01/08/2019 às 14h27min - Atualizada em 01/08/2019 às 14h27min

Quem faz o mercado geek se tornar uma tendência mundial?

A cada ano, o mercado geek ganha mais destaque mundial. Não à toa, a cultura pop movimenta cerca de R$138 bilhões por ano no mundo inteiro. O grande sucesso do setor é troca entre consumidores e mercado, ambos agindo em contínua expansão.

Carolina Rodrigues - Editado por Bárbara Miranda
Quarto da colecionadora Vanessa Reimberg | CRÉDITOS: Vanessa Reimberg
Tivemos a explosão do sucesso de filmes de super-heróis. Depois, pela primeira vez, a Comic Con Experience acontece no Brasil. Mais e mais séries tomam conta das nossas vidas, através das mais variadas plataformas de streaming. O público gamer aumenta a cada dia. Lojas investem em produtos da cultura pop. Ufa... Nunca na história estivemos tão geeks quanto hoje.

Ainda não foi cientificamente explicado por quê, mas todo geek que se preze possui algum item referente ao seu personagem favorito. Sejam HQs, pop funkos ou camisetas, todo amante da cultura pop reserva um espaço em casa para materializar suas paixões.

Os reflexos desse consumo contínuo se traduzem em pesquisas que diferenciam e mostram a potência desse público.

Comerciantes ao redor do mundo passaram a identificar o geek não apenas como nicho, mas como um segmento de mercado em crescente potencial. A Associação Brasileira de Licenciamento (Abral), mostrou que o mercado geek movimenta cerca de R$18 bilhões ao ano aqui no país.

Já a Associação Brasileira de Franchising (ABF) revelou um crescimento de 7% no mercado de franquias em 2018, somando R$160 milhões. Para esse ano, a ABF estima um crescimento de 8% a 10% em relação ao ano anterior.

Até 2020, o mercado de filmes de heróis deve ter um faturamento em torno de U$48 bilhões. É um grande crescimento em relação a anos anteriores, ainda mais após o boom da Marvel com Vingadores e o anúncio de filmes como Os Guardiões da Galáxia Vol. 3, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura e séries como WandaVision.

Aproveitando a tendência, muitas marcas estão sendo criadas e outras, de fast fashion, apostam na potencialidade da cultura pop.

Uma grande rede de roupas conhecida por sempre atualizar suas estampas com coleções alternativas de Star Wars e Harry Potter, por exemplo, desenvolveu um calendário geek para ficar sincronizada com próximos  lançamentos. Como efeito, a nova coleção da Stranger Things acompanhou a estréia da terceira temporada da série.

Outra loja, dessa vez uma brasileira especializada apenas em camisetas geeks, começou em 2010, com apenas R$5,6 mil. Seguindo o arranque entre 2013 e 2014, hoje ela possui o licenciamento da Warner, Disney, Fox e Netflix produzindo 25 mil peças por dia e com faturamento, em 2017, de R$123 milhões.
 
Em relação ao consumidor, entre maio de 2018 e abril de 2019, a empresa Rakuten Digital Commerce realizou uma pesquisa sobre os hábitos de consumo dos consumidores geeks no meio online.

Os dados mostram que esse público costuma gastar 40% a mais que a média nacional - R$543 contra R$329 dos consumidores comuns.

Seja na vida offline em eventos ou sebos, ou online, aguardando atualizações de lojas especializadas ou em longas buscas no Google, os geeks fazem o que podem para conseguir os itens que mais almejam.

E quando dão por si, estão com enormes e preciosas coleções.
 

Os colecionadores geeks


Raquel Santos, 35 anos, é fã de cultura pop desde criança. Capitão América, Homem de Ferro, Tartarugas Ninjas e Os Simpsons são apenas alguns dos personagens que mais marcaram sua vida. Mas, dentre todos, a verdadeira dona do seu coração é a poderosa Mulher Maravilha.
 
A coleção da personagem favorita hoje em dia | CRÉDITOS: Raquel Santos.

Ainda pequena, Raquel colecionava copos de heróis. Conforme foi crescendo, nunca deixou de lado seu amor pela cultura pop. A coleção, contudo, começou a aumentar de fato, após o casamento com um cara apaixonado por animes.

"Não sei nenhum nome de anime, sempre pergunto para ele", ela revela, acrescentando que adora eventos e cosplays, mas para os animes em si é uma negação. Prefere os filmes de herói e a Mulher Maravilha.

Mesmo assim, foi após o casamento que a coleção cresceu. "Eu comecei colecionando copos e baldes dos filmes que assistia no cinema ou colecionáveis que encontrasse em bancas. Quando comecei a namorar, ele me levava a eventos de anime e eu mostrava o quanto gostava de filmes de heróis". A combinação deu certo.

"Quando casamos, começamos a colecionar pop funkos e muito mais baldes e copos de filmes de heróis", Raquel atesta. A sintonia foi tanta que hoje o casal possui um quarto reservado somente para as coleções de funkos, HQs, miniaturas e, é claro, baldes e copos de super-heróis.
 
