25/06/2019 às 22h20min - Atualizada em 25/06/2019 às 22h20min

SÉRIE: Futebol feminino não é só na Copa

O que só uma jogadora sabe

Letícia Agata Nogueira
Nathalia no CEPEUSP 2007 (Foto: Nathalia Ribeiro)
Considerado o país do futebol, o Brasil tem visibilidade nesse quesito mundo afora. Basta sairmos do país ou conhecermos estrangeiros que ouviremos elogios sobre nossa eficácia nesse esporte, o qual faz parte da cultura brasileira. Pelé, Neymar, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Philippe Coutinho, Garrincha, Zico...mas cadê as mulheres?
 
O primeiro jogo feminino ocorreu em solo brasileiro em 1921, entre catarinenses e tremembenses e o primeiro time composto por mulheres foi o Araguari Atlético Clube, que surgiu em 1958 em Minas Gerais. A realidade é que o Brasil continua sendo machista em alguns assuntos e no futebol não é diferente. Segundo o site Futebol no Brasil, o futebol feminino já foi exibido em circos antigamente como uma atração curiosa. 
 
A visão mais tradicional que o mundo apresenta diante do papel feminino é que as mulheres têm a obrigação de apenas cuidar do lar, fazendo do homem o herói da vez. Portanto, muitas mulheres, ao escolherem a carreira de jogadora, enfrentam preconceito e sofrem com a falta de incentivo. 
 
Entre 1941 e 1975 a prática exercida pelas mulheres foi proibida no Brasil em decreto:
 
DECRETO-LEI N. 3.199 - DE 14 DE ABRIL DE 1941
CAPÍTULO IX: DISPOSIÇÕES GERAIS E TRANSITÓRIAS

Art. 54. Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.
 
O Conselho Nacional de Desportos (CND) proibiu o futebol feminino em 1964. A iniciativa acabou sendo anulada em 1981, porém impedia a profissionalização das mulheres. 
 
A maioria das jogadoras não são registradas em federação esportiva ou na Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Vale ressaltar que o histórico no país apresenta salário inferior ao dos jogadores masculinos, desinteresse de marcas em patrocínio, falta de estrutura de equipes de base, sem contar a escassez de profissionalização. 
 
Apesar dos pontos negativos, muitas garotas e mulheres não se abatem e entram em campo. Esse é o caso de Nathalia Correia Ribeiro, de 33 anos. Atualmente Nathalia é team leader Sênior, porem sua história com o futebol começou desde cedo.

                                   
Nathalia Ribeiro, campeã da Copa Mulher 2011, pelo Centro Olímpico. (Foto: Nathalia Ribeiro)
 
A jovem costumava jogar com meninos e aos 14 anos ingressou no futsal. Três anos depois, Nathalia fez parte do time de futebol de campo da cidade de Osasco, São Paulo, e logo se profissionalizou. A jogadora passou pelos clubes Centro Olímpico, Santos, Corinthians, Portuguesa e Rodez Aveyron, na França.

                     
Centro Olímpico 2011, vice campeão paulista. (Foto: Nathalia Ribeiro)



Jornal francês em 2012 relatando a contratação de Nathalia ao Clube Rodez Aveyron. (Foto: Nathalia Ribeiro)



Campeonato Paulista 2010 - Portuguesa X Santos. (Foto: Nathalia Ribeiro)
 
Ao todo, Nathalia jogou profissionalmente por 5 anos, sendo motivada desde pequena no mundo dos esportes e tendo o futebol como sua grande paixão: "Sempre fui muito competitiva e sempre assistia os jogos pela TV. Sempre pensava que queria fazer aquilo", conta.

Ao longo de sua carreira, a jogadora já ganhou medalhas no futsal e futebol de campo, sendo apoiada por sua família desde sempre em todas as suas escolhas. Como toda jogadora, Nathalia também passou pelas dificuldades que o preconceito proporcionou, mas conseguiu dar a volta por cima:
 
"Infelizmente existe muito preconceito com o futebol feminino, mas isso não foi algo difícil de lidar. A maior dificuldade foi em relação à profissionalização do esporte, pois naquela época ainda era considerado um esporte amador e poucos clubes remuneravam as atletas, tendo muitas delas que trabalhar paralelamente para conseguir realizar esse sonho", diz Nathalia.

Santos X Nacional Amistoso 2009. (Foto: Nathalia Ribeiro)


Vice campeà paulista amador 2007. (Foto: Nathalia Ribeiro)
 
Apesar do apoio familiar, a jogadora não teve o incentivo fora de casa como gostaria e isso a fez largar o futebol:
 
"Joguei em clubes que prometeram um salário e quando começava o campeonato, onde a atleta já estava inscrita e não podia mais ser transferida para outro clube, simplesmente não pagavam. Como era um acordo de gaveta, você ficava refém ou jogava assim mesmo, acreditando que um dia as coisas melhorariam e aquela seria uma oportunidade de mostrar o seu trabalho, ou ficava sem clube."
 
Para a jovem, o futebol feminino no Brasil está longe do esperado, mas em sua opinião, jogadoras como Cissi, Roseli e Formiga enfrentaram maior dificuldade, por terem começado a carreira mais cedo. Apesar da pouca visibilidade que o mundo dá ao futebol feminino, a entrevistada acredita que houve mudança:
 
"Vivemos em um País machista e isso é evidente nas redes sociais. A Marta, nessa Copa do Mundo, levantou uma bandeira sobre a igualdade no futebol e foi massacrada nas redes sociais. As pessoas pensam que o discurso dela é para ter um salário igual ao Cristiano Ronaldo, Neymar, Messi, mas mal sabem eles que as nossas melhores jogadoras, reconhecidas mundialmente, têm salários menores que jogadores da série C do masculino. E isso ocorre em outros esportes também, como vôlei, basquete etc.."
 
A luta de Marta tem representado o suor de jogadoras pelo país e mundo inteiro, as quais exigem igualdade de gênero em sua carreira. Essa é a maior demonstração de consideração ao esforço das mulheres que amam tanto o futebol quanto os jogadores masculinos, pois o esporte transmite grande importância para todos os gêneros. Nathalia acredita que esse a modalidade representa o empoderamento das mulheres, mostrando que todas podem fazer o que quiser e que seu lugar é onde elas quiserem.

                     
Libertadores 2011 pelo Santos F.C. (Foto: Nathalia RIbeiro)
 
Dicas são sempre bem-vindas, principalmente quando vêm de alguém experiente. Nossa entrevistada aconselha às garotas que desejam se engajar na carreira a persistirem e acreditarem em seu sonho, pois apesar do cenário permanecer machista, mudanças estão acontecendo e acontecerão. Além do mais, nenhum preconceito ou obstáculo é maior que a recompensa que está à espera de quem sonha com o gramado.



Editado por Bruna Santos 
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