11/04/2022 às 20h55min - Atualizada em 09/04/2022 às 23h37min

Jornalismo literário e a liberdade da escrita

Contexto histórico, jornalistas, filmes e séries importantes para entender por que o gênero é tão necessário

Lucas Lissa - editado por David Cardoso
Observatório da Imprensa. USC. República conteúdo. Tecnoblog. Jornalismo literário blog.
Jornais impressos e óculos. (Foto: Reprodução/Google Imagens)

O fato de o jornalismo conter em sua escrita características da literatura é inegável. O profissional que apura, investiga, analisa, escreve e transmite uma informação, ou seja, retrata a realidade, também precisa ter coesão no exercício da técnica com princípios teóricos e práticos, que possuam elementos da literatura, como ordem social, histórica e cultural.

O jornalismo literário une o fato da realidade com a realidade da ficção, que vem da própria estrutura literária. Ele cumpre a missão de informar com um alicerce narrado com mais profundidade, com expressões que são referência ao estilo literário jornalístico e que possuem semelhança à literatura da realidade, o romance de não-ficção, a literatura do fato, o jornalismo narrativo, jornalismo diversionista e a de não-ficção criativa. A síntese do jornalismo literário é a liberdade.

Contexto histórico

A primeira linha do nascimento do jornalismo literário começou no século 19, na Europa, EUA e América Latina pelos mesmos motivos: a guerra civil americana. Os jornais de grande tiragem que cobriam o acontecido, perceberam que fazer as coberturas diárias diretamente dos campos de batalha e enviar as notícias completas era difícil, pois o telégrafo era o meio de comunicação da época e a maioria das ligações caiam, interrompendo as informações. Foi quando surgiu a ideia de colocar no primeiro parágrafo o factual, surgindo o tão famoso lead.

Os profissionais que queriam cobrir a guerra com mais intensidade, perceberam que não dava para cobrir a guerra e falar sobre o clima e a tragédia em apenas um parágrafo. A dramaticidade e a intensidade das situações eram importantes, e começaram a fazer relatos mais densos do ponto de vista pessoal e mergulho na realidade, mesmo que fossem para serem mandadas por correio e publicados em edições especiais. A construção dessas narrativas possuía recursos que a literatura de ficção já tinha desenvolvido, só que aplicada ao real. A diferença é que o autor de jornalismo literário não inventava, não criava uma situação que não existe, só utilizava todo este contexto aos dados da realidade.

No Brasil, esta vertente do jornalismo também surgiu com uma guerra, a de Canudos. O primeiro profissional que fez algo próximo ao que chamamos de jornalismo literário na imprensa brasileira foi Euclides da Cunha (1866-1909). Culto, erudito e em sintonia com o que havia de mais de ponta na cultura europeia, Cunha era correspondente do jornal Estado de S. Paulo e cobriu a guerra de maneira tão elaborada, que as reportagens foram consolidadas no grande livro-reportagem Os Sertões, importante obra da literatura brasileira.

Outro ponto importante dentro do segmento de narrativas informativas literárias, é a de viagem. Pessoas que saem para conhecer o mundo, se inspiram e escrevem história de pessoas, dão voz a este outro segmento do jornalismo.

Os Sertões de Euclides da Cunha: entenda a Guerra de Canudos.

Os Sertões de Euclides da Cunha: entenda a Guerra de Canudos.

(Foto: Reprodução/Guia do Estudante).


A marca chave do jornalismo literário é humanização. Tentando compreender o ser humano em sua complexidade, as histórias são centradas na figura humana. Enquanto no jornalismo convencional a pessoa humana é apenas uma fonte de informação, no jornalismo literário a história é mais profunda por conta da busca de compreender assuntos diversos, desde um tema de ciência bem complicado, por exemplo, até algo do cotidiano de comportamento, política ou economia. O eixo de trabalhar essa narrativa é a figura humana, então sempre tem personagens reais no jornalismo literário.

