05/04/2022 às 00h26min - Atualizada em 05/04/2022 às 23h18min

Parque Mãe Bonifácia: homenagem a mulher que virou lenda cuiabana.

Mulher negra alforriada, abrigava e acolhia negros que fugiam da escravidão em Cuiabá

Mariana da Silva - editado por David Cardoso
Estátua de Mãe Bonifácia no Parque que leva seu nome. (Foto: Reprodução)
O pouco que se sabe sobre a história de Mãe Bonifácia é contado por meio da oralidade através das gerações. Sua vida é também narrada no livro Mulheres de Mato Grosso, escrito por Bruna Myrtes Baldo, que visa contar e dar visibilidade a biografia de mulheres que fizeram parte da história de Cuiabá e de Mato Grosso. Apesar de curta, a passagem de Mãe Bonifácia pela obra não poderia ficar de fora vista sua importância para a capital.
 
Historicamente a colonização de Cuiabá foi marcada pela extração de ouro e metais preciosos, cuja mão de obra era de escravos negros, portanto seria praticamente impossível que uma pessoa negra fosse liberta na época. No entanto, é dito que pela idade avançada e por assim não poder mais ser útil aos trabalhos forçados, Mãe Bonifácia foi libertada do cativeiro. Na época, mulheres eram minoria escravizada, porém as que mais recebiam alforria.
 
Dessa forma, por conhecer a realidade do que enfrentavam os negros escravizados, Bonifácia acolhia e refugiava aqueles que fugiam da escravidão. Guiados por ela através do córrego que leva seu nome, despistavam os capitães do mato e o faro dos cães, onde então levava aqueles que ajudava para o abrigo no quilombo, nome inclusive dado à localidade próxima onde o parque hoje está situado.
 
Morou na saída para a Estrada da Guia, em um barracão em frente ao atual 44º Batalhão de Infantaria Motorizada onde passava o córrego. Curandeira conhecedora das ervas e plantas medicinais, tratava as enfermidades daqueles que a procuravam. Existem histórias que relatam que Bonifácia sentia fortes dores no coração, que só eram amenizadas quando acolhia os necessitados.
 
Real ou lenda, o monumento existe e resiste
 
Há quem duvide de sua existência pela falta de documentos oficiais e acredite se tratar apenas de uma lenda. Quando se trata de figuras populares na história, certo descrédito é dado por não se encontrar registros oficiais, diferentemente de pessoas cujo sobrenome e funções políticas e históricas são reportadas, em grande parte pela condição ou cargo que ocuparam. Entretanto, a história de Mãe Bonifácia persistiu e resistiu através da oralidade por meio daqueles que afirmam que descendem dos que foram ajudados por ela e a conheceram.
 
Lenda ou não, a figura de Mãe Bonifácia foi tão marcante na capital, de modo que o nome do parque que leva seu nome foi dedicado a ela, carregando um forte simbolismo da libertação daqueles que resistiram e fugiram da escravidão naquela localidade.

 
Símbolo de preservação em meio ao cenário urbano de prédios e construções da capital, o parque inaugurado em dezembro de 2000, possui 77 hectares de cerrado, vegetação típica que constitui a maior parte do bioma em Mato Grosso. A presença de animais nas trilhas como saguis, cotias, aves e outros animais é constante e sinal da preservação do habitat natural naquela localidade. Um refúgio verde com significado histórico que relembra quem passa pelo lugar da conexão com a natureza que foi refúgio daqueles que fugiam da dor e do sofrimento.
 
Já a estátua no parque é possivelmente a única forma visual de um retrato de Mãe Bonifácia, que acolhia quase como filhos aqueles que refugiava e iam à sua procura. No monumento em sua homenagem, ela aparece em pé com um cajado possivelmente para representar o auxílio à locomoção devido a idade avançada, e aos seus pés o homem caído exausto pela fuga na mata olhando em sua direção com o braço segurando a mão de Bonifácia que toca sua cabeça como sinal de benção.


A preservação de monumentos como este é uma forma de reviver a memória de importantes figuras populares como Mãe Bonifácia, que representa a história não registrada de Cuiabá onde grupos sociais como negros e escravos da época não teriam espaço para serem lembrados. Enquanto monumentos, estátuas, nomes de ruas, praças, e outras formas arquitetônicas remetem sempre a figuras históricas e políticas, em sua maioria homens brancos de famílias poderosas do perído colonial, uma escultura em memória a vida de Mãe Bonifácia contempla o outro lado não contado dos oprimidos e perseguidos até sua libertação.
 

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