06/02/2020 às 12h15min - Atualizada em 06/02/2020 às 12h15min

Intolerância e preconceitos contra as religiões de matrizes africanas

Rodrigo Siqueira - Editado por Letícia Agata
Foto do Site : iepha.mg.gov.br
As religiões de matrizes africanas são parte histórica de povos que foram tirados de suas terras e trazidos ao Brasil para serem escravizados, forçados a romperem com seus costumes e crenças vindas da África. Foi imposto ao negro a cultura e crença europeia, nas quais o catolicismo era a religião predominante e que deveria ser seguida.
O preconceito racial e religioso permaneceu e permanece em nossa sociedade, sendo uma herança maldita herdada por 300 anos de escravidão. A cultura do negro sempre foi mal vista e até mesmo marginalizada: movimentos culturais como samba, rap, hip-hop e capoeira eram vistos como coisa de marginal.
São diversas as religiões de origens africanas, porém no Brasil o Candomblé e Umbanda são as mais comuns. Ambas também são os maiores alvos de ataques intolerantes religiosos. Segundo o Disque 100, canal do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, cerca de 59% dos casos registrados são sobre tais religiões.

A origem do preconceito religioso

Os ataques são de origem racista, sendo que muitos julgam religiões de origem africana como satanistas, mesmo não conhecendo suas doutrinas. Essa demonização criada não passa de racismo que acompanha o povo negro há séculos. A cultura negra sempre foi banalizada em nosso país.
A Mãe de Santo, Makota KIdoiale (Cássia Cristina), diz já ter sofrido com o preconceito religioso algumas vezes. Ela pertence a uma comunidade Kilombola na zona leste de Belo Horizonte-MG, no bairro Santa Efigênia, chamado Kilombo Manzo Ngunzo. O quilombo é um território sagrado de Umbanda e Candomblé, certificado em 13 de março de 2007 pela Fundação Cultural Palmares, como remanescente de quilombo e oficialmente denominada Associação Religiosa e Cultural Manzo Ngunzo Kaiango​​.
O local atualmente é uma referência de matriz africana na cidade, porém já vivenciou casos de ataque e preconceito, quando foram forçados a deixar o local pela prefeitura, alegando que não tinham alvará, apesar de terem comprado o terreno.
Sofremos com o preconceito de líderes religiosos, do Estado, da sociedade em modo geral, que tem origem no racismo estruturado na sociedade desde que o negro foi escravizado. As pessoas nos julgam, associam nossa religião com satanismo, mas pregamos na verdade o amor", afirma Makota.
Os ataques de líderes religiosos, em sua grande maioria, são de origem evangélica, nos quais pastores pregam que Umbanda e Candomblé têm associação com o demônio.  Os mesmos realizam em seus cultos atos para expulsar entidades conhecidas como exus, incentivando pessoas a acreditarem que suas vidas mudarão.

Sincretismo religioso

Para preservarem sua fé e religiosidades vindas da África, os escravizados passaram a associar seus orixás com imagens de santos cristãos, nascendo então nas senzalas um sincretismo entre religiões africanas e o catolicismo, que posteriormente deu origem ao Candomblé e Umbanda. É possível encontrar nas religiões de matrizes africanas algumas semelhanças com o catolicismo, como por exemplo São Lázaro, juntamente com suas feridas e chagas. O mesmo é sincretizado com Omolú, o orixá das doenças de pele.
Um exemplo desse sincretismo é a comunidade quilombola dos Arturos, em Contagem-MG, no bairro Jardim Vera Cruz, região metropolitana. A comunidade preserva as tradições dos negros que foram trazidos para o Brasil por meio de festas e celebrações como a Folia de Reis, em janeiro, a Festa da Libertação dos Escravos, em 13 de maio, e o Reinado de Nossa Senhora do Rosário, que conhecemos como Congado, festa originária do Congo, em outubro.
Maria Goreth, moradora da comunidade, é praticante do catolicismo e participa da festa de Congado, que é uma festividade de origem Africana. Maria foi coroada como rainha na festa. Essa relação a influenciou a se interessar por história e religião, e hoje é uma professora e ativista do movimento negro, lutando diariamente no combate do racismo.
De tanto eu ver o racismo e preconceito religioso com os alunos, comecei a trabalhar essa temática em sala de aula, com o intuito de conscientizar e combater esse preconceito entre os alunos”, afirma.

Liberdade e igualdade

Mesmo em um momento do país em que o Estado parece cada vez menos laico, a constituição brasileira ainda consagra como direito fundamental a liberdade religiosa, possuindo normas jurídicas para punir casos de intolerância.
Todos têm o direito de manifestar sua fé. Portanto, casos de intolerância devem ser repudiados e denunciados, principalmente quando vem de uma origem racista, um problema social que existe no Brasil há séculos e que não pode mais achar brechas para se infiltrar; deve ser combatido diariamente.
 
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