19/08/2019 às 18h06min - Atualizada em 19/08/2019 às 18h06min

Quando a distopia se aproxima da realidade

Semelhanças entre a ficção de George Orwell e a realidade política e social atual

Yorrana Maia - Editado por Socorro Moura

 

Mil novecentos e oitenta e quatro-1984- é um dos livros mais vendidos do século XXI. O livro, escrito em 1948, é uma crítica de George Orwell ao socialismo de Stálin, mas seus exemplares bateram recorde de venda logo após a posse de Donald Trump em 2017. Destinado a sociedade do pós segunda guerra mundial, a distopia orwellliana parece nunca ter perdido a atualidade e, infelizmente, a verossimilhança.

A ficção acompanha Winston pelos escombros de uma Londres devastada por um guerra sem fim e controlada pelo partido do Grande Irmão. O partido governa por meio de um autoritarismo psicológico, controlando o pensamento dos indivíduos para inibir rebeliões. Para isso, cria-se a “novilíngua” que condensa palavras e significados e restringe o vocabulário. Afinal se algo não pode ser mencionado, então esse algo não existe. Assim, se existe “bom”, por exemplo, não há necessidade de existir a palavra mau, apenas “disbom” e se algo for muito bom, o advérbio também é desnecessário, bastando “plusbom”.

Dessa língua, surge o conceito do duplipensamento: a capacidade de aceitar simultaneamente duas crenças contraditórias como corretas, ou seja, aceitar que o preto é branco e o branco é preto ao ponto de ter certeza que nunca foi de outra forma. O lema do partido consiste nessa certeza absoluta dos fatos contraditórios: “Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”. Os nomes dos ministérios também segue essa lógica, o Ministério da Paz é responsável pela guerra, o Ministério da Verdade manipula a história de acordo com os interesses do partido e o Ministério do Amor é encarregado de prender e torturar rebeldes.


Imagem do filme 1984 de Michael Anderson (1956). Na foto vê-se o lema do partido em inglês e a imagem do Grande Irmão em uma teletela.



Além do controle do pensamento, andando pelas ruas devastadas de Londres com Winston, pode-se notar a vigilância constante do olho do Grande Irmão, que tudo vê em todos os instantes. O partido espalhara teletelas em todos as ruas, casas, lojas, escritórios que observavam vinte e quatro horas por dia os indivíduos. Winston sabia da espionagem constante e compreendia que qualquer ação inconsciente feita em frente da teletela, seja um olhar de desgosto a um cartaz do Grande Irmão ou um suspiro de tristeza, podia significar uma passagem só de ida ao Ministério do Amor.

O protagonista trabalha no Ministério da Verdade, na seção de periódicos. Ele é responsável por alterar os fatos em periódicos já publicados, como previsões econômicas do partido que não aconteceram, mas foram publicadas em edições passadas; pessoas que desapareceram sobre os cuidados do Ministério do Amor e devem deixar de existir juntamente com todos os seus registros. O que o Winston faz no trabalho é manipular o passado, alterar a memória das pessoas, talvez a forma mais eficiente de controle social, pois, segundo Orwell, “quem controla o passado, controla o presente”. Alterando diariamente as informações dos jornais, o próprio protagonista acaba se confundindo sobre o que é verdade e o que é mentira e sua memória sobre como era o país antes do partido assumir o poder se torna cada vez mais tênue.


Imagem do filme 1984 de Michael Radford (1984). A foto mostra Wiston sentado no ponto cego da teletela da sua casa, escrevendo em seu diário (algo proibido pelo partido)




Orwell além de escritor, era jornalista e colocar o protagonista da sua história para alterar fatos em jornais pode não ter sido uma mera coincidência. Como jornalista, George Orwell sabia da importância e do valor da verdade e, como contemporâneo da ascensão dos governos autoritários de extrema direita e esquerda, ele testemunhou como um Estado autoritário podia manipular a população com informações falsas.

Longe das páginas do livro, o mundo enfrenta uma onda de disseminação de notícias falsas, sobretudo pelas mídias sociais, que se inicia pela fala e afirmações de políticos contemporâneos. Os ecos das palavras “fatos alternativos” ditas pela Casa Branca em 2017 levaram ao recorde de venda do livro 1984. Trump afirmou que em sua posse houve um público maior do que na posse de Obama, porém, quando contestado sobre a veracidade dessa afirmação com fotos das duas posses, a Casa Branca só se dispôs a responder que as fotos apresentadas eram “fatos alternativos”.

As eleições presidenciais brasileiras do ano passado, marcadas pela disseminação de Fake News (notícias falsas), foram um grande exemplo de como uma figura política influente pode manipular a verdade e levar centenas de pessoas a acreditarem. A campanha eleitoral de Bolsonaro utilizou as mídias sociais, como o Whatsapp e o Facebook, para compartilhar informações falsas. Uma das delas dizia que o governo anterior do PT havia distribuído nas creches e escolas primárias “mamadeiras de piroca” e “kits gays”. Apesar, de nunca ter sido apresentada nenhuma mamadeira desse tipo ou qualquer kit, a notícia foi muito compartilhada e, durante o período das eleições, muitas pessoas acreditaram (duplipensamento).

Quanto ao controle de privacidade não fictício, na China, a polícia utiliza inteligência artificial para reconhecer o rosto de indivíduos procurados. Entretanto, não é preciso tanta tecnologia para invadir a privacidade de alguém, basta um smartphone e uma conta em uma mídia social. No início deste ano, o presidente-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, depôs por mais de cinco horas ao Senado dos Estados Unidos sobre como a empresa estava envolvida no vazamento de dados de 87 milhões de pessoas pela consultoria política Cambridge Analytica.

Os dados dos usuários são coletados e armazenados pelas próprias mídias sociais, cada curtida no Instagram, cada foto compartilhada no Facebook, cada ação do usuário é convertida em dado e pode ser utilizada para traçar o perfil do indivíduo, seus gostos, seus desejos, seus amigos e interesses. Esses dados podem ser utilizados para fins políticos – como fez a Cambridge Analytica na campanha de Trump de 2016-, ou de espionagem, como revelado pelo caso Snowden. Qualquer que seja o caso, é como se no bolso de cada pessoa estivesse uma teletela vigiando-a vinte quatro horas por dia. No entanto, Winston ao menos, possuía a vantagem de saber os objetivos da teletela e assim ser capaz de evitá-la. Mas, no mundo não fictício, o que acontece se alguém fica desconectado do celular por mais de um dia?

George Orwell escreveu uma distopia, pois baseou sua ficção em fatos sociais e políticos que o alarmava e que, segundo sua concepção, poderiam ser catastrófico para a sociedade. Ele lutou na Guerra Civil Espanhola contra o General Franco, presenciou o horror da Segunda Guerra Mundial e a ascensão do ditadura de Stalin. Todavia, o escritor e jornalista talvez nunca tenha imaginado que sues receios sobre o autoritarismo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas fossem se tornar verdadeiros em Estados Democráticos e capitalistas.
 
Yorrana Maia
 
 
 


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