01/09/2020 às 18h55min - Atualizada em 01/09/2020 às 18h44min

Guilherme Guedes: um bate-papo sobre jornalismo e música

Isabela Carvalho Siqueira - Editado por Alinne Morais
Foto: reprodução / instagram @gguedes

* Entrevista produzida para a disciplina Teorias e Técnicas de Reportagem na Universidade Federal Fluimense (UFF) em parceria com o Luis Fernando Motta


Era uma quinta-feira à tarde, dia 07 de novembro de 2019, época na qual a interação social ainda era algo seguro e as pessoas podiam se encontrar para conversar pessoalmente. Guilherme Guedes havia marcado conosco em um café próximo de sua casa, no bairro de Botafogo. O local, pequeno mas aconchegante, combina com o estilo do jornalista musical. Possui uma decoração moderna com bancadas de madeira e piso de cimento queimado. Há aparelhos de som e amplificadores no chão para apresentações de música ao vivo. Samambaias presas no teto e luzes de led na parede unem natureza e modernidade dentro do local. Guilherme esperava por nós do lado de fora, acompanhado de seu cachorro, um vira-lata preto, chamado Técnico. Depois de fazermos um pouco de carinho no seu bichinho de estimação, ele sugere que a gente se sente num banco em frente ao estabelecimento. 

 

Durante toda a entrevista, Guilherme demonstrou bastante simpatia conosco e com todos aqueles que paravam na entrada do café para cumprimentar Técnico, que se sentou quietinho ao lado do dono, observando a nossa conversa. As únicas interrupções do cachorro eram quando algum patinete elétrico passava na rua. O jornalista explicou que ele tem implicância com esses aparelhos elétricos.

 

Foram três dias conversando por mensagem no Instagram até que o nosso encontro ocorresse. O apresentador do canal Multishow, que é acostumado a entrevistar grandes artistas da música, tanto nacional como internacional, concordou em compartilhar com dois estudantes suas vivências no meio jornalístico. Além de protagonizar o programa Experimente, Guilherme Guedes também participa da cobertura de festivais musicais como Rock In Rio, Lollapaloza e Planeta Atlântida. Ao longo da conversa, ele nos conta sobre a sua trajetória em outras áreas, sua visão sobre o meio musical e como o Jornalismo é sobre perseverança e estar sempre aberto a novas experiências. Confira!

 

Você sempre teve interesse pela área de Jornalismo ou foi algo não-planejado? 

Eu, primeiro, quis trabalhar com política de alguma forma. Sou de Brasília, cresci lá. Não sei se por isso, mas sempre tive muito interesse pela área política. Pensava em fazer Ciência Política ou alguma coisa assim. Mas sempre gostei muito de música e também pensava em fazer algo relacionado a isso. Por muito tempo sonhei em ser músico. Comecei a tocar bateria muito cedo e cheguei a considerar uma carreira como baterista profissional. Quando chegou no final do Ensino Médio e tive que escolher um curso, fiquei batendo cabeça sem saber direito o que fazer. Acabei parando em Publicidade, levando a carreira musical paralelamente. Não gostei e fui para um curso de Sociologia. Eu até gostava mas era muito acadêmico, não era o que eu queria. Depois disso, fiquei desanimado mas acabei decidindo voltar para o curso de Comunicação Social, desta vez para Jornalismo. Descobri que adorava a área e que poderia juntar as duas coisas que gostava: o Jornalismo e a música, me tornando um jornalista musical.

 

Você iniciou como estagiário na BandNews Fm e se tornou repórter de campo chegando a cobrir as eleições de 2010, que elegeram a ex-presidente Dilma Rousseff. Como foi pra você cobrir política? Quais as diferenças você pode apontar entre a área de política e cultura? 

  É bem diferente! Cobrindo política eu tinha uma sensação de responsabilidade muito maior. Não que o jornalismo musical não deva ser responsável, mas na política a gente está falando sobre assuntos que são extremamente importantes para as pessoas. Ás vezes me encontrava em situações, como por exemplo, entrevistando um político notoriamente corrupto ou algo assim e tinha que ser profissional. Aquilo me torturava, sabe? Mesmo fazendo um jornalismo responsável, estava dando voz para esses caras. Além disso, cobrir política era muito puxado. Cheguei a trabalhar 12/14 horas por dia. No Jornalismo musical, consigo ser um pouco mais criativo, tenho mais liberdade para relacionar coisas que não estão obviamente relacionadas, como por exemplo: como o pop-rock britânico acabou influenciando, de alguma forma, um compositor de funk carioca. Fazer conexões, entende? Na política ficava preso a um padrão, a uma caixinha. Tenho a maior a admiração por vários jornalistas políticos. Ás vezes penso como seria legal estar no lugar deles participando de certas coberturas mas tinha parado de ouvir música, de tocar música e de pensar sobre música. A minha atenção estava toda focada naquilo.
 

Depois de trabalhar na rádio, você foi para São Paulo atrás de oportunidades de cobrir a área musical. Você conseguiu, primeiro, uma oportunidade no Portal Vírgula e depois, finalmente, recebeu a grande oportunidade de integrar a equipe do Multishow.  Isso tudo muito jovem, com 24 anos. Como foi para você assumir essa responsabilidade? Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou no início?

