27/09/2022 às 11h47min - Atualizada em 01/10/2022 às 19h19min

Estética: entenda as mudanças no conceito de beleza na arte e no corpo humano ao longo da história

Saiba o que as mudanças na sociedade interferem no que é considerado belo atualmente

Vitória Barbara - editado por Larissa Nunes
Estética no corpo e na arte. (Foto: Reprodução / FreePik)

Quem nunca escutou a frase “beleza é relativa”? Sim, no senso comum, podemos dizer que o conceito do belo vai variar de acordo com a visão que cada indivíduo tem sobre si e sobre o outro. É difícil definir o que é belo para além do que dita os dicionários: qualidade que atribuímos à beleza, ao que achamos esteticamente agradável perceber.

Engana-se aquele que acha que a discussão a respeito do que se é considerado bonito faz parte apenas da nossa geração. O culto ao belo faz parte da cultura de diferentes sociedades desde a antiguidade. Obviamente, com as transformações sociais ao longo dos anos, vários critérios da beleza sofreram algumas alterações.

Os primeiras registros da definição do que é belo vêm da Antiguidade clássica, mais especificamente da Grécia Antiga. Os filósofos da época acreditavam que a beleza era uma questão de proporção entre as partes do objeto, ou seja, as coisas simétricas tendiam a ser mais bonitas do que os assimétricos.

No entanto, o conceito da beleza passou por uma mudança filosófica com a entrada da Idade Moderna. A beleza começou a ser considerada uma questão de percepção, ou seja, um assunto subjetivo que pode ser compreendida de acordo com diferentes tradições culturais.

Transformações dos padrões de beleza no corpo humano

O mundo da moda e da estética são conhecidos por ditar o que deve ser considerado belo. Entretanto, a beleza é um conceito de construção histórica capaz de variar imensamente de uma cultura para outra e de uma época para outra, se aplicando a objetos, paisagens e sons, bem como a pessoas, espaços e animais.

Ao olharmos para a história, é possível verificar que a definição da beleza é mutável, subjetivo e depende do contexto histórico, social e cultural em que está inserido.

Na Grécia Antiga, o modelo de beleza ideal precisaria combinar harmonia e equilíbrio, sempre visando a proporção. Isso importava também para as artes e arquitetura. O culto ao corpo entre os jovens exigia que fossem fortes para serem soldados ou atletas. Os exercícios físicos também eram comuns entre as mulheres, que evitavam o bronzeado por não considerarem algo atrativo. Tais detalhes podem ser encontrados facilmente em esculturas da época.


Pintura a óleo 'O nascimento de Vênus' – Sandro Botticelli.

Pintura a óleo 'O nascimento de Vênus' – Sandro Botticelli.

(Foto: Reprodução / Pixabay)


Com forte influência religiosa, mais precisamente da cultura cristã e judaica, a Idade Média trouxe grandes mudanças de padrão de beleza em relação à Grécia Antiga. As representações do nudez são trocadas pelo recato, mudança essa, que atingiu principalmente as mulheres. O conceito de belo estava conectado ao divino, ao plano espiritual, às virtudes morais. Seguindo essa linha de raciocínio, as mulheres tidas como perfeitas possuíam as mesmas características físicas da Virgem Maria.

O corpo feminino era visto como tentador e por conta disso, as roupas se tornaram mais longas e buscavam esconder qualquer exposição do corpo. Inclusive, as imperfeições físicas eram consideradas castigos por pecados em vidas passadas.



É no renascimento que ressurge a volta da valorização do corpo feminino. Este é o período em que a sociedade deixa de lado os padrões religiosos e resgata os seus valores humanistas e artísticos. O modelo de beleza do Renascimento supunha mulheres mais cheinhas e com quadris largos, seios fartos e com cabelos longos.


Padrão de beleza do Renascimento.

Padrão de beleza do Renascimento.

(Foto: Reprodução / Blog É cada uma)


Já nos Anos 20, o padrão de beleza sai dos corpos mais acentuados e passa a exaltar o corpo feminino cilíndrico: cintura, seios e quadris deveriam ter medidas parecidas. Na década de 1920, a população feminina estava adentrando no mercado de trabalho e, por conta disso, as características físicas vigentes da época se assimilaram às dos homens. Nessa época, havia o visual da mulher emancipada, que saia de casa para trabalhar.
Começou-se a adotar o visual de cabelos curtos, também chamado como à la garçonne que era um dos mais utilizados.


Padrão de Beleza dos anos 20.

Padrão de Beleza dos anos 20.

(Foto: Reprodução / Cutedrop)


Com o avanço do cinema nos anos 1940, fez com que as celebridades de Hollywood se tornassem a principal referência nos padrões de beleza. Surgiu então o termo Femme fatale que criou a tendência da sensualidade nas telas do cinema. Foi a partir dessa década que a maquiagem entrou em destaque, com o uso de batons vermelhos e lábios sempre volumosos.

Com vestimentas justas, cinturas finas, quadris largos e seios fartos, algumas divas, como Marilyn Monroe e Rita Hayworth se tornaram ícones sensuais e por conta disso, acabaram estampando cartazes, propagandas e estrelaram nos maiores filmes da época.



Entre o fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, as supermodelos ganharam espaço e passaram a ditar os padrões de beleza. Altas, magras e com curvas sutis, apresentavam um visual saudável e sem exageros, as modelos da época tinham como ideal de beleza um corpo forte e esbelto, favorecendo uma visão poderosa.

