11/10/2021 às 18h26min - Atualizada em 11/10/2021 às 19h02min

“Obrigado, Mulher-Maravilha, Super-Homem e Batman"”

O conhecimento adquirido através dos gibis

Paulo Firmo - Editado por Fernanda Simplicio
Foto: DC Comics/Reprodução: Omelete
Há décadas, pessoas ao redor do mundo encontram na leitura das histórias em quadrinhos de super-heróis importantes aprendizados para a vida.
 
Tradição subestimada
 
Por certo que os quadrinhos, em todo o mundo, são utilizados como ferramentas para educar. Se afirmarmos que muitos aprenderam a ler e escrever com o pai da Turma da Mônica, Maurício de Sousa, ou com os mundos extraordinários criados pela Disney por exemplo, não correremos quaisquer riscos de sermos questionados. O Professor de História, Pedagogo e Editor da Quadriculando (Editora brasileira de histórias em quadrinhos), Thiago Vasconcellos Modenesi, endossa o fato. Para ele “os quadrinhos articulam o escrito e o visual de maneira única, singular. E tem contribuído há mais de um século para apresentar elementos que dialogam com a construção do conhecimento nos seus leitores.”
 
Para ele, todos os públicos, independente de faixa etária, gênero, cor, classe social etc. aprendem muito com os quadrinhos. Podem apreciar a arte ali presente, e estar em contato com inúmeras referências do cinema, arquitetura, literatura e muitas outras. As histórias em quadrinhos são capazes de reunir toda uma gama de conhecimento e disponibilizar a quem tiver interesse, sustenta Thiago.
 
Porém, é bastante comum que esta arte mídia ainda seja subestimada quando se trata do retratar questões mais complexas como as de natureza ambiental, filosófica e política por exemplo. Neste entendimento míope, os super-heróis são postos ainda mais de lado no que diz respeito a possibilidades educacionais. Compreender as suas aventuras (e desventuras) como fonte de conhecimento útil, para além do entretenimento superficial e passageiro, não é algo comum. Mas basta um olhar mais atento às histórias do Homem de Aço (o Superman), do Homem-Morcego (o Batman) e do Lanterna Verde, por exemplo, pode-se identificar verdadeiras reflexões e ensinamentos para a vida. É o que conta o baiano de Salvador, Danilo Jacó, 42 anos (30 anos como leitor de gibis), repositor de mercadorias:
 
Poderia citar, dentre muitos, Dick Grayson, o primeiro Robin. Foi acolhido por Bruce Wayne ainda criança, depois de perder os pais. Poderia ter tudo de bom e do melhor para o resto da vida, uma vez que Bruce é milionário. Mas a uma certa altura de convivência e amadurecimento, depois de várias divergências, Dick decidiu que estava na hora de ‘caminhar com as próprias pernas’. Abriu mão das regalias, e foi conquistar o seu espaço. Não só como homem comum, se tornando detetive em outra cidade, mas também como herói, tornando-se o Asa Noturna. Esse lance saber quando seguir o seu próprio caminho, eu curti bastante, e é umas das coisas que trouxe dos quadrinhos para a vida.
 
O desenvolvimento do pássaro



Falando em Robin, mais precisamente o 2º, Jason Todd, é ele que – e consequentemente nós leitores – recebe um grande ensinamento do Batman. Neste contexto, Todd descobre a verdade oculta a respeito da morte de seu pai. Tomado pela raiva, o diálogo* (em parte reproduzido abaixo) entre os dois levanta questões importantes.
 
– Robin, choroso: Me leva pro combate... mas me poupa disso?
– Batman, sereno: Isso é mais difícil do que o combate, filho. Lutar é fácil para os jovens... aprender a transformar a vingança em justiça, bem... isso é difícil até para um adulto.  
 
*Retirado de Batman The New Adventures #411, escrita por Max Allan Collins com os desenhos por Dave Cockrum, e recentemente publicada pela Panini Comics em A Saga do Batman Vol. 3, página 23. A tradução de “Segunda Chance” é de Rodrigo Barros, adaptação e edição de Gustavo Vícola, e a coleção atualmente encontra-se no 7º volume. Grifos originais da obra.
 
