19/04/2022 às 01h12min - Atualizada em 18/04/2022 às 01h17min

Escrevendo com Fogo: o retrato do jornalismo independente feito por mulheres na Índia

"Fizemos do nosso jornalismo a voz da democracia. Não deixamos o quarto pilar ruir e continuamos sendo um espelho de nossa sociedade", declara a diretora do jornal indiano e uma das protagonistas do documentário, que foi indicado ao Oscar 2022

Lívia Nogueira - Revisado por Isabelle Andrade
"Escrevendo com Fogo" ou "Writing with Fire" retrata o jornalismo independente feito por mulheres na Índia (Foto: Reprodução/ Filmelier).

Articulando-se nos entrelaços entre jornalismo, poder, misoginia, evolução e educação, o documentário Escrevendo com Fogo, produzido por Rintu Thomas e Sushmit Ghosh, é a representação fiel do exercício jornalístico independente feito por mulheres em uma das nações mais tradicionalistas do mundo, a Índia. Originalmente intitulado de “Writing with Fire”, a obra retrata o funcionamento do jornal Khabar Lahariya ou “Ondas de Notícias”, criado em 2002, que, além de sua estrutura subversiva, retrata temas polêmicos do cenário indiano.

A abertura do produto contextualiza a construção social do país sul-asiático, que estrutura-se em quatro camadas, denominadas castas, que são: sacerdotes, guerreiros, comerciantes e servos. Abaixo disso, estão os dalits - os “intocáveis” e “impuros” -, que estão aquém de qualquer tratamento minimamente adequado em sociedade e que trata-se da categoria a qual pertencem as mulheres do Khabar. 

Ao longo do documentário, essas classificações demonstram-se influentes em todas as circunstâncias narradas e essa divisão caracteriza um dos principais fatores de oposição do veículo jornalístico por questões individuais e coletivas. “Eu digo às minhas filhas que a identidade de casta delas sempre as perseguirá. Nossa sociedade é estruturada assim, mas é importante continuar desafiando o sistema”, relata Meera Devi, diretora do jornal e uma das personagens principais do documentário.


Escrevendo com Fogo | Teaser Trailer Oficial. (Reprodução: Filmelier - Youtube)

A luta por visibilidade e por mínimas condições de sobrevivência aos Dalits é pauta urgente para as jornalistas e representa o espelho de muitas outras construções sociais, que determinam-se por relações de hierarquização extrema e dissimulação de problemáticas que assolam comunidades inteiras. Algumas dessas crises abordadas no documentário são insuficiência - ou completa falta - de saneamento básico, negligências de segurança e intensas explorações de trabalho.

Outro ponto característico presente em toda a narrativa é a posição feminina nos espaços, tanto de trabalho, quando se trata da formação do jornal; quanto sociais, no referente aos aspectos de sobrevivência e vivência das mulheres indianas. As figuras femininas, principalmente, dalits são alvos de situações bárbares e tratamentos segregacionistas. Isso corresponde a uma crítica a situações de diversas mulheres de camadas socioeconômicas mais baixas em todo o mundo.

Nesse sentido, o jornal, que faz cobertura para o veículo impresso de tiragem semanal e para as redes digitais, com foco no Youtube, retrata diversos casos de estupro sofridos por mulheres dessa classe e negligenciados pelos órgãos de segurança pública. Em alguns desses episódios, as consequências são fatais. As jornalistas, para além de registradoras e manifestantes desses casos, sofrem ao compreender as suas semelhanças com essas vítimas. Para além de jornalismo de informação e reivindicação, é um trabalho de rogar por esperança para si e as companheiras. 

Paralelo aos desafios profissionais, as experiências pessoais dessas mulheres são abordadas no produto. Essa dupla retratação comprova o problema do acúmulo de tarefas sofrido por essas jornalistas, que são responsáveis por conduzir um veículo sem apoio público e até familiar, e por sustentar as atividades domésticas e as relações interpessoais. Em mais um ponto o documentário demonstra-se relevante socialmente por retratar as cargas comumente suportadas por mulheres, para além de sociedades baseada em preceitos arcaicos.

O produto, apesar de discorrer devidamente sobre diversos temas e situações importantes, deixa algumas lacunas significativas: qual a fonte de financiamento do Khabar Lahariya? Esse subsídio advém apenas das publicações em redes digitais? Essa questão seria essencial para compreender o funcionamento desse veículo entre seus obstáculos. Além disso, o documentário soa programado em cenas de indagação de jornalistas a autoridades de segurança, já que aparentam ser sempre dialogais e pacíficas.

Em 2021, até o lançamento do documentário, o grupo já era composto por 24 mulheres em Uttar Pradesh, no Norte da Índia. Hodiernamente, o canal oficial do jornal no Youtube possui mais de 500 mil inscritos e tem vídeos com milhões de visualizações. Isso é explicado também por transformações adotadas internamente por meio de formações sobre ferramentas digitais e de utilização de novos mecanismos tecnológicos em toda a produção. As gestoras do veículo compreendiam a importância de adaptar-se à Era Digital para alcançar maior agilidade, rentabilidade e alcance. Isso evidencia as novas práticas jornalísticas que estão sendo adotadas em todo o mundo.

Escrevendo com Fogo, foi um dos indicados ao Oscar 2022 e está disponível apenas para compra ou aluguel em algumas plataformas de streaming, como Youtube, IOS TV e Amazon Prime. O produto é relevante para o consumo, principalmente, de jornalistas, mas é interessante em geral para a compreensão sobre as construções sociais de uma grande nação oriental.


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