15/03/2022 às 16h52min - Atualizada em 15/03/2022 às 12h24min

A cena além do centro: Cultura Ballroom e a resistência periférica

As balls e a cultura das Houses como rede de apoio para corpos LGBTQIAP+ das quebradas

Gustavo Oliveira - Revisado por Flavia Sousa
Elenco do documentário Paris is Burning, de Jennie Livingston (Foto: Reprodução)

Criado pela comunidade LGBTQIAP+ negra latino-americana de Nova Iorque, entre o final da década de 1960 e início de 1970 surge o movimento Ballroom. Mais especificamente no Harlem em Manhattan, bairro que é centro cultural e comercial dos afro-americanos, essas pessoas transgênero, marginalizadas e invisíveis socialmente, se viram protagonistas de um movimento cultural pela primeira vez.

Para além de festas temáticas, as balls eram estabelecidas como espaços de acolhimento e inclusão. O Ballroom era um lugar em que essas pessoas podiam exercer seus protagonismos sendo elas mesmas e sentindo-se bem em seus próprios corpos. Entretanto, as balls também eram bailes ou batalhas difundidas, no início, entre categorias de estética e, mais tarde, categorias de dança. No decorrer da disputa, a bancada de jurados dava notas e definia assim quem levaria o troféu, chamado Grand Prize, e o posto de Legendary (Lenda) ou Icon (Ícone), se tornando uma figura de prestígio entre os demais participantes.



É impossível falar da história do Ballroom sem citar Crystal Labeija. Labeija foi uma mulher trans, drag queen e responsável pela criação da primeira casa, a House of Labeija (1973), que deu início a um discurso que visava a retomada da Cultura Ballroom por parte de pessoas LGBTQIAP+ negras e latinas, uma vez que as festas e as disputas, naquele momento, eram dominadas por pessoas brancas. Labeija se tornou expoente nome entre os observadores e participantes do movimento, trabalhava em prol de um reacordo com a autoestima de pessoas como ela e enfatizava a busca por representatividade e pelo sentimento de pertencimento a uma cultura que teve início em seus ancestrais. O ensaio acadêmico “Corpo transeunte: oscilação performática mapeando a cena Ballroom brasileira”, escrito em 2019 por Marco Aurélio Junior, dançarino e, na época, pai da Kiki House of Lanceira no Rio Grande do Sul, salienta a conexão entre o Ballroom e a ancestralidade negra nos momentos em que denomina o movimento como “ato de Quilombagem como entretenimento”, ou quando se refere à Cultura Ballroom como “Cultura de Bola”, explicando a presença eminente da organização das pessoas em formato de círculo, característica de outras culturas de matriz africana, em que se pode presenciar o “zelo pela roda como metodologia de trocas e compartilhamentos em contato direto”.

Com a criação da primeira casa, novas casas surgiram e houve o primeiro ápice da Cultura Ballroom no auge dos anos 1980. Em meio ao surto do HIV, as houses funcionaram como coletivos ou famílias lideradas por uma mãe que adotava e cuidava de jovens LGBTQIAP+ que haviam sido expulsos de casa. Após o falecimento de Crystal Labeija, Pepper Labeija assumiu seu lugar e foi mãe da House por mais de 20 anos, e dessa forma acolhia pessoas que buscavam abrigo para passarem as noites nas balls. Assim, formavam-se as famílias que juntas se preparavam para disputar nas balls em busca do Grand Prize.

 
Ballroom brasileira e a influência midiática

No Brasil, a Cultura Ballroom dá seus primeiros passos no começo dos anos 2000 através de profissionais de dança que beberam da fonte das balls nova-iorquinas ou que conheceram e estudaram o voguing a partir de obras do audiovisual e da cultura pop como o videoclipe de Vogue da Madonna (1990). O voguing, criado nas ruas de Nova Iorque pelas minorias, é um elemento das balls que surgiu entre as décadas de 70 e 80. A dança moderna se caracterizava por posições que remetiam às poses de capas da revista Vogue, daí o nome. Inspirada na amizade com José Gutierez Xtravaganza, atual pai da House of Xtravaganza, que mais tarde dançaria no videoclipe de Vogue junto com Salim Gauwloos, a música foi lançada e teve um dos maiores desempenhos comerciais da época, tornando-se o maior sucesso de Madonna até os dias de hoje. A presença do voguing dançado no videoclipe trouxe a expressão artística ao modismo.

 

Clipe oficial de Vogue (Reprodução: Madonna | Youtube).


A segunda temporada da série Pose, transmitida em 2019 pela FX, retrata o lançamento da música como um marco importante para a cena. O videoclipe apresentou um elemento da Cultura Ballroom para a massa. Na trama, os personagens passam a ser vistos pela indústria e, consequentemente, recebem oportunidades em áreas correlatas a dança e moda. Portanto, pode-se dizer que o videoclipe de Vogue foi um importante elemento para a difusão da Cultura.

