17/11/2021 às 19h42min - Atualizada em 13/11/2021 às 23h29min

Narrativas | Três mulheres pretas na historia da cultura brasileira

Biografia da trajetória de vida artística e cultural de Clementina de Jesus, Mãe Stela de Oxóssi e Elza Soares

William Haxel - Revisado por Márcia Nascimento
Encontro de Mulheres: racismo e violência. (Foto: Bianca Stephania, do Curta Mais)
O Brasil é um país com várias narrativas, contos e histórias diferentes. Advento de uma exploração colonial foi diversificado em vários aspectos regionais, políticos e culturais. Entretanto, alguns fatos e histórias são ocultados ou omitidos em detrimento de outros. Pensando nisso, o texto se encarrega de contar a trajetória de três mulheres negras que fizeram e fazem uma participação histórica e essencial para a cultura brasileira. 

Clementina de Jesus

Clementina de Jesus nasceu em 1902 na cidade de Valença, no Rio de Janeiro, carregou consigo toda sua ancestralidade africana. Sambista, dona de uma voz inconfundível, potente e ancestral. Passou a ser conhecida como Rainha Quelé. Filha da parteira Amélia de Jesus dos Santos e de Paulo Batista dos Santos, capoeira e violeiro da região. Cresceu em sua cidade natal, ouvia sua mãe cantar enquanto lavava roupas às margens do rio, ouvia e guardava aquelas canções que mais tarde, fariam parte de seu primeiro disco.


Mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro aos sete anos, passou a frequentar eventos e ensaios da Escola de Samba Portela, onde passou a pegar gosto pela musicalidade. Trabalhou como lavadeira e empregada doméstica, casou-se Albino Pé Grande e foi morar no Morro da Mangueira. Em sua atuação como cantora, Clementina nunca teve a intenção de se tornar profissional. Cantava porque gostava, cantava por alegria, cantava por prazer.

A carreira profissional de Clementina começou quando ela tinha 63 anos de idade. Notada enquanto cantava em uma festa, o Hermínio Bello de Carvalho ficou encantado pela voz da musa. Mais tarde a encontrou novamente e pediu que ela tocasse em um espetáculo intitulado “Rosa de Ouro”, o show que a consagraria como cantora. Nos anos seguintes Clementina participou dos discos "Mudando de conversa", "Fala Mangueira!" e "Gente da antiga", este último um disco antológico da música brasileira, ao lado de João da Baiana e Pixinguinha. Brilhou no continente africano e participou do Encontro das Artes Negras de Dakar em 1966, acompanhada de outros bambas como Martinho da Vila e artistas como Rubem Valentin. Ao final do show, Clementina foi um sucesso e o público chegou a invadir o palco para abraça-la.

Ainda em 1966, Clementina gravou seu primeiro disco intitulado "Clementina de Jesus", com repertório de jongo, curima, sambas e partido-alto. Ao todo, Clementina teve três LPs gravados entre álbuns solos e participações em álbuns coletivos, com destaque para o disco. Com sucesso no Brasil e na Africa, Clementina teve seu reconhecimento por artistas nacionais como Elis Regina, João Nogueira, Clara Nunes, Caetano Veloso, Maria Bethânia e João Bosco. Todos a tratavam com muito carinho, inclusive alguns a chamavam carinhosamente de mãe Clementina. Ao todo, gravou cerca de
62 músicas, sendo elas as mais conhecidas ao pesquisar no YouTube: “Marinheiro Só”, “Na Linha do Mar” e “Batuque na Cozinha". Depois dessa trajetória, Clementina faleceu em 1987 vítima de derrame em Inhaúma, Rio de Janeiro.

Mãe Stella de Oxóssi

Maria Stella de Azevedo Santos, nasceu em 2 de Maio de 1925, em Salvador, na Bahia, foi a quinta Iyalorixá de um dos terreiros de candomblé mais tradicionais de Bahia, o Ilê Axé Opô Afonjá. Mãe Stella atuou como enfermeira sanitarista após se formar na Escola de Saúde Pública da Bahia. Dedicou seu tempo nessa profissão prestando assistência aos mais necessitados, trabalhando até se aposentar por tempo de serviço. Em sua vida pública, Mãe Stella se destacou pelos seus discursos firmes em defesa das tradições do candomblé.

Aos 13 anos de Idade, Mãe Stella mostrou que trazia algo especial em si. Seu dom foi percebido pela sua tia Arcanja, conhecida como Tia Menininha. Sua iniciação no candomblé se deu em setembro de 1939, quando recebeu seu Orukó de Odé Kayodê. Aos 50 anos, foi escolhida para ser a 5° Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, tornando-se a mais jovem Iyalorixá da Bahia.
 
Estreou na literatura em 1988, com a publicação do livro "E daí Aconteceu o Encanto", em parceria com Cléo Martins, no qual a autora rememora as raízes do Opô Afonjá e de suas primeiras Iyalorixás. Mãe Stella conta ainda com os volumes "Meu Tempo é Agora" (1993), uma espécie de livro-manual para a formação de seus filhos-de-santo e "Òsósi - O Caçador de Alegrias" (2006), uma seleta dos ìtãns (narrativas míticas) de Oxóssi, orixá para o qual foi iniciada. Em 2007, lançou "Òwe-Provérbios", uma coletânea de ditos Iorubanos e brasileiros acompanhados das interpretações da escritora.

Em 1995, comemorou seus 70 anos de idade com a 2° Feira Africana de Cultura Afonjá. Na mesma ocasião, além da grande festa com shows e exposição de arte, mobilizou toda a cidade em torno da cultura africana e do culto aos orixás. Em 1999, recebe o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá pelo IPHAN (Intitudo do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), orgão ligado ao Ministério da Cultura.

