10/05/2022 às 20h01min - Atualizada em 10/05/2022 às 19h47min

O horror pelo imaginário infantil: 'House' de Nobuhiko Obayashi

Filme experimental é um dos mais célebres do cineasta

Vinicius Lima Vieira - Revisado por Flavia Sousa
Apesar de efeitos bobos e mal aplicados, 'House' brinca com a imaginação fértil de uma criança enquanto mostra os efeitos da guerra - mesmo anos após seu fim. (Foto: Reprodução/Toho via Pinterest).

Na década de 1970, a indústria cinematográfica japonesa passava por um momento difícil. Os engravatados das grandes produtoras de filmes do país se perguntavam: como podemos atrair o público com um material novo e divertido?

Então surge o cineasta Nobuhiko Obayashi. Natural de Onomichi, o primeiro contato do diretor com cinema foi quando seu pai, um médico do exército, lhe presenteou com uma câmera de 8mm. Contando com diversos anúncios publicitários em seu portfólio, Obayashi foi escalado para escrever o roteiro de um novo filme para a Toho - apenas uma das maiores produtoras e distribuidoras de filmes do Japão.

Para o roteiro do filme, Nobuhiko teve uma ajuda inesperada: a de sua filha Chigumi, à época ainda uma garotinha. O diretor perguntou à pequena o que a assustava. Ela relatou um medo de seu reflexo no espelho se virar contra ela, e disse também que seus dedos ficavam tão cansados e machucados depois das aulas de piano, que parecia que o instrumento estivesse a mastigando.

Seguindo a ideia da filha, o cineasta apresentou a ideia aos chefões da Toho, que apesar de acharem esquisita, decidiram dar prosseguimento da produção. Eventualmente, Obayashi foi apontado como diretor do longa.

A calma antes da tempestade. (Foto: Reprodução/Toho via Pinterest).

A calma antes da tempestade. (Foto: Reprodução/Toho via Pinterest).



“House” (ou “Hausu”, no original em japonês) pode ser descrito como um filme de terror experimental. A história acompanha sete amigas que decidem passar as férias de verão na casa da tia de uma delas. Mal sabem que a casa é assombrada e que os piores horrores estão esperando por cada uma delas.

Cada garota recebe um apelido que combina com sua personalidade: Gorgeous, a “líder” do grupo, é também a patricinha, sempre arrumada e bem vestida; Fantasy é a lunática, a que sempre sonha acordada e vive num mundo de devaneios; Kung Fu é a mais corajosa, a mais forte e, como seu apelido sugere, a que tem conhecimento das artes marciais chinesas; Prof é a mais inteligente; Sweet é a garota meiga e prendada, quase uma mistura entre as personagens Gorgeous e Fantasy; Melody é a mais proficiente em instrumentos musicais, sendo a maior fã de música que podemos conhecer, enquanto Mac é a gulosa e está sempre comendo, praticamente uma Magali.

A casa, tendo vida própria e trazendo objetos inanimados à vida, é assombrada por um fantasma talvez não tão comum aos olhos das pessoas: o luto. A tia de Gorgeous perdeu seu noivo durante a Segunda Guerra Mundial, quando ele havia sido convocado para servir ao exército. Incapaz de seguir em frente com a própria vida, e de perceber que esta tragédia afetou diversas pessoas e não apenas ela, a mulher padece, mas sua tristeza, raiva e angústia permanecem vivas em cada cômodo da residência.

O filme traz a dor do passado, que vira trauma transgeracional. O luto da tia se torna o de sua sobrinha e suas amigas que, assim como ela, não poderão viver além da casa. Fantasy nunca poderá viver o romance com o qual ela tanto sonha, Melody nunca poderá estudar música e Kung Fu nunca poderá se tornar uma lutadora profissional. Pensando por este lado, o filme se torna mais triste do que assustador.

Fantasy é atacada pela cabeça decepada de Mac. (Foto: Reprodução/Toho via Pinterest).

Fantasy é atacada pela cabeça decepada de Mac. (Foto: Reprodução/Toho via Pinterest).



A edição pode parecer jocosa e mal feita, mas isso se deve à falta do uso de storyboards durante sua produção. Mas isso não significa que o filme erre neste quesito, do contrário, adota um ar surrealista, como se as garotas entrassem num mundo onírico assim que colocam os pés na mansão. Dá para comparar um pouco da edição com a do filme Quando Fala o Coração (1945) dirigido por Alfred Hitchcock, com uma sequência criada por Salvador Dalí.

“Hausu” é um filme que investiga o que é assustador no olhar e na mentalidade infantil. O medo irracional que apenas crianças possuem e que, muitas vezes, não conseguem explicar. Mas Obayashi se aproveita da imaginação fértil de sua filha para falar de algo que pode arruinar a vida de qualquer família, não importa a geração: a incapacidade de seguir em frente. Neste sentido, podemos dizer que aquilo que aprendemos com os nossos pais, ou que aprendemos com uma situação específica que vivemos, nem sempre deve ser passado adiante.


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