03/06/2019 às 21h11min - Atualizada em 03/06/2019 às 21h11min

Evento na USP debate jornalismo e investigação

Regiane Oliveira (El País), Tatiane Farah (Buzzfeed Brasil), Guilherme Belarmino (Profissão Repórter) e Marcelo Soares (Lagom Data) dividiram suas experiências com o público

Carina Gonçalves
Esquerda para direita: Marcelo Soares, Tatiane Farah, Regiane Oliveira e Guilherme Belarmino. (Foto: Carina Gonçalves)
Repórter tem por objetivo principal investigar e descobrir a verdade através dos vestígios dos fatos, dando voz as vítimas ignoradas e percebendo pequenos detalhes não vistos por mais ninguém. Esse papel tão importante na carreira de Jornalismo foi o tema do evento “Dos Vestígios à Verdade: Jornalismo e Investigação”, elaborado pelo Jornalismo Júnior da USP.

Esse evento ocorreu dia 11 de maio, na Biblioteca de São Paulo, das 13h até às 16h e com a participação de Regiane Oliveira (El País), Tatiane Farah (Buzzfeed Brasil), Guilherme Belarmino (Profissão Repórter) e Marcelo Soares (Lagom Data). Eles compartilharam um pouco da experiência profissional e passaram ensinamentos aos futuros jornalistas.

Conheça um pouco cada palestrante da mesa e aprenda com as suas experiências:


Regiane Oliveira 
Crédito: Carina Gonçalves 

Caso encontre ela na rua algum dia não será difícil de identificar, pois tem muita atitude, falante, alegre, espontânea e adora pegar matérias desafiadoras. Esse jeitinho dela a fez pegar grandes reportagens com grandes empresários, estas pessoas são os seus favoritos para protagonistas das reportagens, como o Marcelo Odebrecht. Este homem se tornou o tema do seu primeiro livro “O Príncipe - Uma Biografia Não Autorizada de Marcelo Odebrecht”, que segundo ela, caso entrevista-lo é indicado colocar no currículo e de repente ele aparece admitindo ter feito tudo aquilo que foi acusado. O admirável empresário cometeu vários crimes.

Essa obra foi escrita por ela e o seu amigo Marcelo Cabral, a quem lhe concedeu o convite após voltar desempregada do mestrado na Noruega. Após tantas emoções, depois de um mês de ter conseguido aprovação para escreve-lo foi contratada pelo El País, que concedeu liberdade para redigir a biografia na redação.

Entretanto a elaboração do livro foi realizada com muitas entrevistas em off. Esse recurso é utilizado quando o entrevistado deseja se manter no anonimato, algo não muito discutido nas universidades. “Não discutimos muito no jornalismo por que uma pessoa deu entrevista”, afirma Regiane. Nesse contexto sobre o Marcelo importava, pois a raiva faz falar e naquele momento muitos não estavam satisfeitos com ele.

Além do livro, a última matéria sua publicada, até o dia do evento, no El País causou muito alvoroço. Era sobre as pessoas que não vão se aposentar por causa da Reforma da Previdência, com o título “Os inaposentáveis: o limbo da Previdência brasileira”. O problema concedeu por uma jornalista criar uma derivação parassintética com o prefixo “in” e sufixo “is” para publicar num grande veículo. Contudo liberdade de expressão permite e o domínio da linguagem também.

Portais: Gazeta Mercantil, Brasil Econômico, Valor Econômico, Rolling Stones, Estado de S. Paulo, Revista Época e atualmente no El País.

Tatiane Farah

Crédito: Carina Gonçalves

Ela não aparenta a idade, mas coleciona a grande experiência no Jornalismo com mais de 20 anos de carreira, no O Globo representa 10 anos. Nesses anos todos, ela aprendeu que a “reportagem é um processo coletivo, pois você precisa dos seus colegas, fontes e alguém que leia e se importe com o que você apurou. A gente não é dono da informação e não podemos sentar em cima dela. Se você tem uma informação e sabe que não pode dar então passe para frente, a notícia precisa ser dada não necessariamente por você”, ensina Tatiane.

Esse espirito colaborativo do jornalista não existiu sempre, antigamente a profissão era muito competitiva e perdia-se muito tempo escondendo as anotações dos colegas. Ainda bem que essa geração atual não carrega as manias do passado, por gostar tanto de jovem acabou entrando no Buzzfeed Brasil, a qual trabalha há três anos. Ela conta ser a pessoa mais velha da redação e até mais velha que os próprios chefes.

