13/09/2022 às 20h54min - Atualizada em 13/09/2022 às 20h06min

Cinema e transgressão: vida e obra do cineasta Pedro Almodóvar

O cinema vibrante e irreverente de Pedro Almodóvar protagoniza mulheres resilientes e expurga fantasmas da repressão

Everton Antunes - editado por David Cardoso
Diretor espanhol Pedro Almodóvar. (Foto: Reprodução/ Pinterest)

Mulheres fortes, histórias inusitadas e cores vibrantes. Ao assistir a alguns dos filmes do diretor Pedro Almodóvar, é bem comum identificar boa parte dessas características que tornam a sua narrativa singular. Vencedor de dois prêmios Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira – Tudo Sobre Minha Mãe (1999) – e Melhor Roteiro Original – Fale Com Ela (2002) –, Almodóvar reafirma sua relevância ao ser ovacionado no ano passado, em Veneza, pelo mais recente longa-metragem Madres Paralelas (2021). 

 

“O Almodóvar é um diretor fora da curva, ele fura a bolha do cinema mainstream e no Brasil isso se mostra de forma ainda mais acentuada”, considera Gabriel Pinheiro, jornalista e podcaster do Querido Cinéfilo. Para Gabriel Adams, doutorando em filologia espanhola, na Espanha o diretor é associado às telenovelas do país, enquanto que, no Brasil, o cineasta atrai o público do cinema “cult”, em razão do seu cinema primoroso e autoral. 

 

No entanto, para além do aspecto estético dos filmes, Pedro Almodóvar tem muito a contar sobre a sua paixão pelo cinema, teatro e dramaturgia, as cicatrizes de um país assolado pela ditadura de Francisco Franco – de 1936 a 1973 – e o subsequente período de transição entre um regime tirânico e o democrático. Diante disso, a transgressão foi a premissa de artistas como Almodóvar para expressar o que há alguns anos atrás não era possível. 

 

Breve Biografia

 

Pedro Almodóvar Caballero é diretor, produtor e roteirista e nasceu na cidade de Calzada de Calatrava, município da província de Ciudad Real, na Espanha, em 25 de setembro de 1949. Juntamente com a família, ainda na infância, o diretor muda-se para Cáceres e realiza sua formação em um colégio católico. 

 

Aos 17, o então aspirante a diretor se encaminha para Madrid e trabalha na Companhia Telefônica Nacional, a fim de comprar a primeira câmera com a qual realizaria seus primeiros curtas, uma super 8. O jovem cineasta também fez parte de um duo com o cantor Fábio McNamara e integrou o grupo de teatro Los Goliardos. Naquela época, Almodóvar também escrevia roteiros para fotonovelas, quadrinhos e revistas.

  

Em 1985, o cineasta fundou a produtora El Deseo, acompanhado do irmão Agustín Almodóvar, e segue produzindo filmes. Pedro reúne dois prêmios da Academia, outras duas premiações do Festival de Cannes de Melhor Diretor – Tudo Sobre Minha Mãe (1999) – e Melhor Roteiro – Volver (2006) e foi um dos principais expoentes da retomada cultural após a ditadura que assolou o país por mais de três décadas.

 

Características


 

Algumas características são notáveis em grande parte da filmografia do cineasta espanhol: o uso de cores fortes – o vermelho, principalmente; o verde e o azul – e a presença marcante de personagens femininas resilientes – as chicas almodóvar, apelido cunhado para identificar as atrizes com quem o diretor costuma trabalhar. Além disso, temáticas de paixão, sexualidade e religião são centrais nas temáticas do diretor. 

 

De acordo com Adams, o diretor “trabalha com aspectos não só emotivos, mas, para além disso, aspectos psicológicos de todos os personagens”. Ele ainda complementa: “[O Almodóvar] tem micro-narrativas que se convergem em uma só do meio pro final do filme. Ele consegue fazer isso com muita maestria.” 

 

Por outro lado, Gabriel Adams ainda aponta para a narrativa cotidiana do diretor ao dizer que ele retrata o “dia a dia das pessoas, como elas andam nas ruas, nos bairros, como as senhoras conversam entre si”, o que assemelha os seus filmes ao estilo novelesco. E, se cabe um adjetivo ao trabalho do diretor, este seria “transgressor”: o diretor traz à tona assuntos que chocam com a perspectiva católica e conservadora da Espanha, segundo Adams.

 

Movida Madrilenha   

 

A veia irreverente de Almodóvar não é desproposital, uma vez que o cineasta se reuniu a artistas como a cantora Alaska e a fotógrafa Ouka Leele em um movimento de contracultura que contestava o cenário cultural espanhol em um momento delicado: a transição para a democracia. 

 

A Movida Madrilenha foi um movimento de contracultura iniciado em 9 de fevereiro de 1980, na cidade de Madrid, cujo objetivo era reivindicar a liberdade de expressão após a ditadura do general Francisco Franco. Esse período foi marcado pela efervescência da cultura em Madri – marcada por bandas do cenário underground e punk espanhóis – e pela discussão de tópicos como as drogas e a homossexualidade. 

 

Eram grupos que “coincidiram com propostas, vontades, desejos por tanto tempo oprimidos. Artistas que não podiam se manifestar simplesmente”, explica o doutorando. Na filmografia de Pedro Almodóvar, é possível vislumbrar um pouco da atmosfera da Madri dos anos 80 em Pepi, Luci y Bom y otras chicas del montón (1980).

 

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