Em uma outra história do “Cavaleiro das Trevas” (como o Batman também é conhecido), neste mesmo volume da coleção citada acima (páginas 34, 41 e 42) e também de autoria dos Max Allan Collins Dave Cockrum, percebemos como certos autores nos levam a caminhos incomuns de reflexão. Suas narrativas estabelecem as contingências para considerarmos questões curiosas e nos fazem questionar aspectos da nossa própria vida.


 
Através de uma conversa entre Bruce Wayne (a verdadeira identidade do Batman) e a repórter Vicki Vale, a HQ nos convida a refletir sobre o ser mímico, uma arte profissão pouco compreendida e valorizada – Algo inteiramente conectado à vida real, se pensarmos bem.
 
– Bruce Wayne: Na verdade, estou me interessando pelo teatro de novo... Ando pensando em montar um espetáculo...
– Vicki Vale: Um espetáculo? Por quê? Existe uma sorveteria que precisa ser salva?
– Bruce Wayne: Não... mas talvez uma forma de arte. Me interessei por Mímica.
– Vicki Vale: Bem, tome duas aspirinas e deite-se. Tenho certeza de que vai passar!
– Vicki Vale: Sim, sim... Mas é notícia antiga. Gotham cansou dela. Bruce, não existe potencial em Mímica, pelo amor de Deus!”  
– Bruce Wayne: Dinheiro não é tudo*, Vicki.
 
*Grifos originais da obra.
 
Junto à reflexão proposta, o estilo de Collins, com uma escrita rica e formal, também acaba por aumentar o repertório do leitor com novos termos e expressões. Observe abaixo.
 
“E, nesta manhã de domingo, uma nebulosa mortalha cai sobre os paroquianos de Gotham... Que, apesar das garantias dos padres... Não conseguem deixar de se incomodar com o som do silêncio.”   
 
Atiçado em sua curiosidade, o leitor pode descobrir o que de fato é uma mortalha e qual a sua relação com a festa do Carnaval, por exemplo. E afinal, quem é que costuma refletir sobre “o som do silêncio”? Enfim, questionamentos em uma história de super-heróis que ultrapassam em muito os limites da pura diversão.
 
A história em questão foi traduzida para o português do Brasil como “O som do silêncio”, e nela temos a origem da vilã A Mímica – publicada originalmente em Batman The New Adventures #412.
 
“Para o alto e ‘além’”!
 
“E os túmulos sedem os seus mortos...” (originalmente “... And graves give up their dead...” em Action Comics #585) publicada no Brasil pela Panini Comics na coleção A Saga do Superman Vol. 2 (também atualmente no 7º volume), com tradução de Rodrigo Barros e Paulo Cecconi, adaptação de Gustavo Vícola e Bernardo Santana. Edição de Gustavo Vícola. Escrita e desenhada pelo prestigiado John Byrne. Aqui, o Homem de Aço – umas das denominações do Super-Homem ou Superman – protagoniza, junto com O Vingador Fantasma, uma profunda e educativa reflexão.


 
Com uma narrativa contundente e poética, o gibi aborda sentimentos opostos como amor e ódio, medo e coragem e força de vontade. Apresenta não apenas os atributos físicos e emocionais do Superman, mas também os compara, de modo sutil, a vida dos seres humanos, atribuindo responsabilidades. Alguns exemplos:  
 
– Vingador Fantasma: Falam comigo sobre sofrimento? Quem são vocês para se queixar, vocês que trouxeram a este mundo tanta angústia com seus próprios atos?
– Narrador: “Ele sabe que o poder do medo é uma mentira. [...] Sabe que o medo consegue triunfar apenas quando a vontade é fraca*.”
 
*Grifos originais da obra.
 
