14/04/2019 às 14h45min - Atualizada em 14/04/2019 às 14h45min

A beleza das matriarcas do Riacho Doce

Ensaio retrata as condições físicas e emocionais da população idosa

Jéssica Viturino
Sebastiana Maria, 100 anos (Fotos: Jéssica Viturino)
O objetivo deste ensaio é retratar as condições físicas e emocionais da população idosa, que geralmente é socialmente esquecida. Segundo um estudo denominado “Projeção de População”, realizado no ano de 2018 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pressupõem que a partir de 2039 o Brasil terá, em média, mais pessoas idosas, de 65 anos ou mais, comparado às crianças de até 14 anos.

Neste ensaio o intuito foi retratar as idosas do bairro de Riacho doce, situado no litoral norte de Maceió. Primeiramente, para poder fazer estas fotos tive que criar um cenário, pelas histórias de vida, pelas informações que elas me passaram, olhei para elas com um olhar diferente, um olhar de afeto e, de acordo com a escritora Susan Sontag, uma foto pode ser objeto de três práticas (ou de três emoções, ou de três intenções): fazer, suportar, olhar. No litoral há um grupo de bordadeiras que se chama Borda Azul, este projeto promove a qualidade de vida, muitas delas relataram a melhora nos quadros de depressão, algumas chegavam a tomar remédio para conseguir dormir, e hoje encontraram no bordado uma forma de deixar os pensamentos ruins de lado e focar na produção de beleza que esta atividade transmite.

A fotografia pode ser vista como uma forma de arte segundo o filosofo Walter Benjamin, um dos grandes pensadores da Escola de Frankfurt, que amplamente discorreu a respeito da “Aura”, termo apropriado por ele quando escreveu o ensaio: “A obra de arte e sua reprodutibilidade técnica”, em 1936. 

A aura no contexto benjamiano refere-se à autenticidade, ao valor cultural que cada obra passa quando criada. No momento da produção das fotos, Dayse Nunes, Maria Antônia e Maria de Lourdes estavam bordando com uma alegria incrível, no mês de fevereiro de 2019 elas bordaram o mapa de Alagoas, e cada bordadeira estava situando a região onde nasceu, para mostrar o deslocamento delas até a cidade de Maceió. Este trabalho foi exibido no mês seguinte no museu de Sant Cugat, na Espanha, que este ano comemorou os 80 anos do exílio espanhol. Analisando as três imagens tiradas, é retratada a alegria em posar para a foto e a importância para elas de mostrarem o que estavam bordando naquele momento, demonstrando o prazer e o bem-estar do que elas gostam de fazer.

Maria Antônia, 71 anos

Maria Antônia, 71 anos


Maria Antônia, 71 anos 


Maria de Lourdes, 63 anos 


Dayse Nunes, 67 anos 


Como Riacho Doce é conhecido pelos beijus e bolos à base de coco e farinha de mandioca, entre outros aperitivos, não poderia deixar de falar das boleiras da região, que até hoje estão na beira da pista vendendo as especialidades. Como é o caso de Jaci Augusta, que faz bolos há mais de 35 anos. Ela explicou que já é uma tradição da localidade que permanece viva até os dias atuais.
 

Jaci Augusta, 82 anos 

Podemos observar nessa imagem o trabalho na terceira idade, o bem-estar de todos os dias ir para o mesmo local e vender doçuras. Jaci transmite a satisfação de participar da tradição do bairro e ter ensinado o mesmo para as filhas. “Eu ainda venho vender porque me faz bem, gosto de ver as pessoas e conversar, me divirto bastante todos os dias”, confirmou a senhora.

Nesse último retrato, de Sebastiana Maria, uma senhora de 100 anos de idade, vemos os traços que se formaram na pele com o passar do tempo, e da serenidade que existe no olhar, e o jeito gracioso de focar na câmera.


Sebastiana Maria, 100 anos 

Analisando cada foto tirada podemos perceber o olhar, os detalhes de cada rosto, a alegria que transparece em cada personagem e observamos os traços da velhice, principalmente na foto da Sebastiana, que nos lembra do filósofo Barthes que ressalta a fotografia como a velhice: “mesmo resplandecente, ela descarna o rosto, manifesta sua essência genética”. O meu sentimento neste ensaio foi de gratidão, pois conheci a história de vida de cada mulher e conheci mais sobre o bairro, e notei que a fotografia pode trazer alegria a uma pessoa, é a forma de manter viva uma memória, um momento.
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