22/04/2022 às 20h29min - Atualizada em 22/04/2022 às 19h54min

Lima Barreto: 100 anos de uma história de polêmica e superação

O legado de um dos principais escritores do pré-modernismo

Robeson Dantas - Revisado por Flavia Sousa
Fonte/ Reprodução: Google. Lima Barreto trouxe ao pré-modernismo importantes narrativas críticas.

Jornalista polêmico, com presença significativa em diversos órgãos de informação, autor de crônicas, contos e romances conhecidos mundialmente, Afonso Henriques de Lima Barreto, ou apenas Lima Barreto é um dos mais destacados e consagrados escritores brasileiros das primeiras décadas do século XX. Lima Barreto é considerado por muitos críticos literários um dos fundadores da literatura negra ou afro-brasileira e, em 2022 celebramos os 100 de sua partida, que deixa um legado de superação, polêmica e muita literatura.



 


 

A infância

O escritor nasceu em 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro, filho dos afrodescendentes João Henriques de Lima Barreto e Amália Augusta Barreto. Lima Barreto tinha como avó Geraldina Leocádia da Conceição, escrava liberta cuja mãe nascera na África, tendo sido traficada para o Brasil em um navio negreiro. O traço dessa bisavó africana, parece predominar no imaginário do escritor, que resgata marcas em toda sua trajetória literária, como cita o biógrafo Francisco de Assis Barbosa:

"Era da África, de nação Moçambique [...] viera ainda rapariguinha para aqui, onde tivera para seu primeiro senhor os Carvalho de São Gonçalo; conhecera D. João VI, e, sobre ele, desconexamente, contava uma ou outra coisa avaramente guardada naquela estragada memória." (BARBOSA, 1952, p. 22).

 
Teve uma infância simples, viveu uma casa sem muitas posses e se acostumou com o básico. Seu pai era operário gráfico e trabalhou por muitos anos em órgãos importantes da época, como por exemplo o Jornal do Comércio e A Reforma. Sua mãe foi professora em uma escola fundada pelo marido, se afastando do magistério por questões de saúde, o que a levou à morte vítima de tuberculose. Amália, além de mãe foi também a primeira professora de Lima Barreto, sua morte trouxe um temperamento introspectivo ao escritor, que na época tinha sete anos.
 


 


 

Talvez fosse menos rebelde, menos sombrio e desconfiado, mais contente com a vida, se ela vivesse. Deixando-me ainda na primeira infância, bem cedo firmou-se o meu caráter; mas em contrapeso, bem cedo me vieram o desgosto de viver, o retraimento por desconfiar de todos, a capacidade de ruminar mágoas sem comunicá-las a ninguém”. (BARBOSA, 1952, p. 44).
 
As condições precárias da família Barreto se amplificaram com a morte da mãe e com a doença mental do pai, para manter-se nos estudos na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, Lima Barreto contou com ajuda de seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto.
 


 


 

Alguns anos depois, Lima Barreto precisou largar a escola Politécnica do Rio de Janeiro para trabalhar e trazer sustendo à sua família, e desde jovem sonhava em ser escritor literário, mas enxergava barreiras para a concretização.
 
É triste não ser branco” escreveu Lima Barreto em seu Diário íntimo, resumindo numa confidência amarga todas as limitações que sofria. Mais que um complexo, a cor era uma barreira para a sua vocação de escritor. Tinha que transpô-la, mesmo que não conseguisse vencer o complexo. (BARBOSA, 1952, p. 144).
 
O dualismo entre a ascensão e a queda
 
A família Barreto se muda para o subúrbio do Rio de Janeiro e lá em uma nova escola, Lima Barreto inicia participação na imprensa estudantil, e com pouco tempo ingressa à Secretaria da Guerra, por meio de concurso público. Mesmo com o baixo salário que recebia como funcionário público, Barreto começa a focar na Literatura. O autor escreveu inicialmente, a primeira versão do livro Clara dos Anjos, e no ano seguinte, escreve Recordações do escrivão Isaías Caminha, simultaneamente inicia sua carreira como jornalista no Jornal Correio da manhã. Nesse período, pôde se dedicar leitura de clássicos da Literatura mundial, ganhando maturidade e experiência literária. Em 1911 escreve os consagrados Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá e Triste fim de Policarpo Quaresma.

Mesmo antes de sua ascensão como grande escritor, em 1915 surge o consumo de álcool, que acaba se tornando um vício, e logo um alcoolismo crônico, levando o autor a se internar em uma clínica psiquiátrica em 1917. Mesmo nesse período, o escritor continua colaborando com diversos jornais e escrevendo romances, tais como: “A Nova Califórnia”; O filho de Gabriela; “Um especialista”; “O homem que sabia javanês” (aclamado pela crítica da época, que via Lima Barreto como sucessor de Machado de Assis) e muitos outros.



 


 

Em 1917, o escritor se candidata a uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL) mas tem seu pedido negado, dois anos depois suspende a colaboração no semanário político A.B.C. por ter publicado um artigo com teor racista, algo que Barreto não só discordava, como também combatia veementemente. Dois anos depois, Lima Barreto tenta novamente posição na ABL, e mais uma vez não obteve êxito. Nesse período, ele escreve os primeiros capítulos de “Cemitério dos vivos” e também o seu “Diário Íntimo”.

Em 1920, Barreto é internado mais uma vez devido uma crise nervosa, e já bastante debilitado, se recolhe em uma simples casa do bairro de Todos os Santos, tendo que cuidar de sua própria saúde e lidar com a difícil convivência com o pai. Um ano depois, tenta a candidatura à ABL, mas retira a inscrição, pois estava sentindo crises de reumatismo. Em 1922, o Brasil se despede de Lima Barreto, vítima de colapso cardíaco no dia 1° de novembro. Alguns dias depois, veio à morte o seu pai. Ambos estão sepultados no cemitério São João Batista, onde o escritor desejava que fosse a sua última morada.

 

100 anos e um legado
 
Negado três vezes pela Academia Brasileira de Letras, e se despedindo dessa vida sem o devido reconhecimento, Lima Barreto deixa um legado como um dos principais nomes da literatura no pré-modernismo brasileiro, e hoje tem suas obras reconhecidas mundialmente. Sua principal e mais conhecida obra Triste Fim de Policarpo Quaresma, é reconhecida como a voz mais crítica da literatura produzida no Brasil no início do Século XX.

A obra de Lima Barreto consiste em um caráter crítico e social, tendo em suas narrativas um retrato das injustiças e as misérias da vida suburbana carioca.



 


 

O autor critica duramente a mediocridade burguesa indiferente e exploradora. Tomando o seu próprio exemplo de homem mestiço, descendente de escravos, Barreto leva à reflexão e narra o sofrimento daqueles que sofrem preconceito racial, da falta de valorização dos heróis da história e da vulnerabilidade social de quem vive à margem.
 
“Desde os dezoito anos, que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem… Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada… O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupi, do folclore, das suas tentativas agrícolas… Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!”
(Barreto, LIMA, “Triste fim de Policarpo Quaresma”. Brasiliense, 1956.)

 


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