A grande proposta do jornalismo literário é fazer com que o leitor compreenda o real de maneira mais plena possível. O autor se exime ao máximo de explicitar a opinião. Os maiores autores de jornalismo literário evitam expressar opinião de maneira muito clara, a fim de ajudar o leitor a ter uma excelência na compreensão. Sendo assim, o profissional não vai opinar numa linha de expressão ou julgamento de valor, mas vai dotar uma postura crítica. O famoso jornalismo gonzo, criado pelo Hunter Thompson, que fazia crítica social.
 
Jornalistas literários importantes

  • Eliene Brum
  • Caco Barcellos
  • Fernando Moraes
  • José Hamilton Ribeiro
  • Cristinan Carvalho Cruz
  • Ivan Marsila
  • Daniela Pinheiro
  • Gay Talese
  • Tom Wolf
  • Jhon Diod
  • Tisiano Tesani
  • Gabriel Garcia Marques
 
Jornalismo avançado

O jornalismo literário avançado é proposto pelo doutor Edvaldo Pereira Lima, da Universidade de São Paulo, como forma de incorporação de algumas inovações para auxiliar o autor a ter uma visão mais ampla do real e compreender de um modo mais substancial. Além disso, ajuda a desenvolver métodos que auxiliam o escritor a praticar melhor o jornalismo literário.

Os métodos do Lima vêm do campo da neurologia. Entender como o cérebro funciona em atividades intelectuais e atividades de criação é desafiador, e juntar os elementos de uma história, os personagens, os acontecimentos, os locais e a dinâmica das ações, de uma maneira eficaz e envolvente, e que ofereçam ao receptor da mensagem a possibilidade dele ser sensibilizado e atraído para aquela história, é possível através do método Jornada no Herói, que faz com que o autor conte uma história de forma profunda e prazerosa.  




No cinema de longa-metragem já se usam este método há muito tempo. Surgiu de uma junção entre os estudos das áreas da mitologia, a partir dos estudos do mitólogo do século 20, de Joseff Kembeol, e os estudos na área da psicologia humanista, o Carl Jung, onde os profissionais do cinema, especificamente de Hollywood, perceberam que o método trazia uma maneira eficaz de organizar a narrativa e cativar o público. Atualmente, uma ferramenta importante e eficaz na estruturação do jornalismo literário e a contação de histórias de vida reais.
 
Obras sobre Jornalismo Literário

Filmes
  •  A Crônica Francesa (2021) – principal obra da atualidade em homenagem ao jornalismo literário
  • Julie & Julia (2009)
  • Mensagem para Você (1999)
  • Sintonia de Amor (1993)
  • Voyeur (2017)
  • O Mercado de Notícias (2014)
  • Nobody Speak: Trials of the Free Press (2017)
  • Primeira Página: Por Dentro do New York Times (2011)
  • O abraço corporativo (2010)
  • Spotlight: Segredos Revelados (2015)
  • A História Verdadeira (2015)
  • O Escândalo (2019)
Capa do filme

Capa do filme

(Foto: Reprodução/Adoro Cinema).


Séries
  • Maid (2021)
  • The Morning Show (2019)
  • The Newsroom (2012)
  • The Bold Type (2017)
  • Great News (2017)
  • Sangue, Câmera, Ação (2017)
Capa da Série

Capa da Série

(Foto: Divulgação/Netflix)


Fontes:

WEISE, Angélica. Para compreender o jornalismo literário. 2013. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/diretorio-academico/_ed730_para_compreender_o_jornalismo_literario/

LIMA, Edvaldo. Entrevista à USC play, sobre jornalismo literário: muito além do factual. 2018. Disponível em: https://ucsplay.ucs.br/video/jornalismo-literario-muito-alem-do-factual/

República Conteúdo. 5 documentários obrigatórios sobre jornalismo. Disponível em: http://republicaconteudo.com.br/documentarios-de-jornalismo/

Tecnoblog. 8 filmes e séries sobre jornalismo para ver nos streamings. Disponível em: https://tecnoblog.net/responde/8-filmes-e-series-sobre-jornalismo-para-ver-nos-streamings/

Jornalismo literário. Arquivo da tag: Filmes sobre jornalismo literário. Disponível em: https://jornalismoliterarioblog.wordpress.com/tag/filmes-sobre-jornalismo-literario/


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