25/10/2021 às 23h17min - Atualizada em 23/10/2021 às 16h59min

Funk não é cultura

“É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado’’. O trecho da música “Som de Preto” de Amilcka e Chocolate narra a contradição do cenário nacional

William Haxel - Revisado por Márcia Nascimento
Ilustração feita por Ana Cristina Campos. (Foto: Reprodução/Agência Brasil)
Atualmente o Funk é um dos gêneros musicais mais ouvidos no Brasil, entretanto, este cenário nem sempre foi visto como no atual momento. O ritmo musical que representa um dos maiores símbolos culturais de resistência das favelas e periferias de todo território nacional, vive uma constante evolução desde à chegada ao Brasil em 1970.
 
O funk teve seu nascimento nos Estados Unidos com a influência da
Black Music, mas com características distintas da produção atual. Influenciada e inspirada pelos gêneros: soul, jazz, rhythm and blues (R&B), o funk americano surgiu entre o final da década de 1950 e início da década de 1960, representado por grandes nomes como Miles Davis e James Brown, no centro do movimento negro do país, e desde então, continuou em evolução.
 
A Chegada ao Brasil

No Brasil, o funk começa a sua carreira em 1970 e ganhou destaque nos bailes da zona sul do Rio de Janeiro. Com as músicas de batidas e ritmos dançantes, conquistou o restante do país e passou a ser conhecida como "a música da periferia, produzida para a periferia".

Na década de 1980, o funk que fazia sucesso no Brasil ainda era muito influenciado pelas músicas estadunidense, com batidas aceleradas e letras erotizadas, exclusivamente em inglês. Sendo assim, no final da década de 80, ao incluir a bateria eletrônica ao ritmo, o produtor musical Fernando Luís Mattos da Matta, conhecido como DJ Malboro, lançou seu primeiro álbum Funk Brasil. Com isso, consolidou o funk nacional: passou a trazer novas letras – agora em português - relatando a realidade social das favelas.


Do Gênero aos Estigmas 

Sabendo que o funk passou a retratar a realidade das favelas, logo passou a ser visto como: "não cultural", "degradação da cultura brasileira", "só tem a ver com drogas e pornografia", "música de pessoas que não têm cultura". Mesmo com todas essas críticas, ainda é um dos gêneros mais escutados no país. Dito isto, vamos às reflexões: 

1) O tempo legitima as práticas culturais: assim como o jazz, o samba, a capoeira, o rap e o hip-hop um dia foram questionadas no passado sobre ser cultura ou não, o funk passa por esse mesmo estigma.

2) Letras erotizadas, contextualizando as drogas são consequências de problemas sociais, e não do gênero musical.

3) Descriminar o funk utilizando outros gêneros musicais é, no mínimo, errado, pois o funk tem outros propósitos, entre eles: dar visibilidade a um povo considerado subalternizado, questionar problemas políticos e sociais, informar relatos de suas próprias experiências.

4) Música é como uma linguagem. Conhecer uma linguagem não te dá a autoridade de criticar outras. Como exemplo: maestro não entende nada sobre funk, são contextos e expressões diferentes. Usar a cultura erudita como aspecto comparativo se chama etnocentrismo.

5) O funk tem seus estigmas, mas passa por um processo de "higienação" quando a indústria se apropria do gênero e solicita a alteração das letras para uma letra mais "limpa". Passa também por um processo de embranquecimento, uma vez que algumas produções não fazem sucesso quando são tocadas por pretos/negros não tem seu devido reconhecimento, mas quando um cantor não-preto/negro regrava, a música faz sucesso.
 
O Funk como processo de Socialização

Tendo em vista que o funk se responsabiliza em apontar problemas sociais e políticos em suas letras, muitos jovens se identificam com as letras e sonham em ser grandes produtores e cantores do gênero. Dito isso,
o doutor em Educação pela USP, pós-doutor em Ciências Sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Juarez Dayrell, escreve em seu artigo "O rap e o funk na socialização da juventude":

"Esse processo não está presente apenas entre os jovens de classe média. Nas periferias constatamos uma efervescência cultural protagonizada por parcelas dos setores juvenis. Ao contrário da imagem socialmente criada a respeito dos jovens pobres, quase sempre associada à violência e à marginalidade, eles também se posicionam como produtores culturais. Entre eles, a música é o produto cultural mais consumido e em torno dela criam seus grupos musicais de estilos diversos, dentre eles o rap e o funk. Nesses grupos estabelecem trocas, experimentam, divertem-se, produzem, sonham, enfim, vivem determinado modo de ser jovem".

Afinal, o que é Cultura?

O conceito de cultura é muito abrangente e varia de antropólogo para antropólogo. Pensando nisso, destaca-se o conceito de cultura atribuído pelo mestre em Gerontologia e doutor em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela PUC-SP, Rodney William

"Cultura é o modo de vida de um povo e se manifesta em suas formas de agir e em tudo que produz. É dinâmica, continua e se modifica constantemente em razão, inclusive dos contatos com outros grupos ou por conta das suas próprias reinvenções ou ressignificações".


Vamos lembrar que em 2017, o funk sofreu uma tentativa de criminalização em prol da Saúde Pública
 

Criminalização do Funk como crime de saúde pública | Parecer da CDH. (Reprodução: TV Senado/YouTube)

Entretanto, trazendo os aspectos estudados pelos cientistas sociais ao definir o conceito de cultura, a tentativa de criminalizar o funk passa a ser crime, uma vez que contrapõe ao Artigo 215 da Constituição Federal de 1988.

Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

§ 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.

§ 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.

§ 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à: (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)

I defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)

II produção, promoção e difusão de bens culturais; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)

III formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)

IV democratização do acesso aos bens de cultura; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)

V valorização da diversidade étnica e regional. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005)


Por fim, embora o funk sofra tanto preconceito por ser um ritmo da periferia com letras que falam sobre sexualidade, sensualidade e drogas, ele também é caracterizado como um movimento social que, não só retrata a vida nas favelas, mas também dá voz a quem é constantemente silenciado e oportunidade aos excluídos. Por se tratar de um gênero musical acessível, de fácil concepção e conter uma forte mensagem, o gênero musical tem aberto portas e tirado muitos jovens do mundo do crime, dando oportunidade para uma ascensão social e artística.

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