18/03/2021 às 22h28min - Atualizada em 18/03/2021 às 21h47min

Pela minha liberdade quero escolher quando morrer: Ana Estrada luta pela eutanásia

Ana é totalmente dependente de cuidados e luta para que o governo peruano reconheça que ela é a única dona de seu corpo e de suas escolhas

Sara Moreira - Editado por Roanna Nunes
Créditos: Reprodução/Angela Ponce

Eutanásia é uma palavra com origem grega, composto de “eu” (bom, verdadeiro) e “thanatos” (morte). Literalmente, seria a “boa morte”, uma morte sem sofrimento. Segundo o dicionário Silveira Bueno de língua portuguesa eutanásia é: morte sem sofrimento; prática pela qual se procura abreviar, sem dor ou sofrimento, a vida de um doente incurável.

Reconhecida como um direito em cinco países (Canadá, Holanda, Bélgica, Luxemburgo e Colômbia), a eutanásia é a antecipação da morte de pacientes diagnosticados com doenças incuráveis, por meio do auxílio de outra pessoa, no caso um médico, com aplicação de uma injeção letal. No Peru, assim como no Brasil, a eutanásia é proibida, quem colaborar com a prática pode ser indiciado por homicídio doloso, quando uma pessoa tira a vida de outra intencionalmente.

Ana Estrada é uma psicóloga peruana de 44 anos que luta pelo direito de realizar a eutanásia, ela é portadora de polimiosite, uma doença autoimune, incurável e progressiva na qual o sistema imunológico ataca os músculos. Ela perdeu a maior parte dos movimentos: consegue mexer um pouco o pescoço e dois dedos, que usa para digitar os poemas e textos do blog chamado: “Ana — Por uma morte digna”, onde conta sua história.

“Fui diagnosticada com polimiosite entre 12 e 14 anos. Como é uma doença rara, os médicos demoraram a fechar o diagnóstico. Eu notava algumas mudanças, tropeçava e caía muito. Mas era adolescente, não entendia nada e só queria aproveitar a vida. Segui assim até os 20 anos, quando comecei a usar a cadeira de rodas. Foi um despertar: O que aconteceu comigo todo esse tempo? Comecei a pesquisar. Foram anos de sofrimento, porque me dei conta de como a doença iria evoluir. Apesar de tudo, me formei em psicologia e trabalhei”, afirma Ana em entrevista para a jornalista Maria Angélica Oliveira.

Estrada diz ainda que não quer se matar, mas que precisa da liberdade de dizer “basta” quando a sua doença irreversível a obrigar a estender a vida em condições insuportáveis. “Sei que é difícil compreender, mas não quero morrer. Estou bem atendida e num momento de grande realização, pois, recentemente descobrir recursos que não tinha”, explicou Ana Estrada, em seu blog.

“Não busco a morte, luto por uma carta de liberdade”

“A questão da eutanásia surgiu em agosto de 2016, quando fui internada pela segunda vez, e permaneci assim durante quase um ano. É a última vez que vou passar por um hospital, pensei. Fiquei um mês e saí com essa ideia. Comecei a pesquisar. Conversei com uma funcionária de uma instituição na Suíça (onde se permite o suicídio assistido) que me disse que quase 80% dos pacientes não chegam a decidir pelo procedimento, porque isso significa liberdade e a liberdade te dá poder para tolerar o sofrimento”.

Ana afirma que depois disso descobriu que no Peru existe a realização da eutanásia de forma clandestina, ela diz que considerou a opção, mas desistiu por ser muito arriscado. “Tomei então a decisão de levar isso a público, em janeiro de 2019 criei meu blog e com apenas dois dedos comecei a contar minha história. A partir daí expliquei para minha família o que eu queria. Foi um encontro muito íntimo entre nós: meus pais, meu irmão e minha cunhada. Choramos muito, mas muito mais por tudo o que havíamos passado do que pelo que eu estava dizendo. Foi 30 anos de um longo caminho em busca de milhares de tratamentos”.

Sobre a reação de sua família sobre sua decisão Ana diz que foi positiva: “Eles me disseram: sempre estivemos com você, vamos te apoiar sempre. Este é o amor que eles me demonstram. Deve ser o maior gesto de amor, um gesto de desprendimento total, aceitar a morte de uma pessoa querida”.

Os relatos do blog “Ana — Por uma morte digna” gerou uma repercussão pública, que fez o caso ser levado até a corte peruana. O 10.º Juizado Constitucional da Corte Superior (de Apelações) de Lima ordenou ao Ministério da Saúde e ao Seguro de Saúde (Essalus) que respeite a decisão de Ana Estrada Ugarte, de 44 anos, referente a intenção de pôr fim à sua vida através do procedimento técnico da eutanásia. A sentença, à qual cabe recurso, indica que se deve “entender por eutanásia a ação de um médico de administrar de forma direta (oral ou intravenosa) um fármaco destinado a pôr fim à sua vida”, segundo a decisão divulgada pela corte no Twitter.

“Estou sem palavras, e muito emocionada, para mim, é um prazer, uma alegria enorme a que estou sentindo agora. Atingimos a meta, sinto isso. O que sempre tive claro é que quando este momento chegasse, eu ia ser livre. Essa era a luta que estive travando todo este tempo”, declarou Estrada ao canal RPP, após saber da sentença.

A medida prevê a inaplicabilidade do artigo 112 do Código Penal que proíbe a morte assistida. Segundo o tribunal, negar a morte assistida para Ana Estrada Ugarte afeta os direitos à dignidade, autonomia, livre desenvolvimento da sua personalidade e a ameaça de não sofrer tratamento cruel e desumano. A decisão, proferida pelo juiz Jorge Luis Ramírez, pode gerar grande polêmica no Peru, um país majoritariamente católico. A Igreja rejeita a eutanásia. Na América Latina, só a Colômbia descriminalizou a eutanásia, em 1997.

Para Ana, uma morte digna seria escolher morrer quando já não suportar ficar na cama conectada ao respirador 24 horas por dia. “Agora ainda consigo tapar a traqueostomia e sentar na cadeira, mas, chegará uma hora em que não conseguirei fazer isso. Aí vou avaliar. Acredito que não vou conseguir resistir, porque vai ser muito doloroso. Já sinto isso quando passo muito tempo na cama e meu corpo começa a doer. Posso tolerar agora, mas não sei se mais para frente. Penso que chegará o momento em que decidirei terminar com esse sofrimento em paz, com tranquilidade e calma”, afirmou para a jornalista Maria Angélica Oliveira.
 

“Amo tanto a vida e a respeito tanto, que desejo que meu último momento continue assim, amando a vida, não com dor e sofrimento. Lutei para não guardar a sensação de tristeza e rancor que sofri na UTI. Lutei pela minha vida. Pela minha liberdade”.


 

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