09/04/2021 às 15h36min - Atualizada em 09/04/2021 às 15h12min

O achado de Audálio Dantas

Os bastidores da reportagem que culminou no descobrimento dos escritos de Carolina Maria de Jesus

Talyta Brito - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto/Reprodução: Stutterstock
Oito dias era o deadline (prazo) que o repórter tinha para ir até a favela do Canindé, coletar as informações e iniciar a escrita da reportagem.
 
Voltou bem antes, eufórico! Tal sentimento também foi compartilhado pelo seu chefe ao se deparar com os seus achados.
 
Quando Audálio Dantas chegou à redação com seis cadernos encardidos – adjetivo que ele usou para descrever os objetos no livro “Tempo de reportagem”, obra que tem um compilado de matérias produzidas por ele ao longo da carreira –, ninguém poderia imaginar que, anos depois, aqueles escritos se tornariam leituras obrigatórias de grandes vestibulares, como o da Unicamp, e seriam traduzidos para mais de 13 línguas.
 
Naquele conglomerado de páginas, estavam relatados o cotidiano de Carolina Maria de Jesus, mãe solo, catadora de materiais reciclados e moradora da favela. Discurso muito mais expressivo do que o de qualquer jornalista, uma vez que há conhecimento de causa. 
 
Foi enquanto fazia a ambientação do local que o repórter se deparou com uma briga de vizinhos. A ameaça de uma das partes foi o que mais lhe chamou a atenção: “Vou colocar o nome de vocês no meu livro”. Muito perspicaz, Dantas se aproximou e questionou que livro era esse. A moradora foi até o barraco onde morava e retirou de um armário vários cadernos, nos quais ela registrava o seu cotidiano.
 
No dia 9 de maio de 1958, a Folha da Noite publicou uma reportagem intitulada “O drama da favela escrito por uma favelada”, a matéria continha um texto introdutório escrito pelo jornalista e em seguida trechos do diário. A publicação gerou uma grande discussão em torno da autenticidade dos relatos, uma vez que Carolina interrompeu seus estudos no 2° ano do Ensino Fundamental, e da credibilidade de Audálio.
 
Há quem considerasse que aquilo tudo não passasse de uma mera invenção de jornalista para vender jornal. Todavia, o escritor Manoel Bandeira argumentou que ninguém seria capaz de inventar descrições como aquelas. 

Foto/Reprodução: Arte Pessoal

De forma repentina, Carolina tornou-se conhecida e a proposta para publicar o livro surgiu imediatamente. "Quarto de despejo" logo tornou-se best-seller. Ao longo da vida, ela lançou outros livros: "Casa de alvenaria", obra que narra a saída da família da favela; “Diário de Bitita” (1986) e “Meu estranho diário” (1996), que não obtiveram o mesmo sucesso do primeiro lançamento.
 
Quarenta e quatro anos após a sua morte, a escritora recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma forma de reconhecimento pelo legado deixado. 
                                        Foto/Reprodução: Amazon

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