04/04/2022 às 16h56min - Atualizada em 04/04/2022 às 16h23min

Made in Gueto: a moda sustentável e criativa do brechó Flor do Gueto

Iniciativa ressignifica o estilo periférico e reforça a beleza das quebradas de Parelheiros (SP)

Gustavo Oliveira - Revisado por Flavia Sousa
Sabrina Rodrigues para o brechó Flor do Gueto. (Foto: Reprodução)
Com um nome inspirado na música de Mano Brown, o Flor do Gueto carrega a beleza e a identidade do que é a moda partindo da vivência preta e periférica de Sabrina Rodrigues, 25 anos, fundadora do brechó e moradora de Parelheiros, periferia do extremo sul da capital paulista. O Flor do Gueto traz consigo a ideia de ressignificar o que já existe, dando outra cara para a moda, de forma criativa e autêntica, nas favelas e a partir delas.
 
A criadora do Flor do Gueto é responsável por todas as fases da curadoria das roupas, desde o garimpo das peças, passando pelo tratamento e pelos reparos de costura, até a etapa das fotografias e das postagens na rede social da loja. Além disso, exerce o cargo de assistente de estilo em outra empresa. Dessa forma, todo o processo se torna ainda mais desgastante, uma vez que é feito de modo totalmente independente. “Nada cai do céu para quem empreende na quebrada”, diz Sabrina, relatando que não há apoio financeiro vindo de fora, sendo o lucro do brechó sua única fonte de renda.


Desde o início, a história dos brechós no Brasil está relacionada ao dinheiro, ou melhor, à falta dele. Nas periferias, o consumo em brechós transpassava as ideias de sustentabilidade ou consumo consciente. Na verdade, o baixo valor aquisitivo fazia dos brechós uma das poucas ou a única opção de local para comprar roupas.
 
A necessidade financeira também foi coadjuvante na história do Flor do Gueto. O que hoje se parece com a construção da realização de um sonho e uma oportunidade de trabalhar com moda, um dia foi impulsionado pela necessidade de ter dinheiro para pagar as contas do mês. Em 2018, o único intuito com a venda de roupas usadas era o de arcar com os custos do último semestre da faculdade de radiologia, “até porque eu não tinha a menor ideia de como esse rolê de brechó funcionava”, relatou a criadora do projeto. Apenas no ano seguinte, a iniciativa passou a ser vista como uma possibilidade de negócio.

Uma estética representativa
 
O conceito estético do Flor do Gueto nem sempre foi aceito, chegando a ser motivo de chacota na vizinhança por apresentar elementos comuns entre as periferias. As paredes sem reboco e muros pichados eram os cenários das fotos. Sabrina cita o projeto Expensive $hit das rappers Tasha & Tracie, como referência nessa questão. O blog, conhecido por abordar as pautas da cultura negra, do rap e da moda no Brasil, com foco na autoestima da população periférica, serviu de motivação para a assistente de estilo por carregar o mesmo conceito estético do brechó. “A estética nasceu da falta de acessos. Sem grana para comprar iluminação, fundo infinito e uma câmera boa, veio a ideia de fazer acontecer com o que eu tinha à disposição: sol na cara, o quintal, a rua de casa e o portão dos meus vizinhos”, completa Sabrina. Dessa forma, o Flor do Gueto construiu sua própria estética não só ressignificando as peças de roupas publicadas, que vão de peças de alfaiataria ao streetwear, mas reforçando também a beleza de sua quebrada.

O conceito estético do brechó Flor do Gueto se baseia na moda dos anos 80 nas periferias. (Reprodução: Instagram Reels. Montagem: Gustavo Oliveira)

O brechó Flor do Gueto é, hoje, exemplo de moda independente, sustentável e criativa na periferia. É, também, dispositivo de contemplação da vivência nas quebradas.  O trabalho de Sabrina prova diariamente que é possível promover autoestima, moda e estilo, acompanhando a realidade econômica do público que a consome. Para Sabrina, “não existirá futuro na moda se não pararmos para repensar nossa forma de consumo”, então, para além de toda representatividade, a ideia da conscientização acerca do consumo sustentável existe e é intrínseca quando se trata dos brechós de quebrada.

Ponto de partida para o ingresso de Sabrina no mundo da moda, o brechó permitiu que a fundadora pudesse reafirmar seus ideais e onde quer chegar com a moda. “Achava que moda não fosse para alguém como eu, preta, pobre e favelada. Mas o brechó mudou a minha vida”, afirma.

O Flor do Gueto tem passado por algumas transformações e Sabrina planeja focar nos conceitos do upcycling futuramente, transformando restos de tecidos em roupas novas, peças únicas para acervo de produção de moda, podendo se tornar, de fato, uma marca nos próximos anos.

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