12/10/2022 às 19h43min - Atualizada em 12/10/2022 às 19h34min

A tradição religiosa e cultural do caruru

O tradicional caruru oferecido entre os meses de setembro a dezembro é manifestação da cultura popular

Karina Cassimiro - Revisado por Vanessa Kelly
Mesa com bolo e doces em comemoração à São Cosme e Damião. (Foto: Reprodução/Acervo pessoal).

O caruru é um prato tradicional feito com quiabo ofertado no dia de São Cosme e Damião, apesar dos santos serem do catolicismo, a forma de homenagem vem das religiões de matriz africana. Os santos católicos estão associados aos orixás da umbanda e candomblé, com isso o caruru também é servido no dia de Santa Bárbara, chamada de Iansã. Nos dias de homenagem, junto com o caruru são distribuídos doces para crianças.

Mesa com caruru e doces oferecidos aos santos.

Mesa com caruru e doces oferecidos aos santos.

(Fonte:Reprodução/Acervo pessoal).

 

Na Igreja católica, o caruru e doces são ofertados em 26 de setembro no dia de São Cosme e Damião. Na umbanda e candomblé é comemorado no dia 27. Os santos gêmeos médicos, são conhecidos por serem protetores das crianças, por isso algumas famílias ofertam o caruru no dia 12 de outubro. Já o caruru de Iansã é servido no dia 04 de dezembro.

 

Apesar da tradição ter se enfraquecido ao longo dos anos, a cultura e devoção persiste, famílias fazem promessas e a cultura passa por gerações. Durante a pandemia de COVID-19 e o período de distanciamento social, as famílias se reinventaram e criaram uma forma de distribuir o caruru em marmitex pela vizinhança.

 

O caruru de Santa Bárbara

 

lansã é a orixá dos raios e das tempestades, é uma deusa guerreira. No período colonial, o candomblé era proibido e os negros eram forçados a seguir a religião do catolicismo imposta no Brasil. Assim para continuarem cultuando a sua própria religião, o sincretismo foi a alternativa. Nesse sentido, pela semelhança, Iansã foi associada a Santa Bárbara.

  
Orixá Iansã.

Orixá Iansã.

(Fonte:Reprodução/Ocandomblé).

 

Segundo o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac)a homenagem a Santa Bárbara acontece desde o século XVII(1641), em Salvador. Inicialmente, a festa era realizada no Morgado de Santa Bárbara, no pé da Ladeira da Montanha, que pertencia ao casal Francisco Pereira Lago e Andressa de Araújo. Depois de um incêndio no local, a imagem e a celebração para a Igreja do Corpo Santo e, depois, para a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Largo do Pelourinho, onde fica até hoje.

 

Em 1912, nos festejos por comerciantes do mercado e devotas da santa, servia-se o caruru, como oferenda, o acarajé e outras comidas da culinária baiana. O preparo do caruru ficava sob a responsabilidade de uma mãe de santo com a ajuda de alguns integrantes do candomblé e da comunidade. O grupo era composto por mais de 50 pessoas que auxiliavam no corte do quiabo. Nos anos 1980, noticiavam que nas festas eram cortados cem mil quiabos, nessa época a oferta do caruru tinha grande presença da população. Nesse sentido, a culinária representa a comida de determinado lugar e faz parte do repertório cultural do seu povo, assim como o caruru que faz parte das festas populares e possui raízes históricas, resultado do entrelaçamento das religiões de matriz africana e católica.

 

A festa de Santa Bárbara é realizada há mais de 300 anos, de acordo com a tradição a última parada da procissão é o Mercado de Santa Bárbara onde é distribuído o caruru para a população. Em 2008, a festa de Santa Bárbara foi considerada patrimônio imaterial da Bahia. O decreto estadual 11.353/2008, do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), reafirma a importância da diversidade cultural e religiosa da festa.

 

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