectro e seus familiares de uma forma muito próxima da realidade, por outro lado, algumas passam uma visão estereotipada sobre o autismo. Como resultado, o TEA ganha espaço impactando a grande mídia, mas continua enfrentando divergências na hora de adaptar a realidade para as telas.

Apesar de não ser possível determinar com exatidão todos os padrões de personalidade entre os diferentes graus do espectro, há alguns comportamentos semelhantes que podem ser inseridos nas obras ficcionais. Isso pois o transtorno do espectro autista possui diferentes graus de intensidade que transitam entre os mais delicados, como a ausência total de contato interpessoal e comprometimentos mentais e físicos mais significativos, até casos ditos leves, com comprometimentos sutis na socialização.


Familiares, amigos, profissionais e pessoas com autistas relatam a importância deste tipo de representatividade nas grandes mídias, mas que alguns pontos podem ser problemáticos para o entendimento do público em geral. O neuropediatra Cristiano Freire, destaca que cada diagnóstico é único quando se trata de TEA, segundo o médico que possui 20 anos de experiência lidando com autistas: “O autismo é singular, cada um é cada um, nunca tem um caso de autismo igual ao outro”, afirmou o médico.


A série Atypical da Netflix, abordou durante suas 4 temporadas o nível mais ameno do espectro, tratando o tema com uma leveza que rendeu uma nota de 8,3 no IMDb e 89 no Rotten Tomatoes. Apesar de pincelar alguns outros graus do autismo, a obra criada por Robia Rachel, tem seu maior foco nos relacionamentos do jovem autista Sam Gardner, (interpretado por Keir Gilchrist, que não tem autismo fora das telas), e seus familiares.

Aos 18 anos, o protagonista de Atypical enfrenta os mais diversos dilemas da vida adolescente, como dificuldades na escola, relacionamentos, trabalho, e a busca por autonomia e independência. Para a estudante de Jornalismo Mariana Aguiar, 29 anos, essa mistura de carisma e informação é o que faz a série ser tão importante. Mariana teve o diagnóstico de que sua filha tem autismo, quando a menina estava com dois anos e três meses de idade, após oito sessões de avaliação com uma psicopedagoga.

 

A estudante contou que já acompanhava Atypical antes mesmo de ter o diagnóstico da sua filha Luiza, e que sempre adorou a obra. Ela destacou que a série ajuda bastante a identificar características do transtorno e como lidar melhor com elas, além de estimular a procura por mais informações sobre o tema. “Eu já coloquei a minha mãe e o pai dela [Luiza] para assistiram também e todo mundo gostou, é bem bacana”, destacou Mariana.

O fonoaudiólogo e audiologista Cristiano de Oliveira, criador da Paradoxa, que oferece cursos e materiais sobre autismo, destaca que a importância dessas obras para a comunidade autista depende de cada série. Cristiano foi diagnosticado com autismo aos 34 anos, após passar a vida toda se sentindo deslocado. Segundo ele, o seriado Atypical é bastante positivo para o entendimento do espectro. “Apesar do ator não ser autista, o personagem segue uma linha muito factível, você consegue olhar para o personagem e imaginar que ali é uma autista de verdade, já que não há exageros, e ele traz características bem naturais para um autista”, afirmou o audiologista.

 

O neuropediatra Cristiano Freire concorda que a série Atypical é sim muito informativa e verossímil, apesar de destacar que carrega uma imagem levemente estereotipada em um quadro leve do espectro. Além de julgar que a obra também é meio romantizada. “Eu acredito que esse tipo de série são importantes. É bom falar sobre o assunto. E tem coisas evidenciadas ali que estão muito próximas do real, mesmo que não seja tudo”, disse o médico. Freira também declarou que quanto mais esclarecimento melhor, enfatizando que o importante é falar no assunto.

 

O jornalista Francisco Paiva Jr., cofundador e editor-chefe da Revista Autismo, único periódico sobre o tema na América Latina, e a única do mundo em língua portuguesa, tem a mesma visão que o neuropediatra.

