23/05/2022 às 08h59min - Atualizada em 23/05/2022 às 08h51min

Um carnaval de resistência e memória social

Após mais de dois anos de enfrentamento à pandemia, o carnaval retorna em 2022, fora de época e regido por alguns cuidados incomuns à festividade, mas abastecido de resiliência e alegria.

Lívia Nogueira - Revisado por Flavia Sousa
O carnaval de 2022, apesar das inseguranças e dos protocolos, deu show de resiliência e homenageou símbolos culturais e históricos, principalmente das matrizes africanas (Foto: Mauro Pimentel/Reprodução: DW).

Com o retorno da tradicional celebração carnavalesca brasileira este ano, as famigeradas escolas de samba ressurgiram nas avenidas, abordando temáticas de relevância social e homenageando figuras históricas de referência, unindo revolução e arte. Apesar de ter sido adiada de sua data convencional, a festa reuniu grande público e repercutiu na mídia. 

Entre os foliões e colaboradores da festividade, havia uma grande expectativa quanto ao retorno, que foi realizado no final do mês de abril, cerca de 25 meses após a última comemoração de carnaval. Todos os personagens envolvidos na festa reuniram-se movidos por energias de resiliência, respeito e saudade. 

Para além dessa exaltação de um evento de grande relevância para a cultura e para a história de toda uma nação, importante motivação foi a retomada de um acontecimento que gera renda para as pessoas envolvidas em organizações e prestações de serviço no carnaval. Esse retorno também denota sobrevivência para esses indivíduos.

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Carnaval tem história

Apesar de ser fortemente ligada à história brasileira, a comemoração tem suas raízes fincadas ainda na Antiguidade, quando deuses e cidadãos das diversas camadas sociais e em variadas regiões do mundo viviam um evento que permitia confraternização e até trânsito entre essas classes tão definidas e segmentadas nessas sociedades.

O carnaval começou a ser celebrado no Brasil no período Colonial, quando brincadeiras eram praticadas, precipuamente, entre as classes mais baixas economicamente. Os denominados entrudos eram exemplos desses movimentos, que eram praticados até meados do século XX. Neles, indivíduos escravizados jogavam elementos como urina e lama uns nos outros nas ruas. 

A partir daí, manifestações como cordões, escolas de samba, frevo e maracatu foram incorporados e seguem fazendo parte das festas de carnaval, assim como outras intervenções, que ocorrem anualmente, com exceção apenas do período pandêmico.

Além do Brasil, regiões como Veneza, na Itália, e Ilhas Canárias, na Espanha, celebram a festa. Ainda assim, a comemoração segue sendo mais forte na cultura brasileira, o que deu reconhecimento mundial ao carnaval.

Cortejo e resistência 

Com a liberação das festas com público, após um longo período de necessário distanciamento social e restrição desse tipo de manifestação, as escolas de samba, que são mais conhecidas nas cidades do sudeste do Brasil, puderam organizar-se para sair às avenidas de desfiles, com temáticas anteriormente planejadas e bloqueadas pela pandemia ou novas ideias urgentes de serem abordadas. 

A atriz Juliana Alves, que desfilou no sambódromo como destaque pela Salgueiro, relatou sentir “emoção redobrada” nesse retorno. Segundo ela, “retomando com muita esperança e dando um novo sentido para as coisas. Alguns movimentos me sinalizam que a gente tenta dado um novo sentido. Tem alguns retrocessos, mas existe um chamado da valorização da nossa raiz cultural". Outros artistas e frequentadores também posicionaram-se com empolgação sobre o carnaval de 2022.

"Fala, Majeté! Sete chaves de Exu" foi o samba-enredo abordado pela escola de samba Grande Rio, a qual, inclusive, tornou-se vitoriosa entre as desfilantes no Rio de Janeiro este ano. A figura de Exú, orixá componente de religiões de matriz africana, foi, entre outras, desmistificada e exaltada no sambódromo.
 

Twitter de Sambas Enredo. (Reprodução: @DeEnredos - Twitter)


São Clemente foi uma das escolas que modificaram a temática a ser abordada diante da relevância da manifestação. Paulo Gustavo, o ator e humorista brasileiro, foi homenageado no sambódromo, após ser vítima fatal do vírus que assolou o mundo inteiro. O falecimento do artista chocou o País inteiro e a memória de Paulo foi relembrada também em homenagem a várias figuras que foram perdidas em decorrência da pandemia por Covid-19.

Outros enredos homenagearam personagens importantes para a história e cultura brasileiras e manifestaram temas altamente relevantes socialmente, com muita vibração e alegria.


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