01/06/2021 às 02h12min - Atualizada em 01/06/2021 às 01h45min

Apropriação cultural | Do acarajé ao bolinho de “Jesus”

"Falar sobre apropriação cultural e alimento não estabelece o que pode ou não ser consumido", diz Rodney William.

William Haxel - Revisado por Mário Cypriano
Acarajé, patrimônio imaterial da Bahia - Foto: Reprodução / terradafelicidade.com.br
Reconhecido como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o acarajé é uma das comidas mais famosas da culinária baiana, tendo sua origem no Golfo do Berlim, na África Ocidental. 

Considerada a comida de Iansã (Orixá guerreira, senhora dos ventos e das tempestades), o alimento vem sofrendo uma tentativa de ressignificação na alteração da receita, dos símbolos utilizados nos tabuleiros e na nomenclatura do prato. O que é conhecido como acarajé, passaria a ser chamado pelos cristãos neopentecostais de "bolinho de jesus".

 

A história das baianas de acarajé


Tendo início na escravidão, os negros e negras escravizadas trouxeram consigo suas heranças culturais: culinária e religiosidade. No final do século XIX, as escravizadas tinham a permissão dos seus senhores para sair e comercializar o bolinho que é feito da massa do feijão fradinho descascado e batido, cebola, gengibre e camarão. Com isso, o acarajé além de ser uma comida histórica, passa a ser um símbolo de resistência.

"Comecei a vender acarajé desde pequena com a minha mãe, hoje, devido à pandemia, minha mãe precisou se afastar das atividades e eu continuei tomando conta", afirma
Naline Ferreira, 35, anos, ao dizer que tudo o que construiu vem da venda do acarajé.
 


Acarajé x Bolinho Cristão


A mudança no nome do acarajé passaria a ser interpretada pelos cientistas sociais e pelas Comunidades Tradicionais de Terreiro (CTTro) como apropriação cultural e descumprimento do artigo 23 da Constituição Federal. Segundo a CF:

Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios:

III - proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos;

 IV - Impedir a evasão, a destruição e a descaracterização de obras de arte e de outros bens de valor histórico, artístico ou cultural;

Por ser considerado um Patrimônio Cultural da Bahia, o decreto municipal de Salvador, N°26.804 de 01 de dezembro de 2015 regulamenta a venda de acarajés e afins, desde o alvará de funcionamento até as vestimentas que devem ser utilizadas para a comercialização do acarajé em espaços públicos, a fim de conservar a cultura afro-brasileira.


Apesar da legislação, a ressignificação ainda ocorre. Os cristãos trocaram o termo " bolinho de jesus" para: acarajé ungido, acarajé de cristo e acarajé gospel, fazendo com que não houvesse alteração no nome original do prato. O acarajé cristão passou a ser alvo de várias críticas e foi acusado de apropriação cultural.

 
"Há uma ideia de superioridade, dominação e negação da origem e da história (por questões religiosas ou políticas), É apropriação’’, escreve o doutor em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia, Rodney William, em seu livro "Apropriação cultural". O cientista social ainda esclarece que "o que determina um ato de apropriação cultural é o apagamento dos traços culturais ou o esvaziamento dos significados".
Para que um modo de viver e pensar não seja prejudicado apenas pela estética e lucro, é necessário apurar o senso crítico quando algo ou alguém quer tomar posse dos elementos principais de uma cultura minoritária ou inferiorizada, eliminando ou modificando seus significados.


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