18/04/2022 às 19h35min - Atualizada em 18/04/2022 às 16h47min

Crônica | Retrato de quebrada

Entre trancos e barrancos, há beleza nas quebradas

Gustavo Oliveira - Revisado por Flavia Sousa
Há beleza nas periferias. (Foto: Reprodução/Gustavo Oliveira)

Igual a todos os dias, hoje cedo eu saí para trabalhar. Madraço, preguiçoso, como sempre. Olhei em direção à casa 160, cuja varanda me encara corriqueiramente, propícia para amizades de janela, nunca me dando a opção de ficar devendo o “bom dia” a quem de lá me cumprimenta. Vira e mexe mudam-se os inquilinos, mas dessa vez um dos elementos da paisagem não me era estranho. Não tão diferente dos fios, que texturizam a vista, e das casas não rebocadas, que são peças fixas dos cenários que compõem qualquer quebrada, ali o menino era figurinha repetida. Tal qual a rabiola, que se movimenta no emaranhado de fios até se desprender, cada hora ele aparece em uma rua por aí.


 
Digo isso porque esse moleque tinha sido elemento de outra paisagem, um dia desses. Lembro-me dele personificando um dos tópicos da crônica Futebol de Rua de Luis Fernando Veríssimo - e ele personifica todos -, quando me veio em coro uníssono, com outros moleques do bairro, pedir a bola que havia sido arremessada no meu quintal. Lembro-me, também, dele fazendo birra no mercadinho da esquina outro dia, queria o que a mãe não podia dar. Outra vez me pediu ajuda com a pipa que estava presa no muro que separa a minha casa da sua, uniforme da prefeitura, pé descalço e um olhar folgado. Periguei dizer “não”, mas não queria ter minha casa depredada…

No mais, todo esse rodeio me fez refletir sobre como os pormenores trivialmente efêmeros, nas periferias, beiram o atípico, ou o lúdico, ou, e sobretudo, o belo. E, parafraseando Tulipa Ruiz em Efêmera, essas coisas passam por nós, meio perecíveis, se acabam, se despedem, mas a gente de quebrada nunca esquece. Ainda a caminho do trabalho, indo para o ponto de ônibus, gostei de pensar que as ruas, espremidas, pediam licença para passar entre as casas e pelos gatos de rua, por exemplo; ou que as pichações se apresentavam, enquanto os grafites encaravam e me cumprimentavam, tipo o menino supracitado, e os muros vazios imploravam por uma intervenção artística. Durante o trajeto, me dei o luxo de me imaginar numa pintura da Gra-Z Moura algumas vezes.


Retrato de quebrada. (Reprodução: Gustavo Oliveira | Youtube)


Quando o dia promete noite quente, a vista do final da tarde fica deslumbrante. Sinal de que vai ser um barato. Nesse clima é difícil dormir cedo. Imagino que seja pior para quem divide poucos e pequenos cômodos. A vizinha da frente, por exemplo: cinco filhos em um quartinho. Não demora muito para que a gente comece a escutar algum dos pequenos contando em alto e bom som enquanto o barulho de passos desesperados atravessa a rua até sumir. Entre eles o menino do 160. Aposto que eles chegam em casa tão cansados que se esquecem do calor.



 Até o finalzinho do dia, pelo menos metade dos vizinhos já terão saído para a calçada. Se o bairro ficar sem energia elétrica então… aí que ela lota. Fato é que em noites assim a moça do gelinho natural sempre fatura.

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O desafio de ser artista na periferia


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