Para ele a Atypical, bem como a série médica The Good Doctor, tem um pequeno lado negativo, que é a possibilidade de criar estereótipos no autismo, mas que isso é um fator muito pequeno quando comparado a importância de colocar o tema do autismo em pauta. “Atypical trata de maneira muito leve e com muito humor a adolescência e o início da vida adulta de uma pessoa com autismo. Portanto as contribuições e os benefícios são imensamente maiores”, destacou. Para o jornalista, falar a respeito do transtorno e todo o conhecimento que esse tipo de obra traz são pontos essenciais.

Em The Good Doctor, disponível no Globo Play, um jovem cirurgião diagnosticado com autismo savant, caracterizado por despertar habilidades extraordinárias em áreas específicas, é recrutado para trabalhar na ala pediátrica de um hospital de prestígio.

 

Apesar do seu incrível conhecimento na área da medicina, o Dr. Shaun Murphy, (interpretado por Freddie Highmore, que assim como Gilchrist também não tem autismo) tem grandes dificuldades de se relacionar com o mundo à sua volta. Acompanhando a trajetória do jovem médico, a obra foca em mostrar as dificuldades e desafios diários enfrentados por ele no hospital San Jose St. Bonaventure. A série também traz as crises pessoais de Shaun, e como ele conseguiu superá-las em sua jornada até a medicina.

 

Para Paiva Jr. apesar de The Good Doctor levantar uma mensagem importante para gerar discussão sobre o tema, ela traz o risco de algumas pessoas pensarem que todo autista vai ser um gênio. Com cinco temporadas a série tem um nota de 8,0 no IMDb e é um grande sucesso de audiência.

O jornalista destaca o quão difícil é abordar todo o espectro, mas indica a animação Pablo da BBC, que retrata o autismo de uma maneira muito ampla e interessante, trazendo cada personagem com uma característica diferente dentro do espectro. “É uma obra muito importante e temos que incentivar a produção cultural que coloca o autismo em pauta”, destaca.

Assim como Paiva Jr., o cofundador da associação Luz Azul de Santa Cruz, e moderador da rede gaúcha de autismo Hugo Enio Braz, acredita que desde que não seja divulgada uma informação errada, tudo é válido, pois o que aparece nessas séries realmente acontece. Hugo destaca ainda, que as necessidades de pessoas com autismo são múltiplas, e que a família também precisa de todo o apoio. Segundo ele, já que faltam ações governamentais concretas para dar esse incentivo, o que atrasa muito a inclusão, essas obras podem inserir o tema na sociedade.

Hugo é avó de um adolescente autista de 15 anos, e relata que algumas pessoas podem dizer que obras deste tipo são ruins por não mostrarem outros tipos de autismo, e geralmente retratam somente os casos menos severos, “mas para isso então deveria ser feito uma série só falando dos vários tipos de autismo que são vários”, destaca Braz. Ele segue afirmando que o importante é falar sobre o assunto, desde que trate as informações com base na realidade. “Nós precisamos falar sobre isso até que todo mundo se entenda”, relatou.

Porém, para Cristiano de Oliveira, nem todas as obras são assim. Segundo ele, o filme Rain Man do diretor Barry Levinson, não reflete a realidade. Por mais verossímil que seja a interpretação de Raymond Babbitt no filme, um autista com incríveis habilidades de contagem, que rendeu a Dustin Hoffman o Oscar de melhor ator em 1988, não é um representativo válido da realidade. O audiologista acredita que esse tipo de obra, que traz o estereótipo do autista gênio, faz com que poucas pessoas se identifiquem com essas características.

A mesma coisa acontece, segundo ele, na série The Good Doctor. “Apesar delas também colocarem o tema do autismo em pauta, e tem gente que se reconhece autista por conta destas produções, e de eu acreditar que obras que abordam o tema são sempre bem-vindas, quanto menos estereotipado for, melhor”, afirma Cristiano.


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