17/04/2022 às 17h59min - Atualizada em 16/04/2022 às 17h19min

A importância do estilo musical jazz, que foi aclamado no Grammy 2022

O triunfo do jazz com Jon Batiste como o grande vencedor da noite abre espaço para a discussão da importância desse estilo

Ana Lara Venturini - Revisado por Isabelle Andrade
(Foto: Reprodução / Google Images).

O jazz é um estilo musical que nasceu nos EUA na região de Nova Orleans entre os séculos XIX e XX. O jazz é uma manifestação artístico-musical que tem como berço a cultura afro-americana, tendo origem na cultura popular e na criatividade das comunidades negras que ali viviam, sendo um de seus espaços de desenvolvimento mais importantes. Possui caracteristicamente um ritmo não linear e sua maior marca é a improvisação. O jazz influenciou muito o mundo todo em todas as suas épocas e continua influenciando até hoje, principalmente a música moderna e como outras áreas artísticas como a literatura e a moda, além de influenciar pensamentos e comportamentos.

O surgimento do jazz veio da cultura africana pois as pessoas que foram capturadas na África e que eram levadas a solo norte-americano para serem escravizadas tinham na música e no canto uma espécie de "refúgio" no qual podiam se expressar, e era uma libertação emocional. Para alguns, o jazz faz lembrar de tempos opressivos, mas para outros, ele representa o início do reconhecimento da história negra e da cultura americana.

Foi por volta dos anos 1920 que essa vertente musical ganhou espaço em outros locais e passou a fazer parte também da vida cultural da elite. Além disso, nesse período novas tecnologias e maneiras de comunicação aparecem, como o rádio, possibilitando que o jazz se difundisse em várias partes do mundo.

É relativamente difícil estabelecer uma definição para esse estilo musical, visto que são diversos os estilos de jazz, portanto suas características também se alteram de um para outro, entretanto, podemos dizer que, no geral, algumas particularidades se mantêm. Ele é marcado pela improvisação, o swing e os ritmos não lineares, a liberdade, o improviso, a interpretação individual, a criatividade e a sonoridade dançante. Após o surgimento de outros estilos como o rock, o funk e o pop, o jazz passou a se fundir com esses estilos dando origem ao que chamamos de fusion. Assim, o estilo passou a incorporar elementos eletrônicos dando origem ao jazz contemporâneo.

No Brasil, o surgimento do jazz esteve, a princípio, muito colado ao que se fazia nos EUA. O estilo no país era feito como imitação das jazz bands norte-americanas. Mais tarde, no final da década de 50, foi criado um tipo de música jazzística especificamente brasileira chamada de Bossa Nova, com características parecidas com a do jazz.

 

A importância

Música boa não tem prazo de validade, segundo Charles Mingus, a música jazz é a língua das emoções. Art Blakely já dizia "o jazz limpa a poeira do dia a dia". Desse modo, o jazz continua ainda hoje a ser muito popular. É um gênero musical difícil de descrever, mas fácil de reconhecer, embora este gênero musical seja muito conhecido, muitos não sabem até que ponto o jazz influenciou a nossa vida moderna.

Por exemplo, muitos não sabem mas o jazz influencia o nosso cérebro. De acordo com especialistas em psicologia, o jazz reduz os níveis de stress. O stress é o inimigo da memória, mas ele pode ser derrotado escutando  jazz, pode ajudar a estudar ou a aprender uma nova competência. O jazz também é um estimulante, diversas zonas do cérebro de um músico de jazz são estimuladas ao tocar pois ele tem de pensar de forma crítica e criativa. O músico tem de utilizar os seus conhecimentos técnicos que precisa para tocar o seu instrumento ao mesmo tempo que são desafiados a escutar o desempenho dos seus colegas e a atuarem em conjunto.

O jazz influenciou muito a música moderna. Ele se desenvolveu muito no século XX, principalmente nas comunidades afro-americanas no sul dos Estados Unidos, graças à popularidade e energia do jazz, ele também foi absorvido por outros gêneros musicais, incluindo pop, rock e hip-hop. O rap freestyle, no qual o cantor improvisa a letra, estabelece um certo paralelismo com o improviso dos músicos de jazz, os cantores pop também atuam com músicos de jazz, como por exemplo a Beyoncé.

O jazz influenciou também a literatura, durante a década de 1920, poetas como T.S. Elliot, Carl Sandburg e E.E. Cummings escreviam com menos formalidade e não se preocupavam muito com o estilo convencional. A poesia evoluía ao mesmo tempo que crescia a popularidade do jazz. As duas formas de arte foram combinadas para criar o jazz poético, que incluía não só referências literais ao jazz como também reproduzia o estilo da música.

O jazz influenciou até a moda, "As Flappers" – jovens prostitutas ou adolescentes animadas - utilizavam o jazz para manifestarem a sua revolta face à sociedade e, visto que o jazz é uma música tão adequada para ser dançada, as roupas tinham que condizer com o momento. Os estilos vitorianos do período pré-guerra não eram favoráveis à dança, assim, a revolução do jazz conduziu também a uma mudança no mundo da moda. Primeiro foram introduzidas as cintas descidas e mais tarde passou a ser moda vestidos totalmente sem definição da cintura. Os penteados também sofreram alterações. O corte bob tornou-se bastante mais popular do que o cabelo comprido porque, tal como com as roupas mais largas, era mais fácil dançar com o cabelo curto. A publicidade agarrou esta tendência e durante a década de 1920 um número cada vez maior de mulheres comprava revistas de moda.

