13/08/2019 às 23h28min - Atualizada em 13/08/2019 às 23h28min

Respeitável público, é hora de conhecer mais sobre a arte do circo

Atração que começou como treinamento de guerreiros na China já perdura há mais de 5 mil anos

Nathalia Teixeira
Palhaços, trapezistas, equilibristas, acrobatas e muitos outros elementos marcam o imaginário do circo. (Foto: Reprodução / Instagram)
Você ainda sente a magia do circo?

Tudo começa com a entrada na lona colorida, o picadeiro repleto de cadeiras, o cheirinho de pipoca e algodão doce no ar. Então, as cortinas se abrem e com elas, uma janela para deixar a imaginação passar.

Segundos depois, você se vê imerso pela leveza e precisão das bailarinas nas pontas dos pés, as cores e alegria dos palhaços brincalhões, os saltimbancos e suas piruetas espetaculares, os contorcionistas e a incrível arte de esticar sem perder a elegância. Trapezistas e equilibristas despertando a inveja de muitos atrapalhados, os acrobatas com seus tecidos, mágicos e ilusionistas colecionando suspiros de surpresa e motociclistas arrancando gritos de euforia da plateia vidrada num número arriscado.

Então, chega o fim do espetáculo e a emoção toma conta, os pensamentos vão a mil e há apenas uma certeza: você se renovou por dentro e a sensação de pureza invadiu o coração, tornando tudo mágico.



EM FAMÍLIA

Estima-se que há mais de 2000 circos pelo Brasil atualmente, de acordo com a Associação Brasileira de Circo (Foto: Reprodução / Internet)

O circo é um conjunto de apresentações que costumam atiçar o imaginário com efeitos e números que impressionam. A tradicional atração passou por mudanças e adaptações e o que começou como treinamento de guerreiros na China, já perdura há mais de 5 mil anos. No Brasil, teve início no fim do século XIX pela família Wassilnovich, que mais tarde veio a se transformar em Silva, isso mesmo, boa parte do Brasil pode ter sangue circense!

Neste século, a família Stevanovich tem destaque por compor um circo que mistura o tradicional com o moderno. Originário da França e já na sexta geração, atualmente o Le cirque Amar encontra-se em turnê pelo Brasil com artistas de diferentes países, é considerado um dos 4 melhores circos atuantes e usa a tecnologia em suas apresentações através de luzes, danças e apresentações surpreendentes.

Além disso, abrange uma estrutura para 2.500 espectadores, 23 atrações, 38 carretas e 250 toneladas de equipamentos, utilizando aviões e a televisão como meios de divulgação nas cidades, estratégias que são bem aceitas, visto que a maioria das apresentações tem público máximo atingido.

Moroco Stevanovich dá vida ao Palhaço Moroco que, juntamente com o palhaço Matraca, divertem a plateia levando-as para o palco. Na vida real, Moroco é casado com Paloma Caetano, também artista circense, e juntos tem a pequena Ysis, que já viaja com todos eles.

Em entrevista, o palhaço falou que sua rotina não é diferente das outras pessoas e as peculiaridades são poucas, uma delas é transportar as pessoas para outro tempo. Mas, convenhamos, não é algo que acontece em muitas profissões. "Acho que minha rotina é normal com a diferença de trabalharmos à noite e de meses em meses podemos conhecer lugares diferentes (...) Pra mim, saber que meu trabalho ajuda muitas pessoas é maravilhoso. Saber que naquelas duas horas (de espetáculo) muitos adultos voltam a ser crianças e esquecem os problemas é gratificante", responde moroco com muito orgulho.


Palhaços Moroco e Matraca. Pai e Filho no Le Cirque Amar.

Palhaços Moroco e Matraca. Pai e Filho no Le Cirque Amar.

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Palhaços Moroco e Matraca, pai e filho, animam o Le Cirque Amar. (Foto: Divulgação / Internet).

Muitos questionamentos são feitos quanto ao estilo de vida circense, principalmente quanto à crianças. Em 2012, uma lei entrou em vigor para que todas as escolas públicas do Brasil possam acolher crianças de circo a qualquer momento. Bryan Stevanovich revelou a um jornal pernambucano como funcionam os horários: "Temos 16 crianças com a gente. Na parte da manhã, elas vão ao colégio. Na parte da tarde, estudam as técnicas do circo, acompanhados por um trio de professores russos".

Em relação à acomodações, trailers elegantes e super equipados dão todo o conforto aos artistas da casa, enquanto os artistas contratados costumam se hospedar em grandes hotéis da cidade. Esta estratégia é utilizada geralmente pelos atuais grandes circos para dar uma melhor acomodação e privacidade aos artistas

RESISTÊNCIA

Estima-se que há mais de 2000 circos pelo Brasil atualmente, de acordo com a Associação Brasileira de Circo, que resistem em meio à evolução da tecnologia e desenvolvimento de novos formatos de diversão. Mas, ainda assim, os circos costumam se renovar e costumam lotar por onde passam.

"O circo sempre vai estar em alta, é uma arte desbravadora que atinge todas as camadas sociais com uma contribuição multicultural incalculável", afirma Wally Garrett, dono da Cia Garrett Circus, no ramo há 11 anos e representante de artistas independentes na Mesa Setorial, uma comissão formada para discutir e construir um plano para resolver questões da categoria. 

Quando questionado sobre a possibilidade de queda desse tipo de arte na cultura atual, Wally comentou que sempre haverá espaço para o circo. "Como um apaixonado por circo, não consigo ver dificuldades que encubram o prestígio e carinho do público, principalmente infantil", revelou. 

