20/10/2021 às 18h08min - Atualizada em 20/10/2021 às 12h20min

O terror de Mike Flanagan

Conheça as séries de terror sobrenatural do cineasta em parceria com a Netflix

Ana Beatriz Magalhães - editado por Luhê Ramos
Mike Flanagan, cineasta e diretor americano. Fonte: Jessica Miglio / Cortesia da Warner Bros.
Não é fácil produzir uma boa série de terror. Diferente dos filmes, é mais desafiador manter o suspense, a tensão e o medo dos espectadores ao longo dos episódios. Quanto maior a duração da trama, mais difícil é inovar nos sustos, e, assim, maior são as possibilidades de tudo ficar chato e repetitivo.
 
Mesmo assim, a Netflix tem se arriscado e apostado no gênero, lançando alguns filmes e, principalemte, séries do gênero no decorrer dos anos. Porém nenhuma chamou muita atenção do público e nem causou alarde nas redes sociais. Isso até a contratação de Mike Flanagan.

Com “Hush: A Morte Ouve”, “Ouija 2” e “O Sono da Morte” no currículo, o diretor americano chama atenção ao combina vários elementos do terror com traumas familiares e questões religiosas. Então, a plataforma de streaming não perdeu tempo, e tratou de fazer logo um acordo com Flanagan e com Trevor Macy, seu parceiro na produção executiva dessas séries. O acordo prevê a criação de tramas exclusivas e originais.

A Maldição da Residência Hill e os verdadeiros fantasmas 

 A primeira minissérie de Mike Flanagan para a Netflix foi lançada em 2018 e continua sendo um grande sucesso. “A Maldição da Residência Hill” relaciona terror com drama familiar de uma maneira única, estabelecendo todas as relações de uma família com a antiga casa mal-assombrada onde viveram e passaram por experiências terríveis e sobrenaturias.
 
A narrativa de dez episódios conta a história da família Crain, formada por Olivia (Carla Gugino) e Hugh Crain (Henry Thomas) e seus cinco filhos: Steven, Shirley, Luke, Theo e Nell. Eles decidem se mudar para Residência Hill, a fim de restaurá-la e vendê-la por um bom preço. Tudo foi inspirado no livro de Shirley Jackson e Flanagan recoorreu a atores com quem já tinha trabalhado.

Ao longo da trama, é possível observar como a casa assombra a vida de cada um dos personagens, principalmente os mais novos, e como isso os persegue até a vida adulta, determinando e influenciando a trajetória de cada um, como em suas profissões, por exemplo.

 
Talvez seu sucesso esteja ligado a facilidade em manter uma atmosfera assustadora, em que cada episódio foca especificamente na história de um membro da família, começando pelos filhos em ordem decrescente, e depois os pais. 
 
Segundo Yngrid Alves, estudante de cinema, é quase impossível não gostar da obra. “Cada personagem é assombrado por um fantasma específico, então não há somente um demônio na série, aumentando a sensação de imprevisibilidade” relata ela. “Além disso, A Maldição da Residência Hill também utiliza um recurso narrativo diferente do que estamos acostumados a ver. Como as histórias dos irmãos e de todos os membros da família se cruzam, vemos o mesmo evento sob diferentes perspectivas e pontos de vista. Esse recurso prende a atenção e ficamos sempre em alerta" ela finaliza.
 

A Maldição da Residência Hill promete e cumpre ao aborda como medos e traumas infantis acompanham a trajetória de cada um se não forem devidamente tratados. Também relembra que a dor e a perda podem ser fantasmas muito reais e assombrar da maneira mais assustadora possível, ainda mais depois de um acontecimento trágico.

A Maldição de Bly Manor e a dor de um amor perdido

 A segunda obra de Mike Flanagan em parceria com a Netlfix tem algumas semelhanças com a primeira e chegou em 2020. Assim como “A Maldição da Residência Hill”, Bly Manor aborda uma casa compostas por fantasmas e os saltos temporais não são novidade, já que a série também é feita entre o passado e o presente.
 
A trama é baseada na obra de Henry James, “The Turn Of The Screw”, de 1898. A história acompanha Dani (Victoria Pedretti), uma jovem americana que é contratada para educar e tomar conta de Flora e Miles que ficaram órfãos recentemente. A moça se muda para a casa de campo da família – a Mansão Bly. No decorrer de seus longos episódios, são revelados segredos da família, dos funcionários e da própria casa.
 
 O principal da série é a incerteza, porque é possível prever que algo está errado, mas não dá para desvendar logo o que é. Assim, fica aquela sensação angustiante de que a qualquer momento algo pode acontecer. O terror se apresenta já na história em si e nas figuras e almas perdidas que vagueiam por Bly Manor.

Flanagan mais uma vez surpreende ao colocar em seu trabalho ensinamentos sobre o tempo: como momentos mudam o curso da vida e não voltam. Contudo, mais do que isso, o diretor e cineasta cria uma história de amor. Relatos sobre amores perdidos, esquecidos ou enlouquecidos são contados ao longo dos episódios e é ressaltado como é fácil e rápido perder um ente querido.

Midnight Mass e a obsessão religiosa

O mais recente projeto de terror sobrenatural e o mais pessoal, segundo o diretor, estreou mês passado. “Midnight Mass” é um trabalho autoral de Flanagan. Antes de seu lançamento, ele relatou que está há três anos sóbrio e, devido ao projeto, conseguiu enfrentar seus próprios fantasmas e demônios.

A nova minissérie mistura horror e religião, abordando o quanto pode ser perigoso o fanatismo religioso. É narrado a história de uma comunidade pesqueira católica que vive isolada em uma ilha próxima à costa com 127 habitantes. Nesse contexto, Riley Flynn (Zach Gilford) é obrigado a voltar a morar com a família nesse local, após se envolver em um acidente e ficar quatro anos na prisão. No mesmo dia chega o padre Paul Hill (Hamish Linklater) que rapidamente conquista as pessoas da cidade.


Então, eventos misteriosos começam a ocorrer e a comunidade passa a vê-los como milagres. Assim, é mostrado como pessoas cegas pela fé podem ser facilmente manipuladas e levadas à destruição.

Esses fenômenos estranhos e desconhecidos são utilizados como ferramenta para causar discórdia entre a comunidade. Em cada episódio, o conflito entre os moradores da ilha vai tomando proporções cada vez mais violentas e extremistas à medida que outros feitos aparecem.

De acordo com Yris da Silva, fã do gênero terror, “Midnight Mass” é bem diferente das outras suas obras, já que é uma análise da fé e das diferenças interpretações religiosas. “É uma grande reflexão de como falsos profetas tiram vantagem da fé cega para manipular fiéis fervorosos” relata ela, além de afirmar que, assim como na série, na vida real esses líderes religiosos se utilizam do medo alheio perante o desconhecido para controlar as pessoas.

Nessa terceira vez, Flanagan direciona a série para um caminho e consegue reforçar que o fanatismo religiosa, aliado ao preconceito e à intolerância, pode ser perigoso. Ele assusta o público ao trabalhar com o comportamento humano, mostrando como aqueles que se denominam “bons cristãos” podem ser perversos e intolerantes, a partir da palavra distorcida de Deus. 


Mike Flanagan, portanto, tornou-se um grande contador de histórias da atualidade e se efetivou como um dos realizadores mais interessantes do cenário do entretenimento. E ainda tem mais por vir: sua próxima série será baseada em um livro de Christopher Pike, publicado originalmente em 1994 e tem lançamento previsto para 2022.
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