Contudo a idade mostra a grande quantidade de lições a serem compartilhadas durante a palestra, como os estereótipos que criamos antes da entrevista. “Quando nos entrevistamos uma pessoa temos que chegar despidos de conceitos pré-concebidos”, afirma Tati. Um exemplo dado por ela, uma vez foi fazer uma reportagem no Pará, para o Repórter Brasil, numa cidade que anda armada, mesmo ela contra o desarmamento acabou dando um tiro, pois o Padre emprestou a arma dele.

Outra lição de vida e essencial na profissão, as portarias, que seria “tudo e qualquer coisa na porta na casa de alguém”. Nesses lugares, aos quais o repórter passa por tempo ilimitado resulta em fontes, se relacionar com os colegas de outros veículos e se esconder do chefe muitas as vezes, confessa Tati, quer dizer tudo pode acontecer inclusive os convidados Regiane e Guilherme se conheceram desse jeito.

Portais: O Globo, Folha de S. Paulo, Jornal do grande ABC e Portal de notícias populares

Marcelo Soares 
Crédito: Carina Gonçalves 

Entre todos os participantes da mesa foi o único que contou a história do inicio da sua paixão pela carreira que seguiu. Começou em 1998, na Av. 24 de Outubro, em Porto Alegre (RS), quando a prefeitura resolveu transformar uma avenida de duas mãos em uma e depois vários comércios começaram a fechar. Ele vendo aquele acontecimento começou a se perguntar caso a prefeitura tivesse registro de mais fechamentos de estabelecimentos do lado ímpar depois da mudança e todo esse pensamento só por causa de uma cafeteria naquela rua, a qual frequentava na madrugada.

Após o questionamento, o levou a procurar e pesquisar por estatísticas e analise de dados durante os anos. Esse interesse o tornou o primeiro editor de audiência e dados da Folha de S. Paulo e ganhou alguns prêmios, como de Excelência em 2006.

Em 2018, resolveu criar a sua própria empresa de fornecimento de dados para empresas, a Lagom Data. Essas informações são coletas e análises de acordo com o conteúdo da empresa do cliente o seu desenvolvimento e fornece cursos.


Guilherme Belarmino 
Crédito: Carina Gonçalves 

Ele conhece diferentes realidades de várias partes do Brasil e do mundo, apurou durante a carreira temas muito delicados, como em 2015 a chacina de Barueri, em São Paulo. Essa reportagem o marcou muito pelo programa não ter concluído que a polícia saiu matando, mas por causa da morte de um policial morreu um mês inteiro em Osasco.
 

 
O que foi a chacina ?
A chacina ocorreu dia 13 de agosto de 2015, com policiais dentro de um carro terem atirado em pessoas na rua. Esse massacre concluiu em 17 mortes entre Barueri e Osasco, em São Paulo.
Em 2018, o PM da Rota Fabrício Eleutério foi condenado a 255 anos, 7 meses e 10 dias de prisão; o policial militar Thiago Henklain a 247 anos, 7 meses e 10 dias; e o guarda-civil Sérgio Manhanhã a 100 anos e 10 meses e Victor Cristilder Silva dos Santos a 119 anos, 4 meses e 4 dias pelas mortes.
 
Essa reportagem teve quatro dias de apuração sobre as mortes de uma semana antes da chacina, a qual dependia de os repórteres conseguirem o boletim de ocorrência. “Começamos a rodar na delegacia dizendo que queríamos ter acesso aos boletins de ocorrência de uma semana antes da chacina, os policiais não ajudavam nem assim e tivemos que esperar entre sábado e domingo a troca de turno. Oi tudo bem, eu sou o Guilherme do Profissão Repórter. Até uma das pessoas do turno chegar e dizer: tudo bem, então não é sobre a semana da chacina.”, afirma Guilherme.

Assim esta matéria ganhou o prêmio Vladimir Herzog de 2016, um grande reconhecimento pelo trabalho. Entretanto Guilherme ainda fica apreensivo sobre quando a história será passada a limpo, “acho que o jornalismo tem muito esse papel de tentar documentar os vestígios, pois a história vai passar a limpo o nosso trabalho. A história pode também passar a limpo o nosso trabalho da pior maneira possível”.

Editado por Alinne Morais

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