Quando saí de Brasília tinha acabado de fazer 24. As dificuldades foram todas por que eu quase não tinha experiências no jornalismo musical. Tinha alguma experiência porque já escrevia no Tenho mais discos que amigos!. Quando eu entrei, era um blog super pequeno. Não tinha essa vivência de trabalhar diariamente com isso, de que minha renda dependesse disso. Inclusive na faculdade, na matéria de televisão fiz todas as funções - direção, câmera, roteiro, pesquisa, menos de apresentar, não queria trabalhar com TV, mas tinha muito interesse em trabalhar com jornalismo musical. Em São Paulo, fiz vários freelas, networking, fui tentando vários trabalhos e consegui um no Vírgula, aprendi muito lá. No fim deste mesmo ano fui chamado para fazer um teste no Multishow, nunca tinha feito televisão, não tinha vontade e realmente não sabia como fazer, mas era uma chance de trabalhar em um canal com cobertura musical grande, transmissão de shows e festivais ao vivo. Eu pensei que provavelmente iria pagar um mico, mas decidi ver o que ia acontecer. Então eu fui! Acho que paguei um mico, principalmente no começo. Mas acabou dando certo e eles resolveram continuar me chamando. Passei um ano fazendo testes, alguns freelas e em 2013 fui efetivado. 

 

Hoje, depois de quase 8 anos no canal, você já adquiriu uma certa experiência na cobertura de grandes eventos. Já cobriu Rock in Rio, LollaPalooza, Planeta Atlântida, entre outros. Como é a experiência de viver todos esses eventos dessa forma (como jornalista)? Estando nos backstages, entrevistando os artistas, fazendo entradas ao vivo durante todo o dia e tendo que lidar com situações como a do Drake no Rock in Rio 2019 e Kendrick Lamar no LollaPalooza 2018 que não permitiram as transmissões ao vivo. 

  É incrível! Acho que a minha experiência no jornalismo mais duro, na época da BandNews, me ensinou a lidar com situações como essas que vocês falaram. Mas é uma oportunidade incrível. Lembro de quando tinha 13 pra 14 anos, fui no Rock in Rio 2001, eu era muito moleque, mas lembro de ter a sensação de querer estar ali de novo, viver aquilo de alguma forma. Na época, pensava em trabalhar com música, ainda sonhando em ter uma banda tocando naquele palco. Mas trabalhar como jornalista é até melhor, no final das contas. Eu não teria sido um músico profissional feliz. Porque eu gosto muito de ouvir todo tipo de som e de estar sempre vivendo coisas novas com a música. Como jornalista consigo fazer isso! Pensar em análises, cruzar referências... Estar nesses festivais trabalhando, para mim, é sempre incrível. Você tem oportunidade de ver grandes show e de entrevistar grandes artistas. Acho que hoje, com 8 anos de experiência sou um pouco menos deslumbrado do que no começo. No início eu ficava “Caralh**, estou perto dessa pessoa!!”. Hoje consigo entender que são pessoas como eu e como vocês, estão fazendo o trabalho delas. Mas é uma honra estar do lado de artistas que transformaram a música de alguma forma. 
 

E eventos como esses levam a muitas situações de improviso, você tem alguma técnica para momentos assim?  

Nunca fui e ainda não me considero uma pessoa boa de improviso, mas na transmissão ao vivo você tem que estar pronto para tudo. A ideia é que você tenha um minuto para fazer o comentário de um show, dois para entrevistar um artista mas aquele tempo pode triplicar ou ser cortado pela metade, de repente, por que está ao vivo e muita coisa pode acontecer. Às vezes você está entrevistando um artista e o empresário está desesperado por que tem que levar ele pra outro lugar, ou o diretor resolveu mudar tudo, ou o outro show que ia começar, não começa, e você tem que segurar a entrevista. Acho que a forma que eu me preparo é estar sempre muito inteirado sobre tudo que está acontecendo e sobre os artistas que estão ali. Leio notícias sobre música todos os dias, domingo, feriado, o tempo todo tentando acompanhar. Ouço o máximo de lançamentos e tento estar sempre por dentro dos assuntos, dos debates, do que está sendo tratado no mundo da música por que eu nunca sei quando vou precisar disso. Você ler um texto sobre a história da música eletrônica pode te ajudar a entender a explosão do Trap no Brasil. Desde que entrei no canal faço sozinho, às vezes com outras pessoas uma pesquisa de conteúdo jornalístico para os festivais. Preparo as fichas com a história dos artistas, do que estão fazendo, separo entrevistas relevantes, só para preparar a equipe de produção e os apresentadores. É um processo que me ajuda muito, então na hora de um improviso, que eu tenho que me virar com alguma coisa, isso tudo está na cabeça.

 

Você já entrevistou grandes nomes da música, tanto nacional quanto internacional. Como você se prepara para essas entrevistas? 