Muitas modelos também investiram em procedimentos estéticos e cirurgias plásticas, como o implante de silicone, colocado nos corpos femininos para realçar ainda mais as suas qualidades físicas.


Padrão de beleza dos anos 90.

Padrão de beleza dos anos 90.

(Foto: Reprodução / VIX)


Atualmente, o padrão das supermodelos ganhou ainda mais forças e ultrapassou o limite do saudável ao levar para a passarela modelos exageradamente magras. Esse desejo do corpo “perfeito” fez com que alguns distúrbios alimentares, como a anorexia e bulimia, ganhassem mais popularidade e passou a chamar a atenção dos especialistas.

Além disso, surgiram as novas tecnologias que permitem a criação de programas, a exemplo do photoshop, que ajudam a criar imagens de corpos sem defeitos, longe de estrias, celulites e gorduras localizadas.

Houve também a criação do padrão de beleza fitness, em que os seus seguidores seguem dietas balanceadas, consumindo o mínimo possível de açúcar e gordura. O objetivo é melhorar a saúde e a qualidade de vida, além de manter um visual impecável.



Padrões de beleza na arte

A história considera a beleza como alvo final da arte: os artistas tentam encontrá-la ou pelo menos traduzi-la em algum aspecto para que possa ser contemplada por outros. Nesse sentido, a beleza é percebida como algo apreciável na realidade, ou seja, algo que o olhar do artista deseja captar do mundo.

A ideia de arte que possuímos hoje é resultado do que é considerado artístico. Pode ser um movimento complexo elaborado por um indivíduo, um objeto que realiza alguma ação etc.

Como tudo o que é artístico tem origem do pensamento e julgamento do ser humano, os padrões de beleza também entram na discussão. Seja um modelo para rosto, em que todos os componentes estejam simetricamente iguais, ou uma paisagem, o que agrada aos olhos é o que se identifica como "padrão", que seria diferente se fosse visto de outra perspectiva.

As obras apresentadas pelos artistas contribuem na formação do olhar dos apreciadores integrados na arte e na sociedade como indivíduo. Logo, a definição de beleza vai ser de acordo com o que o artista e o observador acreditam ser.

Nas pessoas comuns, a capacidade de perceber a beleza é tradicionalmente conhecida como “gosto” ou “bom gosto”, razão pela qual se costuma dizer que “a beleza está nos olhos de quem vê”. Na verdade, admirar o belo é considerado, ainda hoje, uma forma de prazer para quem observa, e não tanto para a obra que possui tal beleza.

Muitos artistas tentam desafiar o conceito de beleza e estética em suas obras, levantando questionamentos do que é belo e o porquê que isso é tão importante na arte.

Guernica – Pablo Picasso


Obra 'Guernica' (1973) - Pablo Picasso.

Obra 'Guernica' (1973) - Pablo Picasso.

(Foto: Reprodução / Wallpaper Cave)


O mural “Guernica” foi produzido por Pablo Picasso a pedido do Governo da Frente Popular da Espanha. Picasso decidiu, então, retratar o terror dos bombardeios à cidade de Guernica na Espanha, acontecimento que havia despertado a opinião pública mundial de forma negativa.

Nesta obra, o artista resolveu pintar o quadro com cores mais escuras e com formatos “estranhos”, fugindo das características que formavam o conceito de belo em uma obra, justamente para representar um período trágico da história humana e que expressa o horror desse momento específico.

“A FONTE” – Marcel Duchamp



Marcel Duchamp, também conhecido por ser um dos precursores da arte conceitual, apresentou como obra a escultura “Fountain”, que nada mais era, um mictório de porcelana. Através desta obra, o artista queria transmitir a mensagem de que qualquer artefato poderia ser considerado arte, pois o que importava, na realidade, era o conceito e as ideias por trás da obra, não a estética ou a representação física da arte.

Releitura da Obra Monalisa – Divulgada pelo Moba


Releitura da obra 'Monalisa'.

Releitura da obra 'Monalisa'.

(Foto: Reprodução / Acervo MOBA)


O Museum Of Bad Art (MOBA) ou, em tradução livre, Museu de Arte Ruim, fica localizado em Boston (EUA). Ao visitá-lo, é possível encontrar vários quadros que são considerados mal feitos e “feios” – do ponto de vista comum, claro, já que como vimos ao longo do texto, a beleza é algo relativo e pessoal. Um exemplo de uma peça considerada feia é o quadro acima que claramente mostra uma releitura de uma das obras mais importantes do mundo, a Monalisa.


Supper in Dresden – Georg Baselitz


Obra 'Supper in Dresden' – Georg Baselitz.

Obra 'Supper in Dresden' – Georg Baselitz.

(Foto: Reprodução / Arts and Culture)


O artista alemão Georg Baselitz pertence à geração de pintores que voltaram à pintura figurativa no final dos anos 1970 após décadas de pintura abstrata dominando a cena artística.

A obra, com mais de quatro metros de comprimento, é um exemplo de uma técnica que oscila entre figuração e robustas harmonias cromáticas de rosa, azul e preto. O olhar do espectador cai primeiro sobre a figura que domina o centro da pintura, seus olhos e boca abertas. O quadro é ótimo exemplo de obra que quebra os padrões de beleza exigidos para que uma peça seja de fato considerado bonito.

A partir deste artigo, notamos que não existe uma tipologia universal de beleza, assim como não existe um conceito estrito para compreendê-la. O que vai determinar que algo é belo ou não, é o próprio indivíduo que observa este algo.   

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