Embora o documentário Paris is Burning, dirigido por Jennie Livingston e lançado em agosto de 1991, não seja uma produção tão popular no Brasil, também teve seu papel na divulgação do movimento. Com o passar dos anos, outros produtos audiovisuais fomentaram a Cultura Ballroom ou elementos dela, como a Rupaul’s Drag Race (2009), competição de drag queens apresentada e idealizada por RuPaul, a própria série Pose (2018) já citada, que alcançou sucesso no Brasil e no mundo e, ainda, Legendary (2020), um reality show de competição de voguing lançado e distribuído pela HBO Max.



É indiscutível a importância dessas obras no processo de difusão da Cultura Ballroom e a influência desses produtos na cena nacional ao decorrer dos anos. Como efeito disso, a história do movimento Ballroom brasileiro se inicia de forma inversa, tendo acesso à dança antes mesmo de conhecer o Ballroom e as demais categorias de uma ball. Embora o voguing, enquanto expressão artística, já estivesse sendo estudado no Brasil por profissionais de dança desde os anos 2000, esse estudo autodidata se potencializou com o advento do Youtube em 2005. Todas as regiões do país precisaram contar com pessoas predispostas a fomentarem a cultura, já que esses dançarinos recorriam à internet para realizarem suas pesquisas e nem todas as pessoas tinham acesso à rede.


Em 2008 já existiam aulas de técnicas do voguing no Rio Grande do Sul e a Ballroom, através da dança, ganhava cada vez mais espaço. Mas o sentido de cultura ou comunidade surge em 2011 com o início da House of HandsUp, primeira Kiki House do Brasil, comandada pela mother Kona em Brasília. Simultaneamente, algumas figuras importantes propagavam a Cultura espalhadas pelo país. Entre essas figuras, Isis Brunna, conhecida na cena como mother Teena Mutatis, pesquisadora do movimento desde 2015, cita Felix Pimenta, Diego Cazul e Luana Emunah. “Costumo pensar que essa foi a primeira geração da Ballroom BR”, disse a co-fundadora da Casa de Mutatis, “esses, entre outros, foram e são os pioneiros da cultura aqui”. Mayk Gonçalves, conhecido como father Gooliver Capiva na cena, menciona ainda o Trio Lipstick, grupo de Belo Horizonte composto pelas dançarinas Maria Teresa Moreira, Paula Zaidan e Raquel Parreira. Pioneiras da cena em BH e responsáveis por criarem o primeiro festival do país, o BH Vogue Fever, que se tornou o maior festival internacional de vogue da América Latina, essas mulheres dedicam seus trabalhos e estudos ao voguing e ao movimento Ballroom desde 2011.
 
A cena Kiki e a cultura brasileira nas balls

Com o passar dos anos, além das casas originárias nascidas em Nova Iorque terem começado a se expandir para outros estados e até mesmo outros países, novas casas foram iniciadas e novas formas de se viver as balls surgiram, se fazendo necessário o reconhecimento e a afirmação do nascimento de um novo cenário: a cena Kiki da Cultura Ballroom.

Antes de mais nada, é preciso levar em consideração que a cena Mainstream (corrente principal) é a cena inicial da Cultura, sob a qual foram fundadas as primeiras casas do movimento. Hoje, a cena Mainstream tem mais visibilidade midiática, maior refinamento sobre as categorias, e, em sua maioria, mais regras de funcionamento. Já as Kiki houses têm se movimentado em prol de uma cena mais regional e genuinamente brasileira, apontando para um caminho tecnicamente “mais livre dessas regras de funcionamento, justamente por ter um caráter mais jovial e ainda de aprendizado”, explica mother Teena. Para ela, o fato dessas casas nascerem no Brasil implica numa constante discussão e retroalimentação da pluralidade da cultura brasileira com a Cultura Ballroom. 

Assim, cada vez mais, as Kiki balls têm incluído elementos da cultura brasileira nas modalidades e nos estilos originários. Entre as principais variações, frutos da interação e da integração entre essas culturas, estão as modalides Batekoo, Passinho, Samba no Pé e Frevogue, estilos fielmente brasileiros.

 

Team Brazil Mortal Kombat exemplificando essa integração na ball "Free Agenf 4" realizada em Paris (Reprodução: Kendrick Mugler | Youtube).