Wally na Cia Garrett Circus.

Wally na Cia Garrett Circus.

Wally, da Cia Garrett Circus destaca o carinho do público, principalmente o infantil. (Foto: Divulgação / Internet).


NÚMEROS

O circo Maximus foi um dos primeiros circos e alcançavam uma média de público de 150 mil pessoas em Roma. Hoje, o Circus de Soleil é um dos maiores e mais tecnológicos do mundo e alcança cerca de 2.500 pessoas com fila de espera e ingressos custando uma média de R$300,00.

Em contraste à grandiosidade, circos menores circulam pelos interiores do Brasil com ingressos a R$5,00 ou menos e capacidade para até 100 pessoas por espetáculo. Mesmo com lona furada, iluminação precária, cadeiras de plastico e poucos elementos para apresentações, os circos de pequeno porte são os que mais arrancam risadas do público que tem poucas opções de diversão e se realizam nesses circos que conseguem ir onde nem as autoridades conseguem. 

"Trabalhei por um tempo num circo pequeno do interior de Pernambuco, a maior dificuldade era achar patrocinadores pra melhorar os materiais de trabalho e conseguir a autorização das prefeituras, transportar as coisas também era muito trabalhoso, mas dava pra viajar e conhecer muitas pessoas, sem contar que o público de baixa renda é mais divertido e entrava mesmo no espetáculo sem medo de ser feliz e sem muitas exigências", contou o produtor de circos e parques, Nino Gama.

ANIMAIS

Recentemente, a conscientização com a sustentabilidade e a vida do planea resultaram na abolição de números circenses com animais selvagens, o maior motivo foi a falta de estrutura dos circos, que não utilizavam os métodos adequados para os animais que ficavam desnutridos e deformados.

Antes, as grandes atrações eram os diferentes animais sendo domados e realizando atividades que não condiziam com sua natureza. Por ferir a cadeia natural, os circos pararam de utilizar animais reais, e por isso não houveram mais registros de animais em circos nos últimos anos. 

Em entrevista para a rede BBC, o administrador do circo Stankowich, mais antigo do país ainda em funcionamento, mostrou que não foi fácil desapegar de tais tipos de apresentações. "Me dói ver o circo assim e sem os bichos, mas é isso, não tem outro jeito", disse Marlon Stankowich.

Muitas cidades criaram leis que impedem esse tipo de prática, e uma lei nacional está em votação. Enquanto não acontece, hologramas e fantasias tem lugar nas apresentações e substituem atos cruéis sofridos pelos animais na tentativa de serem domados. Para a felicidade de todos, o destaque dos circos agora são os incríveis números com a enorme capacidade do corpo e mente humana. 

"A questão é que o circo tem sempre uma caixinha de segredos e você fica na perspectiva de como será cada espetáculo, e nem precisa de animais para isso. Prefiro mesmo que os deixem na natureza, não me sentiria bem assistindo à um espetáculo sabendo que eles estão em péssimas condições e contradizendo o porquê de terem nascido.", opinou Janaina Santos, que revelou ser frequentadora assídua de circos que vão a sua cidade.

Adaptação de um circo alemão

Adaptação de um circo alemão

Com maior conscientização, em muitos circos os animais já estão sendo substituidos por 
hologramas e fantasias. (Foto: Divulgação / Internet). 

VOCÊ NO CIRCO

Quem nunca foi à um espetáculo e sonhou em um dia se equilibrar num trapézio, conseguir fazer uma acrobacia perfeita ou fazer parte de algum dos números circenses? 

Países como o Brasil são grandes fontes de conhecimento sobre a arte do picadeiro. As escolas de circo realizam todo o suporte para que mais pessoas aprendam a arte e a mantenham em vigor. Pablo Carlos é professor de acrobacias da Escola Pernambucana de Circo, uma ONG que atende jovens de 6 a16 anos. 

"Sempre fui encantado pelas acrobacias de solo, pelas acrobacias aéreas e sempre gostei muito de ir ao circo tradicional, quando tinha no meu bairro, hoje é muito raro ter um. Na minha casa tinha um balanço pendurado na árvore e quase tudo que eu via no circo e no número de trapézio queria reproduzir. Esse encanto vem de criança e a paixão aumenta ao passar dos dias. Hoje, sou professor de acrobacia aérea, então tudo o que eu via no circo e tentava fazer em casa, hoje eu faço e ensino as crianças e adolescentes a fazerem", confessou Pablo.

Hoje, há uma média de pelo menos 1 escola pública ou privada de circo em cada estado do Brasil. Dessas, a maioria dos alunos costumam terminar o curso e até atuar na área. Onde Pablo trabalha, as crianças não costumam faltar. "Sempre há uma oscilação no número de alunos, varia bastante ao decorrer do ano vigente. Mas, sempre temos turmas diárias, com uma boa quantidade de alunos, quase todos que estão matriculados, vão à aula frequentemente nos seus respectivos dias", relatou.

E então, de qual número circense você faria parte? 

Na verdade... você já faz parte.

O público de um circo absorve e reconhece a magia que os artistas transmitem com tanto amor e dedicação, entram na história e ajudam na evolução dessa arte tão bonita. Mas, antes de qualquer coisa, ser público de um circo faz perceber que mesmo com dificuldades, no espetáculo real que é a vida, ainda é possível rir, se emocionar, imaginar sem distinções de gênero, cor ou idade.

Por isso, quando as cortinas se fecharem e você sair do picadeiro, saiba que está levando consigo um verdadeiro tesouro: alegria. Até porque, o show tem que continuar!

Editado por Alinne Morais




 

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