19/04/2021 às 17h58min - Atualizada em 19/04/2021 às 17h47min

Yebá-Bëló: a deusa que criou o universo

Como a representação de uma divindade feminina incentiva a valorização e o respeito

Isabelle Marinho - Revisado por Mário Cypriano
Nova geração indígena da etnia dessana - Créditos: inPhocus Fotografia & MakeUp / Flickr
A criação do mundo e sua origem é um tema de grande curiosidade. No âmbito religioso, o universo costuma ser criado por uma divindade que é superior a todos os seres vivos. Embora as religiões espalhadas pelo mundo interpretem os deuses à sua maneira, as mais seguidas possuem uma representação masculina como adoração central. De acordo com dados do Centro de Pesquisas Pew (Pew Research Center), as três religiões com mais seguidores do mundo são: Cristianismo, Islamismo e Hinduísmo.

Confira os dados aproximados abaixo: 
 
Entre as três maiores religiões, apenas o Hinduísmo reconhece figuras femininas como divindades. Durga, por exemplo, que matou um dos deuses demônios mais temidos, o Mahisasur, sendo uma das representações femininas mais poderosas no universo. No cristianismo e no islamismo a figura divina é retratada como um homem, um Deus todo poderoso que criou tudo e todos. 

Todavia, mesmo que entre as religiões mais seguidas no mundo não haja a presença feminina como um ser poderoso e criador do universo, algumas crenças reconhecem as deusas em seus rituais e celebrações. No Brasil, a representação ocorre em alguns povos e comunidades indígenas, embora alguns grupos tenham mudado um pouco suas crenças desde a colonização do país.

 
“A questão memorial dos conhecedores indígenas, a história mística e sua religiosidade, continua a mesma forma de expressão, a mesma forma narrativa, mística e cosmológica”, como explica Jaime Diakara, professor, escritor e antropólogo da etnia dessano. 
Jaci é a deusa da lua, Tainacan, a deusa das constelações e Ceuci, deusa das lavouras e moradias. Porém, em um povo específico, os dessanos, há a crença em uma deusa tão poderosa a ponto de criar o universo, essa seria Yebá-Bëló
 
(Ilustração em aquarela de Yebá-Bëló por Brisa Versiani)

Essa etnia é dividida em mais de 20 comunidades pelo noroeste amazônico, abrangendo o norte do Brasil e algumas regiões da Colômbia. Geralmente, localizam-se entre o rio Papurí, rio Tiquié e rio Vaupés. Além de falar o português brasileiro, também possuem o seu próprio linguajar.

A religiosidade dessana conta com a figura da deusa Yebá-Bëló, uma mulher que se fez do nada e dentro de sua morada de quartzo, mascava folhas de coca e criava elementos do universo como o Sol e também elementos da Terra, como os humanos, Yebá-Bëló também foi responsável pela criação dos outros deuses dessa cultura indígena. 

 
“A força da terra está junto com as mulheres, não está com o homem. Muda o poder da mulher quando ela começa a plantar, quando ela vai colher ou até mesmo na bebida fermentada, o poder da mulher está dentro dessa bebida e o poder da Yebá-Bëló está lá, é o que chamam de geofísica, a força da terra, do solo [...] respeitamos as mulheres de uma forma diferente, por isso que os velhos dessanos falam que sem a mulher não existiria o mundo, não existiria a vida”, resume o antropólogo dessano.  
Desta forma, torna-se natural que a mulher seja vista de maneira sagrada e, consequentemente respeitada como uma igual, diferente das religiões onde a figura patriarcal predomina. Desse modo, a cultura de crenças de um povo contribui com as relações entre seres humanos, seja de gênero ou de classe social, e o ambiente onde vivem, a natureza.
 
(Foto: Maíra Coelho / Reprodução: Olhares)

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