Gooliver menciona também o Pombagirismo, que acontecia nas festas Dengue, existentes desde 2013 em Belo Horizonte. Pioneira na realização de batalhas e duelos de voguing, a Dengue denominava Pombagirismo toda performance de caráter experimental em que pessoas que não tinham técnicas de vogue, mas que tinham alguma movimentação, decidiam participar de batalhas. Diga-se de passagem, o termo é mais uma das expressões que conectam a Cultura Ballroom à ancestralidade negra.

Esse movimento em torno da criação de novas formas de se viver as balls começa quando os participantes da cena sentem a necessidade, não só de se apropriarem da Ballroom e de acrescentarem à Cultura, mas de adaptarem as balls ao cenário brasileiro. Além de variações nas categorias de dança, as categorias de estética também começaram a se adequar, uma vez que categorias como Body, criadas para um corpo padrão, não contemplavam a cena do país. “Os homens que caminham em Body lá fora são caras musculosos e dotados, enquanto as mulheres são siliconadas, com cirurgias no rosto, nos seios e no quadril”, relata Kecin Andrade, conhecido na cena Mainstream e Kiki, respectivamente, como Benjamin Mizrahi ou Benjamin Avalanx. Dada a realidade em que as pessoas LGBTQIAP+, sobretudo as pessoas transgênero, vivem no Brasil, reproduzir uma categoria baseada na busca por um corpo padrão não condiz com a realidade das nossas periferias. “Não é toda travesti que quer buscar uma passabilidade que a mulher trans de Nova Iorque ou de Paris busca”, comenta Benjamin. “As categorias lá fora refletem muita binariedade e passabilidade. E quando chega no Brasil, a gente tira esse foco porque nossa realidade e nossa comunidade não vive isso”, completa o artista.
 
Decentralizando o movimento

Ao passo em que a cena Kiki brasileira vai se movimentando em prol de uma Cultura cada vez mais abrasileirada e mais inclusiva possível, fazendo jus aos motivos que levaram as pessoas trans, negras e latinas do Harlem a criarem o movimento, surge uma nova narrativa que, assim como Crystal Labeija em 1973, busca a retomada do Ballroom, mas dessa vez por parte de pessoas periféricas.


Nesse contexto, nasce uma leva de casas Kiki que buscam descentralizar o movimento e, assim, contribuir para que pessoas LGBTQIAP+, pretas e periféricas, tenham acesso à Cultura Ballroom. Essas casas defendem que a presença da periferia na Ballroom e da Ballroom na periferia são condições essenciais para mostrar que a Cultura não existe para ser elitista e “têm ajudado pessoas periféricas a repensarem seus lugares na sociedade, e ainda desenvolverem as suas próprias potencialidades”, afirma mother Teena Mutatis, cuja casa tem se movimentado em torno da temática.

Em 2018, criada pelas mothers Teena Mutatis e Bonnie Mutatis, nasce a Kiki Casa de Mutatis. “Nós percebemos que deixar para as poucas houses o trabalho de desenvolver a Cultura era uma responsabilidade que precisava ser compartilhada”, relatou Teena. Promovendo uma ball fora do centro, as Mutatis realizaram a primeiro Ball na Laje na periferia do extremo leste da cidade de São Paulo. O evento criado no Facebook para a divulgação da ball, continha em sua descrição o texto: “Zona Leste vive por si só! É explosão cultural, é identidade! Centro que nada, o corre mesmo é na ZL...”, que elucidava ainda mais a proposta da Casa. Para Natan Lopes, 20, morador do extremo leste que só conhecia o movimento através da série Pose, o evento foi de suma importância. “Foi a primeira oportunidade que tive de conhecer a cena perto de mim, não na internet ou na série. Foi bem emocionante ver o que já acontecia no centro, acontecer em plena ZL”, relata o jovem.


Categoria "Primeira Forma (Old Way)" da Ball na Laje, realizada na periferia da zona leste da capital paulista (Reprodução: Ballroom São Paulo | Youtube).


Parte das casas que compõem a nova cena, a Kiki House of Capiva, nascida na periferia da Grande Belo Horizonte em 2021, também tem como um dos objetivos principais a descentralização da Cultura. Em meio às casas cujos nomes são relacionados à grifes e moda, a House of Capiva, bem como outras casas da cena brasileira, estreou com um nome baseado em representações regionais. Capiva é abreviação para “capivara”, o animal é símbolo de Belo Horizonte. “No começo isso causou estranheza em algumas pessoas, mas não me preocupa. Isso trouxe a essência da nossa house”, avalia father Gooliver Capiva, fundador da casa.

