20/08/2019 às 16h01min - Atualizada em 16/09/2019 às 16h35min

Como as falhas ao combate às drogas do governo Witzel reverberaram em menos de 80h

Isabela Vilela - Editado por Camilla Soares e Renato Fragoso
Matheus Ribs
Dyogo Costa Xavier de Brito, Gabriel Pereira Alves, Lucas Monteiro dos Santos Costa, Tiago Freitas, Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior. Cinco jovens, com idades entre 16 e 21 anos, foram mortos no Rio de Janeiro em menos de 80 horas, vítimas do combate à guerra as drogas declarada pelo governador Wilson Witzel (PSC). Os assassinatos dos garotos da região metropolitana do Rio revelam o lado sombrio das políticas de segurança implantadas por Witzel desde que assumiu seu mandato, em janeiro desde ano. Segundo as famílias, nenhuma das vítimas, mortas nas ações policiais, tinham  ligação com o tráfico ou o crime organizado. Tais mortes expõem falhas no modelo de combate ao tráfico de drogas, principal pauta eleitoral do atual governador.

De acordo com dados preliminares, nos 4 primeiros meses de governo, a polícia do estado fluminense foi responsável pelo aumento em 19% das mortes em relação a 2018. De janeiro a junho deste ano, a média de óbitos nesse tipo de ação é de quase 5 por dia. Quando comparado as últimas cinco gestões, o mandato de Witzel é o mais violento neste quesito. Com o pressuposto de limpar o estado dos narcotraficantes que levaram o Rio ao estereótipo de violência conhecido hoje, o modelo de segurança pública aplicado ainda é tão misterioso quanto sua real eficiência.

A minimização da morte de inocentes, como Dyogo Xavier, morto enquanto seguia para seu treino de futebol, parece ser mero efeito colateral de um “bem maior". Ao autorizar e participar de atos de violência, como quando, em maio deste ano, disparou de dentro de um helicóptero, em direção à comunidade da Maré, o governador marca seu modo violento de fazer política. Na ocasião, ao ser repudiado por órgãos de defesa aos direitos humanos, o governador comentou que:

“Se reclamar da atuação da polícia, é melhor não ter polícia”

Apesar disso, o governador se orgulha do decréscimo no número de homicídios e latrocínios no Estado, incentivando, abertamente, o “abate” de traficantes e criminosos, referindo-se inclusive como tais mortes devem ocorrer: “atire em cabecinhas”. Segundo especialista em saúde e segurança pública, porém, tais quedas nos índices de crimes violentos podem ter vínculo com a diminuição da guerra entre facções dentro das comunidades, como já observado em épocas anteriores. De qualquer modo, Witzel parece agradar seus eleitores com polêmicas declarações sobre os efeitos positivos de sua  política no combate ao tráfico e a epidemia de consumo de drogas no estado. Utilizando granadas jogadas de helicópteros, apreensões de fuzis e uso de snipers em grandes ações, Witzel demonstra nas redes sociais que, para além da campanha eleitoral, suas promessas estão sendo cumpridas.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou no 3° Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira que o Brasil não vive uma epidemia de drogas, ao contrário do que se propaga. Segundo os dados da pesquisa, feita entre 2014 e 2017, mas divulgada somente neste ano após sofrer censura em maio, o uso de álcool é mais alarmante do que o consumo de crack no Brasil: 66,4% da população já fez uso de álcool pelo menos uma vez na vida, enquanto o consumo de crack foi feito por apenas 0,9% da população.

Em sua coluna para a Folha, Ilosa Szabó de Carvalho, especialista em segurança pública e política de drogas, afirma que sem o conhecimento dos dados, por parte da população, não há como medir e solicitar políticas públicas eficientes. Com a publicação da pesquisa da Fiocruz, fica evidente o equívoco do combate a violência no governo atual, que utiliza ainda mais violência para sua aniquilação.

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