Tento me colocar no lugar de quem está assistindo a entrevista. O que é relevante para aquela pessoa saber. Levo em consideração, também, o fato de que geralmente são artistas que dão muitas entrevistas, ou seja, se eu fizer perguntas que já foram feitas 80 milhões de vezes para aquele artista, ele vai responder a mesma coisa que já respondeu todas as outras vezes. Eu tento evitar esse tipo de coisa, a não ser que seja um assunto muito relevante. Tento, também, sempre levar a entrevista como se fosse uma conversa. É lógico que é importante ter uma pauta, as perguntas prontas, os assuntos na cabeça, saber o que você quer abordar, mas acho também muito importante ouvir o que a pessoa está dizendo ali na hora. 
 

Você ainda fica nervoso na hora de entrevistar grandes artistas? 

Sim!! Na verdade, eu fico mais nervoso pela situação, porque não é você ali no bar trocando uma  ideia com o Dave Grohl, geralmente estou com o tempo apertado, com os produtores do canal falando para eu fazer alguma coisa, os da banda querendo outra, precisa encerrar, traduzir, e muitas vezes é ao vivo. É muita pressão e isso, obviamente, acaba me deixando nervoso. É mais por isso do que pelo papo, porque dependendo do artista, é uma conversa super legal de se ter.
 

Você, também, faz um programa no canal BIS, chamado Experimente que se propõe a apresentar novos artistas nacionais para público. Você já levou para o programas nomes como “Djonga”, “BK”, “Duda Beat”, “Jhonny Hooker”, entre outros. Como é a seleção desses artistas? Para você, qual a importância deste programa para a valorização da música nacional?

Existem poucos espaços na mídia para os artistas independentes. É uma questão de matemática muito simples, os veículos querem audiência e os artistas que pouca gente conhece não dão audiência. É muito importante programas como o Experimente e o Cultura Livre da Tv Cultura que dão esse espaço para os artistas nacionais. Tenho muito orgulho do que o Experimente faz nesse sentido, de apresentar novos artistas a um novo público. Na última ou penúltima temporada o Djonga descobriu a Karol Conka vendo o programa! É incrível ter essa dimensão, que um dos maiores rappers do país, hoje, conheceu uma grande artista justamente pelo programa. O Experimente é produzido pelo Canal Bis em parceria com o Grupo Sal, uma produtora de vídeo que tem um curador musical, o Pedro Seiler. Mas como eu sou jornalista e acompanho a nova cena também, eu sempre indico alguns artistas que eu gostaria de ver no programa.
 

A gente sabe que o mercado de trabalho na área de jornalismo não é dos melhores, principalmente, quando se trata de cobrir cultura. Como você, um jornalista musical, já inserido no meio, enxerga esse mercado? Nós, estudantes de jornalismo, podemos sonhar em um dia sermos jornalistas culturais?

Olha, poder, pode. Mas está cada vez mais difícil, tenho muitos amigos jornalistas musicais que estão desempregados ou mudaram de área, alguns dos melhores profissionais que conheço nessa geração, por que a gente está vivendo um momento muito esquisito. Quando eu saí da faculdade a grande preocupação era como o jornalismo ia se adaptar a internet, acho que a gente já passou dessa fase, já entendemos, mais ou menos, como pode e deve funcionar o jornalismo na era das redes sociais, tem muito espaço pra crescer e se tornar algo ainda mais relevante. Sem falar na perseguição cultural que o atual governo está promovendo. Chega uma hora que as coisas começam a se misturar, você está falando de cultura, de entretenimento, da música como produto, arte ou de política, incentivo público. Geralmente quem mantém as organizações de jornalismo são as grandes empresas e grupos que quando precisam cortar, retiram os cadernos de cultura e demitem os jornalistas de culturais. Teve uma época que consegui ver muita gente se desdobrar no jornalismo musical, criando o próprio caminho como, por exemplo, o pessoal que fundou o blog Tenho Mais Amigos que Discos!, o pessoal que desenvolveu material no Youtube, entre outros. Hoje tem tanta coisa, veículos independentes, páginas, canais, um mar de informação muito grande. Para desenvolver um produto, você realmente tem que encontrar uma linguagem nova, é um desafio muito grande. Pro jornalista que, hoje, quer entrar no meio musical não basta só acompanhar o que está acontecendo na música, tem que entender a responsabilidade social que a música tem. É lógico que alguém pode se especializar em falar sobre rock, pop ou hip hop mas é cada vez mais importante você ouvir diferentes tipos de sons para ter referência, contexto e para entender de onde vem e para onde vai aquele tipo de som. É preciso ter muita persistência e talvez um plano B. Quando comecei no jornalismo musical fazia freelas em outras áreas, escrevi sobre cinema e para aquela revista Men’s Health, sobre saúde masculina. Precisava pagar minhas contas e entrar no mercado de trabalho, se dependesse só do jornalismo musical não dava. É ter persistência, não se fechar em uma caixinha e nem a outras áreas. 
 

“Geralmente quem mantém as organizações de jornalismo são as grandes empresas e grupos que quando precisam cortar, retiram os cadernos de cultura e demitem os jornalistas de culturais”.


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