Gooliver afirma que o processo de descentralização é mais difícil do que parece. Movimentar a cena nas periferias vai além de apenas decidir fazê-la. O trabalho e a movimentação precisam ser feitos coletivamente. Mas o pai da Capiva relata que apesar de ter realizado reuniões em que a temática foi levantada, e de ter promovido a ball de estreia da House na periferia, muitas vezes o discurso não passa de “papo”. “Eu entendi que as pessoas ainda não querem descentralizar. É cômodo eles irem só aos lugares mais habitados por corpos brancos e cis”, alega. Além de expor a falta de apoio e de apreço à ideia de descentralização por parte de alguns participantes, existe também a falta de apoio governamental. Esse apoio é essencial para que as balls sejam espaços seguros de homofobia e transfobia para a comunidade.

“A gente vai continuar lutando para isso, não só pela Cultura ter nascido na periferia, mas porque nós vemos que muitas pessoas trans periféricas não têm consciência de que existe um espaço e uma comunidade para elas. Um lugar que não seja apenas um espaço de lacração ou uma balada de sexta-feira à noite. Já passou do momento de levar a Ballroom para a periferia”, finaliza father Gooliver.
 
O impacto na vida de pessoas LGBTQIAP+ e periféricas

Mesmo diante de todas as dificuldades e transformações que fizeram do movimento Ballroom o que ele é hoje, o sentido e a motivação que sustentam a resistência das balls e dos participantes que as fazem acontecer continuam os mesmos: acolher, ensinar, incluir e potencializar corpos não hegemônicos, além de estimular a expressão artística entre essas pessoas. É importante que a Cultura Ballroom seja difundida, sobretudo nas periferias, para que corpos marginalizados possam se enxergar possíveis e representados, não só nas mídias, mas no dia a dia, como aconteceu e tem acontecido com os entrevistados desta reportagem.

“A Ballroom salvou a minha vida. Me entender, entender até mesmo meus privilégios, entender as minhas lutas e a luta das outras pessoas é algo incrível”, conta Benjamin Avalanx/Mizrahi que compartilha de uma história superada com o encontro da Ballroom. Benjamin relata que sofreu abusos na infância, mais tarde se desligou da igreja e foi expulso de casa, e que o movimento foi essencial para que ele pudesse ter um reencontro consigo mesmo. “Quando eu participo de uma ball eu consigo celebrar a minha vida e a vida das pessoas que eu amo. A Ballroom precisa continuar expandindo para que vidas sejam mudadas como a minha foi”, completa.

Assim como Benjamin, father Gooliver compartilha da mesma experiência de desligamento com o cristianismo e da aproximação com o Ballroom após isso. Para ele, o movimento foi um lugar capaz de fazê-lo compreender a existência de um espaço que ainda o acolheria. A partir disso, Gooliver procura contribuir para a cena com a Kiki House of Capiva tendo como base a proposta da casa: “descentralizar, captar e distribuir”, salientando a importância de não esquecerem nunca de suas origens, as mulheres trans, fundadoras do movimento. “Algumas pessoas só pensam em entender o LGB, e só às vezes o T”, reforça o father da Capiva.



É importante também enfatizar o valor do voguing para os dançarinos que conheceram a expressão antes ou a partir do Ballroom. Para além de um estilo ou modalidade de dança, o voguing traz consigo o poder da reafirmação ou representação de identidades de gênero e sexualidade. “Quando eu danço vogue, me sinto muito feliz. É muito importante para mim”, comenta Vinício Brasil, integrante da Kiki House of Capiva. “É quando você pode ser realmente você. É se reafirmar num lugar com pessoas que pensam e agem da mesma forma”, afirma o dançarino.

Por fim, é incontestável a relevância da Cultura Ballroom para o cenário LGBTQIAP+ preto e periférico do Brasil. Acompanhar o movimento e notar, não seu ressurgimento, mas sua ascensão com o reforço das produções audiovisuais supracitadas, é ter o privilégio de conhecer, poder fazer parte de um movimento como este e, mais uma vez, ver-se representado de alguma forma. O movimento Ballroom brasileiro, em sua diversidade e formas de ser realizado, é um meio de produção cultural com enorme potencial de ser, futuramente, um movimento autossustentável. Porém, ainda é necessário que existam iniciativas públicas de apoio financeiro que alcancem a Cultura Ballroom, ou que o comércio, especialmente os setores envolvidos com a comunidade LGBTQIAP+ de alguma forma, invista no movimento. “A gente precisa desse suporte do estado para poder fazer acontecer e para pagarmos todo mundo. Isso também é importante para conseguirmos difundir a cultura”, finaliza father Gooliver, que além de participante da cena, também trabalha na produção de balls.

Apesar dos obstáculos e embora a Ballroom, assim como outras importações culturais, tenha vindo ao Brasil através de pessoas que moravam distantes da periferia, hoje, muitos dos que participam da Cultura são periféricos e apontam para uma descentralização e retomada da cena, criando novas redes de apoio e apresentando novas possibilidades para corpos LGBTQIAP+ das quebradas.


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