Já em 2013, foi eleita por unanimidade para a Academia de Letras da Bahia, onde tomou posse da cadeira de número 33 (cadeira já ocupada pelos escritores Castro Alves e Ubiratan Castro de Araújo). Além disso, recebeu os títulos de Doutora Honoris da Causa pela Universidade Federal da Bahia (2005) e da Universidade do Estado da Bahia (2009).

Mãe Stella  viveu seus últimos anos já com a saúde debilitada, em Nazaré das Farinhas com sua companheira e filha de santo Graziela Domini. O relacionamento de Mãe Stella e Graziela durou 13 anos. Mãe Stella de Oxóssi morreu devido a uma infecção generalizada de foco urinário e insuficiência renal crônica associada a hipertensão arterial sistêmica em Santo Antônio de Jesus, na Bahia, aos seus 93 anos de idade.
 

Elza Soares

Elza Gomes da Conceição, nasceu em uma família muito humilde em 23 de julho de 1930, no Rio de Janeiro, na favela Moça Bonita. Criada com 10 irmãos, cultivou seu sonho de cantar, desde a infância já compunha suas primeiras canções. Elza conheceu Garrincha em 1962, e iniciaram um romance enquanto ele era casado. Após um ano juntos, ela pediu para que ele tomasse uma decisão: ou assumiria ela, ou ela o abandonaria. Logo em seguida, Garrinha volta até Elza e a pede em casamento. Poucos meses depois, oficializaram a união, quando passou a assinar Elza Gomes da Conceição dos Santos. O casamento de ambos foi motivo de revolta para os fãs e a imprensa, que acusaram Elza de ter acabado com o casamento do futebolista.

Elza teve oito filhos, todos nascidos de parto normal, no Rio de Janeiro. Seus dois primeiros filhos, ambos meninos, não tiberam nome, pois não foram registrados, eles morreram recém-nascidos, com poucas semanas de vida, devido a desnutrição. Posteriormente teve João Carlos, Gerson (que ela teve de entregar para adoção por falta de condições para criá-lo), Gilson (morto em 2015, aos 59 anos), Dilma (sequestrada com 1 ano de idade em 1950, e reencontrada somente em 1980), Sara e Manoel Francisco, apelidado de "Garrinchinha" (morto em 1986, aos nove anos).

A cantora ficou desesperada, entrou em depressão, tentou suicídio, passou a tomar antidepressivos, até decidir deixar o tratamento e viajar pelo mundo a trabalho, focando exclusivamente na sua carreira, fazendo muitos shows. Elza também se afundou nas drogas, frequentando diversas comunidades do Rio para poder se aproximar dos traficantes e quem mais pudesse lhe dar drogas.

Em sua carreira, aos 21 anos, havia acabado de ficar viúva, e estava com quatro filhos para criar. Nesta época estava trabalhando como faxineira para sustentá-los. Elza, confiante em seu talento para cantar, devido aos elogios que recebia de parentes e amigos, se inscreveu no concurso musical do programa radiofônico "Calouros em Desfile", em meados de 1953, que era apresentado pelo compositor Ary Barroso. Quando Elza subiu ao palco, foi recebida pelo auditório e por Ary Barroso com gargalhadas. Ary tentou ridicularizar Elza perguntando-lhe “De que planeta você veio, minha filha?”. Elza rebateu “Do mesmo planeta que o senhor, Seu Ary. Do planeta fome”.
 
No fim da década de 1950, Elza Soares fez uma turnê de um ano pela Argentina, juntamente com Mercedes Batista. Tornou-se popular com sua primeira música "Se Acaso Você Chegasse", na qual introduziu o scat similar a do jazzista Louis  Armstrong, contudo, Elza diz que não conhecia a música americana na época. Mudou-se para São Paulo, onde se apresentou em teatros e casas noturnas. A voz rouca e vibrante tornou-se sua marca registrada. Após terminar seu segundo LP "A Bossa Negra", Elza foi ao Chile representando o Brasil na Copa do Mundo da FIFA de 1962, onde conheceu pessoalmente Louis Armstrong.

Em 1960 conseguiu realizar seu sonho de trabalhar somente com a música, quando surgiu um concurso na rádio, tendo que cantar as músicas escolhidas por eles e, como foi à vencedora, acabou sendo convidada para aparecer na TV, e nesse mesmo ano fez sua primeira turnê internacional, e percorreu os países da América do Sul, América do Norte e Europa.

Em meados do século 21 foi premiada como "Melhor Cantora do Milênio" pela BBC em Londres, quando se apresentou num concerto com Gal Costa, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Virgínia Rodrigues. Em 2002, o álbum "Do Cóccix" até o "Pescoço" garantiu-lhe uma indicação ao "Grammy". O disco foi bem recebido pelos críticos musicais e divulgou uma espécie de quem é quem dos artistas brasileiros que com ela colaboraram: Caetano Veloso, Chico Buarque, Carlinhos Brown e Jorge Ben Jor, entre outros. O lançamento impulsionou numerosas e bem-sucedidas turnês pelo mundo.

Elza, produtora cultural, roteirista, cantora de MPB, samba, bossa nova, sambalanço, samba Jazz, samba-rock, samba de enredo e compositora, recebeu em 2019 recebeu título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Autora de 35 discografias, 6 coletâneas e vencedora de 10 prêmios nacionais e internacionais, Elza brilha até hoje com seus 91 anos de idade.


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