Uma parte da coleção de copos e baldes de Raquel | CRÉDITOS: Raquel Santos.

Colecionar virou sinônimo de hobby. "Tenho um amor por esse universo, algo próximo a uma identificação pessoal. Conhecemos esses heróis desde pequenos, quando assistíamos televisão. O gosto não mudou", finaliza.

Graças ao crescimento do mundo geek, Raquel conhece muito mais gente com os mesmos gostos nos eventos que frequenta e através do seu Instagram, no qual compartilha seu hobby com diversas pessoas por meio de publicações das várias coleções que possui.

Outra pessoa que ama heróis é David Fernandes. O estagiário em musculação tem 22 anos e coleciona itens geeks há quase três. "Gosto muito de heróis, mas antes de começar a minha coleção atual, eu tinha muitos mangás. Só depois comecei a colecionar HQs". Hoje, ele foca a coleção em pop funkos e HQs.

David, tem 73 funkos e mais de 70 HQs da Marvel e até da DC. Marvete, como ele mesmo se intitula, adora o Homem Aranha, seu herói favorito desde que era pequeno e o assistia na TV.

Ele diz que se sente muito feliz com suas coleções. "É muito satisfatório, é como realizar um sonho de criança", expressa.
 
Alguns itens da coleção de David | CRÉDITOS: David Fernandes.

Desde que começou a copilar itens de heróis, David possui HQs edição deluxe e dois pop funkos raros: o velho Logan, edição exclusiva da Comic Con de San Diego e outro do Naruto. Para acompanhar futuros lançamentos, ele segue páginas de pop funko e visualiza pelo próprio aplicativo da marca os valores de mercado, além de catalogar todos os funkos que possui.

Quem também acha que ter uma coleção é como realizar um sonho de criança é a comerciante autônoma, Vanessa Reimberg, 24.

"Eu não tive uma infância abundante e hoje eu procuro ter tudo que eu não tive lá atrás", ela conta e acrescenta um pequeno detalhe: "principalmente os vídeo games que na década de 1990 eram caros e sempre acabava jogando num vizinho ou primo por horas. Hoje eu tenho todos os consoles que eu queria naquele tempo".

Sem contar os consoles históricos, Vanessa coleciona mangás, quadrinhos e livros. Ao todo são 1.358 itens, sendo, respectivamente, 894, 367 e 97, além dos e-books. Ela que sempre esteve ligada à cultura pop, mas foi a partir de 2012 que teve um contato maior, quando começou a comprar quadrinhos, jogos e mangás.

Dentre os itens, possui HQs do selo Marvel, DC e Vertigo, coleções de mangás completas em português e japonês, consoles antigos e portáteis mais vários jogos, filmes de super-heróis e box de seriados, pop funkos... Seu quarto é um verdadeiro paraíso geek.
 
"O início de tudo foi com os mangás. Minha primeira coleção completa foi de Deadman Wonderland. Mas quando realmente decidi que iria fazer uma coleção, eu passei a frequentar eventos para comprar encadernados do Batman, Watchman, Os Supremos. A partir daí, a coleção começou a alavancar", ela relata, com ânimo, sobre o início do vício geek.

Desde 2012, Vanessa conseguiu itens exclusivos, como mangás japoneses originais, camisetas da Comic Con
 e feitos sob encomenda. Um deles é um Groot feito à mão, edição única.

Manter a coleção não é fácil. É preciso desembolsar determinado valor, por mês, para conseguir manter a entrada de novos itens. A comerciante explica que a internet facilitou muito a compra dos produtos.

Antes, ela comprava seus mangás em livrarias e bancas de jornal. "É muito prazeroso ir até a banca, escolher, pagar e vir para casa lendo. Mas o valor aumentou e hoje acabo optando por compras em sites", explica.

Mas ela alerta, como se fosse um recado para si mesma: "é preciso saber controlar, porque a vontade de ter é maior do que o salário que ganho".
 

Atualmente, Vanessa está introduzindo, a pequenos passos, um pouco mais da cultura oriental como novo gosto e nova coleção. A música foi  primeira etapa do novo ciclo.

Ela já tem todos os pop funkos do grupo BTS, o álbum "You Never Walk Alone" e alguns outros que estão vindo diretamente de um fornecedor internacional lá dá Ásia.

"Existe algo peculiar nos colecionadores geeks. Procuramos sempre ter a melhor edição daquele quadrinho,  estar sempre atualizados nos jogos; temos que ter aquela estatueta edição limitada daquele evento particular. Acho que ao unir essas necessidades, nasce um colecionador", é o que Vanessa mensura.

De todo modo, uma coisa eu aprendi.

Colecionar não é simplesmente acumular objetos. Como o próprio substantivo diz, coleções nada mais são do que compilações...

...Compilações de momentos que marcaram partes de suas vidas e que, de alguma forma, os fazem um bem imensurável.

Tanto Raquel quanto Vanessa possuem um Instagram em que mostram um pouco mais de suas coleções! 

Raquel - @casadafelizgeek (e o perfil do marido: @nossacolecaogeek)
Vanessa - @vanessareimberg

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