O jazz influenciou toda a sociedade. Após a guerra, as mulheres queriam conquistar a sua posição individual, fora dos seus papéis familiares de esposas e filhas. O jazz garantia-lhes um escape dessa vida. O jazz também criava empregos para as mulheres na indústria da música e permitia a aceitação de músicos femininos. A nova geração procurava um novo visual, o jazz também tornou a cultura afro-americana desejável, elevando-a e garantindo empregos aos músicos negros.

 

Grammy 2022

A edição do Grammy 2022 teve o jazzista Jon Batiste, de Nova Orleans, como grande vencedor da noite. Ele venceu em 5 categorias incluindo o principal prêmio da noite de melhor álbum do ano, com "We Are". O triunfo do jazz no principal evento de música do mundo em 2022, época em que os astros do pop dominam praticamente todas as plataformas, diz muito sobre como a sua importância impera diante da sociedade atual apesar da ascensão de outros estilos, e abre espaço para a discussão do poder da música.

O álbum "We Are" do pianista e vocalista americano Jon Batiste é um álbum de jazz inspirado no movimento Black Lives Matter, e foi a estrela do Grammy 2022. We Are é inspirado nos anos em que Batiste viveu em Nova Orleans. Essa foi a segunda vez que um artista negro recebe esse reconhecimento. O disco conta com treze faixas que misturam o jazz com o R&B, o soul, o rap e o gospel. “Duke Ellington, meu maior ídolo, uma vez disse que deveríamos descategorizar os gêneros musicais. Foi isso que decidi fazer”, explica.
 

"Eu amo a música. Eu toco desde que era criança. A música é mais que entretenimento para mim, é uma prática espiritual", disse Batiste ao receber o prêmio mais importante da noite.


Apesar de ser o artista com mais indicações da noite, ao todo foram 11 indicações, Batiste disse que a vitória foi "surreal". "Eu realmente não faço pelos prêmios", declarou.


No entanto, apesar de ser o líder em indicações e vitórias, gerou-se protestos dentre os muitos fãs que não conheciam o músico por ter levado a estatueta de álbum do ano, a mais aguardada da noite. Dentre os dez indicados para álbum do ano ele era certamente o mais desconhecido daqueles que acompanham a música em geral, competindo com os nomes mais populares dos últimos anos, como Lil Nas X, Billie Eilish, Olivia Rodrigo, Taylor Swift e Kanye West.



Jon Batiste ganhando o prêmio de Álbum do Ano com "We Are" (Reprodução: YouTube - Reccording Academy / GRAMMYs).
 

Mas afinal, quem é Jon Batiste?

Jon Batiste é o jazzista que inspirou animação “Soul” da Disney Pixar. Embora seja reconhecido por seu talento entre os músicos, tendo até três indicações passadas ao Grammy em categorias de menor popularidade, seu grande momento veio no fim de 2020, quando ele compôs a trilha sonora para o filme “Soul” e serviu de inspiração para o professor Joe Gardner, um professor de música que fez sucesso no filme. Tal como o personagem do filme, Jon Batiste também abraçou a missão de levar o gênero musical às novas gerações, mais afeitas ao pop e ao hip-hop. “Jazz é uma música que explora o poder da alma humana. É divino”, disse Batiste em entrevista no ano passado a VEJA.

Com esta música, ele venceu o prêmio de Melhor Trilha Original no Oscar e Globo de Ouro, fazendo de Jon Batiste o segundo homem negro a ganhar este prêmio e o primeiro desde 1987. Com “Soul”, Jon recebeu três indicações ao Grammy de 2022, mas outras oito nomeações ainda se deram por seu álbum próprio "We Are" lançado em março de 2021.

 


 

Com “We Are”, Jon se tornou o primeiro negro a vencer o Grammy de melhor álbum do ano desde 2008, concedido ao pianista de jazz Herbie Hancock. O disco de Jon é seu trabalho que fura a bolha, e embora não tenha conquistado muitos números, tem sonoridades para todos os gostos: do Soul ao R&B, trazendo corais gospel e uma pitada de positividade que é muito necessária nessa reta final de pandemia.

O álbum "We Are" traz muito da juventude do artista, sendo uma obra nostálgica e sincera o suficiente para cativar qualquer ouvinte. Quando não pega pela letra, os vocais do artista são muito bem apresentados e arranjados, acima de uma bela instrumentação que soa luxuosa e cara em cada gênero que pisa. Assim, é possível dizer que Jon é o músico mais talentoso dos indicados ao posto de álbum do ano e isso certamente pode ser percebido ao longo da obra. Apesar de trazer funk, soul e jazz, a obra não soa datada, colocando um ar atual na mixagem das faixas. É uma reunião de diversos aspectos não só da vivência, mas também da arte negra estadunidense, colocados com ares esperançosos.

Batiste ganhou fama nos Estados Unidos como integrante da banda do talk-show do humorista Stephen Colbert. Já lançou nove álbuns, todos voltados ao jazz. Com seu jeito expansivo e simpático, Batiste conseguiu colocar novamente em evidência um gênero que nem sempre empolga as massas como mereceria. E ele não tem pudor em valorizar sua façanha. Sem modéstia, o pianista descreveu o disco "We Are" como uma “obra-prima do pop negro”.

 


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