Já em “Lendas das Escuridão” (O, Deadly Darkseid! no original), a última história deste Vol. 3, através da ameaçadora realidade do planeta do vilão Darkseid, Apokolips, o leitor pode refletir e compreender um pouco sobre o funcionamento de regimes totalitários, a miséria e o declínio da humanidade. Questionamentos que surgem e, infelizmente, podem ser conectados com a nossa realidade. Passado e presente. No Brasil e o no mundo. Veja:
 
– Superman: Darkseid governa pelo medo absoluto, então os pobres diabos que vivem aqui provavelmente estarão amedrontados demais para falar com ele.
– Narrador: “... e girando para sempre à sombra de seu mundo-irmão, o sinistro e sombrio Apokolips. [...] Enquanto os abomináveis poços de fogo de Apokolips nutriam criaturas dedicadas apenas à escuridão e à morte...”  


 

Mais realidade
 
Os conhecimentos presentes nas histórias em quadrinhos de super-heróis, como nas do Batman e do Superman citadas, estão presentes também nas narrativas vividas por inúmeros outros personagens. De modo que, além do entretenimento proporcionado, as histórias estão intimamente associadas às problemáticas da nossa realidade. É sabido que esta é umas das mais importantes funções das artes. Não seria diferente com as histórias em quadrinhos.
 
O Prof. Thiago melhor esclarece: “as pessoas buscam sim ver reproduzidas nas HQs nuances das contradições do mundo que estão inseridas. [...] Não é à toa que recentemente o Brasil foi colocado na posição de país não-alinhado com Krakoa nas histórias dos X-Men, justamente devido ao governo negacionista de tipo fascista que ora ocupa o poder, e as HQs captaram e reproduziram esse contexto.”
 
Portanto, não é por acaso que há histórias da Mulher-Maravilha que abordam a luta contra preconceitos, discriminações e igualdade de gêneros. Ou que a parceria entre Dennis O’Neil e Neal Adams tenha gerado elogiadas histórias da dupla Lanterna Verde e Arqueiro Verde pondo-se a discutir seriamente a problemática da dependência química – tema também vivenciado pelo Homem-Aranha, como bem lembra o Prof. Thiago. Do “Amigão da Vizinhança” – um dos apelidos do Homem-Aranha – inclusive, ele guarda na lembrança uma importante história. Em "O Menino que colecionava o Homem-Aranha", o herói mostra-se preocupado e estabelece uma forte relação com uma criança em estado terminal.
 
Inúmeros são os exemplos e as possibilidades de questionamento, reflexão e aprendizado. Os quadrinhos, mesmo as histórias de heróis que em outros tempos destinavam-se ao entretenimento rápido e descartável, hoje estão munidas de possibilidades para analisar e mesmo propor mudanças na realidade em que vivemos. Nas pertinentes palavras do Prof. Thiago “as HQs de heróis fazem importantes debates. Aprendemos nelas valores fundamentais, é um entretenimento que educa.”
 
 
REFERÊNCIAS:
 
BATISTA, Donizete A. HQs – UM LETRAMENTO NECESSÁRIO. In Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, 2as, 2013, São Paulo. Anais eletrônicos. Disponível em: http://www2.eca.usp.br/jornadas/anais/2asjornadas/Artigo_Donizete_Batista.htm. Acesso em: 04 out. 2021.
 
DA LUZ, Fábio. DETALHES da terceira edição da coleção A Saga do Batman | Panini Comics. Youtube. mai 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=0D9olk_MK3w. Acesso em: 7 out 2021.
 
ROBB, J., Brian A Identidade Secreta dos Super-Heróis. A história e as origens dos maiores sucessos das HQs: do Super-Homem aos Vingadores. Tradução André Gordirro. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Valentina, 2017. 304 p. 
 
SANT’ANNA, Mike. 10 Coisas que você talvez não sabia sobre o Robin! Legião dos Heróis. [s.d]. Lista. Disponível em: https://www.legiaodosherois.com.br/lista/10-coisas-que-voce-talvez-nao-sabia-sobre-o-robin.html#list-item-1. Acesso em: 7 out. 2021.

 
 
 
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