17/04/2021 às 17h48min - Atualizada em 17/04/2021 às 17h42min

Quadrinhos da vida real

As reportagens do chamado jornalismo em quadrinhos e suas peculiaridades

Karina Almeida - Editado por Andrieli Torres
Jornalismo em Quadrinhos - Montagem feita por Karina Almeida - Fotos: Reproduções
Tudo começa com um homem metade escritor, metade desenhista. Ele nasceu em Malta, ali no sul da Europa, em 1960. Morou na Austrália, nos Estados Unidos e viajou o mundo. Tornou-se um grande contador de histórias da vida real e conseguiu publicar diferentes desenhos. Ele viveu entre grandes conflitos em diferentes locais do mundo. Um dia, resolveu contar suas experiências e, ao longo de dois anos, dedicou-se a escrever algo que mudaria tudo o que era conhecido.

A trajetória pode não ser tão fantástica assim, mas seu talento e trabalhos são igualmente espetaculares. O jornalista Joe Sacco viajou o mundo a partir de 1988 e foi após as experiências em territórios ocupados na Palestina que passou a trabalhar, de 1993 até 1995, em seu novo livro: Palestina. Joe Sacco é mundialmente conhecido por combinar reportagens e histórias em quadrinhos e estabelecer a prática como “Jornalismo em Quadrinhos" (JHQ).

As histórias em quadrinhos são comumente relacionadas à ficção, aventuras de heroínas e heróis, fantasia ou narrativas cômicas, educativas e críticas. As ilustrações chamam a atenção de jovens e adultos desde muito tempo. Mas essa arte carrega um significado ainda maior quando relata as histórias da vida real.

Quando o jornalismo ainda dava seus primeiros passos, as ilustrações já apareciam nos jornais, periódicos e revistas. As gravuras eram feitas com base nas fotografias e ilustravam diferentes notícias, despertando o interesse do público. A popularização das HQs aconteceu a partir dos anos 1980 quando, além das crianças e adolescentes já encantados com as aventuras de seus personagens favoritos, os adultos passaram a ler e colecionar as chamadas Novelas Gráficas.

Essas relatavam não só as histórias fantásticas, mas também abordavam temas reais. Os trabalhos em quadrinhos que tratavam de não-ficção passaram a crescer com o tempo. Um dos mais memoráveis é “Maus”, obra de Art Spiegelman lançada em série entre 1980 e 1991 que conta a história do pai do autor, um judeu polonês sobrevivente do Holocausto. A obra foi escrita com base em entrevistas que Art fez com o pai e conta suas diferentes memórias de um tempo nunca esquecido. O artista inovou também ao representar as pessoas e nacionalidades como animais: gatos, ratos e porcos. O quadrinho foi vencedor do Eisner e do Pulitzer, dois renomados prêmios literários.

Mas foi com Joe Sacco, nos anos 90, que o Jornalismo em Quadrinhos tomou forma. Palestina (1993) é uma reportagem que tem como base a investigação do conflito entre israelenses e palestinos por meio também das experiências do jornalista. O trabalho lhe rendeu grande reconhecimento e o prêmio American Book Awards. Outra grande reportagem em quadrinhos fruto de outra investigação é Notas sobre Gaza, que lhe rendeu Prêmio Ridenhour. Além dessas, seu trabalho mais recente, intitulado Reportagens é uma coletânea de suas publicações nas quais discute temas como refugiados, crimes e guerra.

Sacco reúne não só as histórias da vida real, mas também concebe uma perspectiva histórica aos seus registros. As ilustrações e os formatos característicos dos quadrinhos ajudam na compreensão, imersão na leitura e servem como instrumento de apelo visual. Apesar de parecer apenas obra literária, o JHQ exige pautas, apuração de dados, entrevistas e demanda habilidades jornalísticas para compor a obra. As reportagens são igualmente complexas e revelam histórias reais utilizando o ponto de vista dos autores e as apurações realizadas.

Muitas outras pessoas utilizam o mundo dos quadrinhos para contar suas histórias de vida. Jornalistas e artistas passaram também a ver esse veículo como uma nova oportunidade. Alguns, como Sacco, apuram, escrevem e ilustram as reportagens. É o caso de Dan Archer, repórter que trabalha nos quadrinhos as questões sobre os direitos humanos. Além dessas, muitas colaborações entre jornalistas e ilustradores garantem obras de grande qualidade.

No Brasil, Alexandre de Maio produziu diferentes matérias em quadrinhos e garantiu o sucesso do novo modelo. Em 2014, junto à Agência Pública investigou e denuncia o turismo de exploração sexual durante a Copa do Mundo na reportagem “Meninas em Jogo”. É autor também do livro “Raul”, de 2018, que conta a história de um menino que sonha em ser um astro do Rap, mas que tem a vida envolta por crimes e golpes em agências bancárias.

E para a relação entre jornalismo e quadrinhos, podemos evocar outras personagens: Carolina Ito, autora do quadrinho-reportagem Estilhaço; Gabriela Güllich, João Velozo e Cecilia Marins, autores de escritos sobre a seca, a obra e a água e uma HQ sobre prostituição em São Paulo. Podemos citar “Socorro! Polícia!”, um quadrinho que investigou os números da violência urbana. A obra é fruto da apuração de Amanda Ribeiro, da Folha de São Paulo e Luiz Fernando Menezes, da agência Aos Fatos. E muitos outros profissionais e jornalistas que investiram seus talentos nos quadrinhos.

Além dessas, a Agência Pública possui um arquivo com algumas reportagens publicadas no formato de quadrinhos produzida por repórteres da agência de jornalismo investigativo. Algumas revistas como a Fórum também já realizam publicações. Contudo, o site da Revista Badaró acumula a maior quantidade de quadrinhos-reportagens e informações.

O jornalismo está em constante transformação. É uma profissão cada vez mais essencial e com potencial de transformação. As reportagens já ocupam diferentes veículos e formatos. O Jornalismo em Quadrinhos ainda está em crescimento, mas é promissor e com imenso potencial. As detalhadas apurações, entrevistas e investigações combinadas as ilustrações e artes podem atrair cada vez mais jornalistas e leitores.


Referências
Jornalismo em quadrinhos atua como importante meio de construção da memória – Jornalismo & História (ufsc.br)

Revista Badaró – Jornalismo em quadrinhos, audiovisual e outras narrativas (revistabadaro.com.br)

Jornalismo em quadrinhos: a narrativa gráfica da realidade - Algomais

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