12/02/2021 às 21h33min - Atualizada em 12/02/2021 às 21h07min

O poder suave da Onda Coreana

Conheça a estratégia política da Coréia do Sul para expandir a cultura pop ao ocidente

Brenda Destro - Revisado por Mário Cypriano
Grupo sul coreano BTS / Fonte: Getty Images

Nos últimos anos, a busca por aulas de coreano aumentaram. O interesse na cultura coreana cresceu no ocidente principalmente através de produções culturais. De shows lotados a lembrancinhas em lojas de conveniências nos centros das cidades mais populosas do país, a onda coreana chega ao outro lado do globo terrestre cativando milhares de admiradores.  

Esse fenômeno não se deu apenas pelo rosto bonitinho ou o MV (videoclipe) extravagante do cantor PSY, responsável pela popularização da cultura pop coreana pelo mundo com o hit “Gangnam Style”. Trata-se de uma estratégia cultural da Coreia do Sul para expandir seu mercado. Essa tática é conhecida como Soft Power ou Poder Suave.

O termo “Soft Power” ou "Poder Suave" surgiu inicialmente em 1990, cunhado pelo cientista político americano Joseph Nye para definir a capacidade de um país influenciar indiretamente os interesses de outros corpos políticos por meios culturais. Franthiesco Ballerini, doutorando em Comunicação Midiática e autor do livro “Poder Suave”, afirma que a Coreia do Sul vem se beneficiando desse método, uma vez que um dos ingredientes fundamentais para essa estratégia funcionar é a liberdade de expressão e a democracia.   

Ballerini diz que “o K-pop tem a vantagem de atingir um público jovem agora no século XXI, mas isso é algo que o Japão já faz há décadas. Vários países tentam utilizar sua cultura como poder suave. Infelizmente um dos exemplos de países com mais instrumento de poder suave cultural e que usa muito mal é o Brasil: as telenovelas, o carnaval e a Bossa Nova. E os três são muito mal articulados até pelo poder público”. 

A implantação do K-pop no ocidente ilustra o funcionamento do Soft Power, uma vez que dissemina a cultura e o idioma coreano, despertando o interesse de fãs estrangeiros através de um ritmo musical contagiante, coreografias bem elaboradas e videoclipes bem produzidos. 

Dados da Korea Foundation for International Cultural Exchange fornecidos pela Embaixada da Coreia do Sul no Brasil apontam que em uma comparação por setor, a aceitação do K-pop em 2019 foi de 67.7%. Um total de 21.4% a mais que em 2016, quando começou a ter uma maior expansão para o ocidente.  

O gênero engloba toda a música popular coreana e mistura diferentes estilos como R&B, hip hop, rock e etc. De acordo com a Fundação, o grupo BTS é responsável por 15.2% da popularidade. Sendo seguido por BlackPink, PSY, Twice e Bigbang. 

 

Em um exemplo de como o Soft Power utiliza o K-pop envolvendo o grupo com maior popularidade, surge a empresa BigHit Entertainment, que oferece diversas opções de produtos oficiais para os fãs, expandindo o idioma e atraindo uma atenção maior para a cultura local. Consequentemente, influencia de maneira positiva na economia do país. Álbuns com mais de uma versão, filmes, shows, jogos, série de conteúdos pagos e até mesmo o "Learn Korean with BTS" uma série de vídeos onde os próprios integrantes do grupo ensinam o idioma, são algumas das formas que a empresa encontra de alcançar um público além dos nativos do país. 

O interesse pela música pop coreana também tem influencia no aumento do consumo de telenovelas sul-coreanas, ou K-dramas, como são popularmente conhecidos. Vitória Ferreira, estudante de Teologia, confessa que sempre se sentiu atraída por produções orientais. A jovem é telespectadora assídua dos doramas (dramas televisivos), sejam eles japoneses, chineses ou coreanos, e diz que o que manteve o seu interesse nas histórias foi o fato de não ter apelos sexuais ou ilícitos, como algumas produções ocidentais podem ter. A estudante ressalta que por serem temas que quando trabalhados explicitamente despertam nela certo desconforto, ela acaba optando pelas produções orientais.   

Com Aliria Ildefonso não é diferente, a estudante da língua coreana relata que sempre teve interesse pela cultura asiática em geral. Sua introdução à onda coreana veio através de amigos que gostavam de K-pop e doramas, e sua paixão despertou após dar uma chance para as produções. 

Os gráficos disponibilizados pela Fundação Coreana para o Intercâmbio Cultural Internacional apontam que 62,1% das pessoas que tiveram acesso aos conteúdos da Onda Coreana, passaram a ter uma visão positiva da Coreia do Sul. Consequentemente, através das músicas, filmes, telenovelas e muitas outras manifestações culturais, o idioma passou a ser mais conhecido e mais procurado pelos estudantes.  

O avanço da Coreia do Sul ofereceu novas perspectivas para a globalização. Na constante atenção que o país recebeu, a procura por aulas do idioma ou intercâmbios aumentaram. Atualmente, já é possível pensar em um mundo que não seja tão focado em produções europeias ou norte-americanas.


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