25/06/2019 às 16h15min - Atualizada em 25/06/2019 às 16h15min

O fenômeno Netflix

Como a plataforma pode influenciar a mudança de comportamento dos jovens

Pauline Mingati
 

Uma plataforma de streaming que leva hoje, o nome de uma geração, indica um sucesso grandioso que ainda tende a crescer. A Geração Netflix é composta por jovens que tiveram seus comportamentos mudados por influência de uma nova era de entretenimento. 


Se antes, o que caracterizava a juventude eram as festas, os amigos, as bebidas e a farra, hoje, a realidade é praticamente a oposta. É cada dia mais comum que as festas fiquem para depois, pois essa geração dá prioridade para as séries e filmes disponíveis na empresa de streaming que faturou R$1,1 bilhão só em 2015.

 

No entanto, o que poucos sabem é que Netflix teve seu início com entregas de DVD’s, ainda no ano de 1997. Apenas em 2007, ou seja, 10 anos depois, é que o streaming surgiu nos EUA. No Brasil, esse tipo de serviço só chegou em 2011. A partir de então, a plataforma, como hoje é conhecida, foi crescendo e tomando conta, principalmente, dos jovens. 

 

Para a estudante de Jornalismo, Pamela Rita, de 19 anos, a preferência em ficar em casa na companhia da plataforma está diretamente ligada à facilidade e comodidade: “Toda aquela burocracia de ter que me arrumar, buscar transporte, arrumar pessoas para irem comigo, tudo isso me deixa desanimada”.

 

Já o estudante de Direito, Raphael Moreira, acredita que optar por assistir Netflix seja consequência de uma rotina pesada. Para ele, o cansaço físico e emocional que advém do dia a dia, resulta em uma falta de motivação para sair. Além disso, Raphael também pontua que um dos motivos pelo qual considera interessante esse tipo de programa é poder vivenciar, através das narrativas das séries, situações que o espectador provavelmente não teria a oportunidade na “vida real”.


O professor de marketing e branding e sócio consultor da Brandwagon, Marcos Bedendo, em uma entrevista para a revista Exame, chamou atenção para o fato de que o catálogo disponível na empresa de streaming em questão, não é, nem de longe, a mais completa e atualizada. Segundo ele, a maioria dos filmes e séries encontrados é antiga, cujos produtores não mais possuem interesse em exibir. 

 

Em contrapartida, Marcos explica que o sucesso da Netflix se deve à praticidade: “A Netflix é dos serviços de streaming, de longe o mais fácil de acessar. Tão fácil quanto apertar o botão do canal desejado, é clicar no botão ‘Netflix’ do controle da TV. Nenhum outro serviço de streaming possui a mesma conveniência”.

 

Tanto Pamela, quanto Raphael contam que, nas raras vezes em que decidem sair com os amigos, as conversas são pautadas pelas séries e filmes que a turma está assistindo. Afinal, percebem que o comportamento e a opção pela vida mais caseira estão presente na maioria dos jovens e de seus círculos de amizade. A estudante de Jornalismo ainda completa: “Às vezes, eu e meus amigos nos reunimos para ver uma série que gostamos e isso, na minha opinião, é muito mais prazeroso do que sair”.

 

Já a psicóloga, Débora Saraiva, acredita que essa mudança de comportamento tem um lado muito negativo, uma vez que os jovens parecem estar presos em um mundo individual, ignorando tudo a seu redor. Para ela, o ponto positivo de toda essa situação estaria no fato de que, nesses momentos de lazer, pode-se aproveitar para passar o tempo com a família, interagindo com pais e irmãos na hora de consumir o entretenimento. 

 

No entanto, enfatiza que o comportamento passa a ser negativo quando as pessoas se tornam incapazes de criar relações sólidas “Que são de extrema importância para o seu desenvolvimento pessoal, escolar e profissional”.

De acordo com uma matéria do Observatório da Imprensa, o serviço já está presente em, aproximadamente, 40% dos lares americanos. E mais: Segundo uma pesquisa realizada em 2015, pelo Clear Voice Research, os americanos preferem Netflix do que a TV tradicional, apresentando um total de 50% de pessoas que ficam mais tempo assistindo aos conteúdos da plataforma do que de outros canais. 

 

Por consequência, as redes de TV tradicionais passaram a também criar serviços de streaming para entrar nessa disputa em um mercado novo que tende a aumentar cada vez mais.

 

Os streamings em questão, são responsáveis por alterar os hábitos das pessoas, uma vez que, agora, vê-se o entretenimento com outros olhos. Através deste meio, o espectador é quem decide o que ver e quando ver. Não se está mais preso em horários ditados pelas emissoras ou grades de programações fixas. Em outras palavras, o streaming permite mais liberdade e flexibilidade a quem assiste. Isso justifica a paixão dos jovens pela plataforma que parece entender suas necessidades.

 

A estudante de Audiovisual, Dayenne Carvalho, conta que, desde que entrou no curso, tem procurado assistir mais filmes e séries na plataforma: “Comecei a assistir por lá e, quando vi, já estava assistindo, no mínimo, dois filmes por dia.”

 

Uma pesquisa feita pelo IG Gente, com jovens de faixa etária entre 18 e 24 anos, mostra que o principal motivo pelo qual as séries têm se tornado parte de suas vidas e rotinas é o fato de serem gêneros que se destacam por ser viciantes em suas formas de enredo e narrativa. Tanto que nem Raphael, nem Pamela souberam dizer, com facilidade, quais eram suas séries preferidas. As listas são grandes e há espaço para várias obras nos corações dos entrevistados. 

 

Dayenne explica que a enorme audiência da plataforma tem relação direta com o conjunto de boa direção, roteiro e toda a equipe que compõe um set. Além disso, ela destaca que a sociedade busca maneiras de se distrair e se identificar e, por isso, acaba gostando da sensação de ter um catálogo com muitas possibilidades de que isso ocorra “É também uma escapatória da realidade e de todas as cobranças que nos são dadas” Ela complementa:

 

Na opinião da psicóloga Débora, essa “escapatória da realidade” é uma fuga: “O medo de enfrentar o mundo e todas as frustrações que podem ocorrer os fazem se esconder no próprio mundo”.

 

Acreditava-se, em 2015, que o Netflix chegaria a 180 milhões de assinantes, no mundo todo, até 2020. Hoje, sabe-se que o número de assinantes pagantes já passa de 110 milhões.

  
Alguns consideram os efeitos da Netflix, nos jovens, algo positivo, outros, negativo. Para alguns, é uma nova forma de interagir com os amigos, para outros, é uma fuga da realidade e há ainda os que utilizam a plataforma para se aprimorar em suas áreas de atuação. O fato é que todos concordam com uma coisa: a era Netflix parece ter vindo para ficar. 


Editado por Bruna Santos 
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